Segunda, 28 de setembro de 2020 hh:mm:ss

UM NOVO PADRÃO DE BELEZA ou A CHINA É MUITO LONGE

Algumas coisas interessantes andam acontecendo pelo mundo afora, além do Corona Vírus.

Publicado em 3 de abril de 2020 às 02:05
Atualizado há 6 meses

       Mas construir e equipar um hospital de 1000 leitos, em seis dias, é mesmo impressionante! Negócio de chinês mesmo!

            Eles chamam isso de Inteligência de Enxame, como enxame de abelhas ou enxame de mosquitos… Enxames de drones, por exemplo, poderão pintar sua casa em poucas horas, combaterão incêndios florestais rapidamente, farão operações de busca e resgate imediatamente após o ocorrido, darão ajuda aos ilhados e desabrigados, em pouquíssimo tempo, levando alimentos e roupas.

       Enxame de máquinas foi a tecnologia usada por trás de todos aqueles tratores que aparecem nas primeiras imagens de regularização do terreno do grande hospital.

       Que nada!  -. disse-me um colega engenheiro – O Brasil também tem tecnologia para isso!

       Não colega! Tem não! Nós não temos tecnologia para isso! E muito menos cultura!

       Outro colega rebateu: – Aqui se demora mais tempo para dar o resultado de um exame de fezes!

       E a conversa, misto de seriedade e gozação continuou nesses termos. E eu fiquei me perguntando: se o Brasil tem tecnologia para construir um hospital em seis dias, por que demora tantos meses para reconstruir uma cabeça de ponte, depois de uma enchente ou mais de quatro anos para construir uma UPA, como em certa cidade do interior de Pernambuco?

            Por que tanta discussão e disse-me-disse para definir uma quarentena para brasileiros, que estão chegando de uma área de risco, com direito a debates, nas duas casas do Congresso? E em regime de urgência?!

            Dia desses, rodou nas redes sociais um filmete, com crianças orientais, fazendo contas com os dedos das mãos, (como a gente fazia quando era pequeno e recebia reprimendas) com uma agilidade incrível! Uma nova tecnologia de aprendizado de matemática de forma autônoma? Para obter independência das máquinas?! O que estará passando pela cabeça dos responsáveis pela educação, naquele país? Vão nos deixar para trás de novo! Ou…  mais ainda!

            Enquanto a gente ainda se enrola com pagamentos por cartão de crédito, os chineses, que chegaram atrasados nessa festa, pularam essa etapa, e já expandiram os pagamentos ‘on line’ pelo celular. Foram direto para os pagamentos móveis.

            Enquanto por aqui, Ali babá é uma história derivada do livro de contos As Mil e Uma Noites, na China se transformou em um grupo empresarial privado, com negócios baseados no ‘e-commerce’, pela internet, vendas no varejo, pagamentos on line, um motor de buscas de serviços e compras, listando-se entre as mais importantes do ramo, no mundo. Seu fundador, o bilionário em dólares, Jack Ma, é membro do partido comunista. Comunista? É. Comunismo chinês. Um capitalismo de estado e ainda com fortes elementos autoritários. 

       Se você olhar a China com velhos preconceitos, terá dificuldade para fazer análises e previsões. Como aquela velha ideia de que eles só sabem imitar.

            Em termos de IA, Inteligência Artificial, a China concorre hoje, passo a passo com os Estados Unidos e, de acordo com alguns analistas, o ultrapassarão até 2023.

           Em meados da década de 1950, os pioneiros da Inteligência Artificial, Marvy Minsky, John McCarthy, Herbert Simon, definiram uma Missão, com um Objetivo bastante ambicioso: “recriar a inteligência humana em uma máquina”.

           Agora, o ápice da moda é o Aprendizado Profundo – ‘deep learning’ – que, nos “finalmentes”, como diria Odorico Paraguaçu, dependerá da quantidade de dados à disposição. E ‘dados’ é o que a China tem de sobra.

           Em matéria de quantidades, a China não fica para trás de ninguém. Com um bilhão e quatrocentos milhões de habitantes (é gente! Viu?) e com mais da metade deles conectados à internet, compilando e digitando conteúdos em um só idioma. Um quantitativo que supera todos os indivíduos conectados nos Estados Unidos, Europa e Brasil juntos. Não será por falta de dados e de amostragem que suas máquinas deixarão de aprender as coisas, o ‘machine learning’ tornará mais fácil encontrar padrões em dados e automatizar a extração de valor. De acordo com o Relatório da Harvard Business Review Insights.

            Outra questão bem atual: fala-se hoje nas Quatro Ondas da Inteligência Artificial.

       A onda da Internet e a onda dos Negócios; a onda da Percepção e a onda Autônoma.

           As duas primeiras ondas já estão em pleno andamento, mexendo no nosso mundo digital e financeiro e na nossa vida, através de nossos celulares. O controle das empresas de internet em relação a nossos serviços, substituindo consultores por algoritmos, negociando ações, diagnosticando doenças, ajudando juízes e advogados a melhorar seus trabalhos de justiça. Ajudando a gente a achar o caminho de casa e chegar mais cedo, ou descobrindo pra nós coisas que só acharíamos numa biblioteca.

            Primeira Onda: IA da Internet, que começou há uns quinze anos e se popularizou em 2012. Se você observar direitinho, você vai notar que está sendo observado agora, enquanto lê este artigo!

           Nossas compras ou nossas buscas, nossas curtidas, visualizações rápidas ou demoradas de páginas da web, servem de mote para que nos sejam recomendados outros produtos e serviços. E feito um cadastro muito especial de todos nós. Big Brother mesmo!

           Ai a gente acha que a internet está ficando mais eficaz. Tá ficando melhor.

           Isso é apenas uma prova do poder da Inteligência Artificial, de saber quem nós somos e, de certa maneira, manipular nossa vontade, para o que queremos, tornando-se viciante. Além, é claro da formação de um imenso banco de dados.  E nesses termos, Robert Mercer criador da Cambridge Analytica, aquela empresa que trabalhou com os dados eleitorais americanos nas últimas eleições para a campanha eleitoral de Trump e para o Brexit na Inglaterra, afirmou:” Não há melhores dados, do que ainda mais dados”.  

Vale a pena repetir, gritando:

NÃO HÁ MELHORES DADOS, DO QUE, AINDA, MAIS DADOS!

 Segunda Onda: IA de Negócios. Nesse caso a tecnologia contou com os imensos bancos de dados de empresas e governos. Como companhias de seguros com seus acidentes, lugares, indenizações, frequência, manipulações.

           Nos bancos um montão de informações sobre investimentos, sucessos, falências e inadimplências, picaretagens. Fábricas de automóveis, sabendo tudo sobre sazonalidade de vendas, volumes, importações, exportações e certas informações de curral: Por que aumentam as vendas de automóveis no mês de março? Por que as pessoas que pedem empréstimo às quartas-feiras são mais corretas nos pagamentos? E aí as start-up’s que mexem com isso fazem trilhões de cruzamentos entre fatos, dos mais corriqueiros aos aparentemente mais imbecis e ajudam empresas e governos a detectarem fraudes, a fazer negócios mais inteligentes, a prever ameaças e descobrir ineficiências nas cadeias de suprimentos complexas.

           Nesse ponto a China sofre dificuldades com relação aos países ocidentais, por não ter sido costume por lá, a estruturação econômico financeira nos padrões, por exemplo, dos Estados Unidos. Agora se ressente da falta de históricos, de dados, de informações.

       A China não conta com o cabedal de conhecimento dos bancos ocidentais sobre empréstimo bancário e de dados de inadimplência, por exemplo. Mas isso não é motivo para ficarem parados, chorando sobre o leite derramado. O que fizeram então? Criaram um aplicativo que depende tão somente de algoritmos para fazer milhões de pequenos empréstimos.

           Em vez de fazer aquele cadastro com informações do tipo: quanto ganha, locais em que comprou anteriormente, nome do pai, da mãe, da tia, e declaração de renda… Pede apenas alguns dados do telefone do tomador: considera, por exemplo, a velocidade com que você digitou suas respostas, onde titubeou, quanta carga de bateria resta em seu celular e um montão de outros parâmetros não convencionais, parâmetros bestas, segundo nosso costume e ponto-de-vista.

           Os financiadores olham as ‘correlações escondidas’. Os cruzamentos mais insuspeitos. Treinaram os algoritmos para isso, em milhões de empréstimos, pagos ou não pagos, e descobriram milhares de pequenas e simples características que estão relacionadas à credibilidade. Características dos chineses! É claro.

           “Essas métricas incomuns constituem o que o fundador da ‘Smart Finance’, Ke Jiao, chama de ‘um novo padrão de beleza’ para empréstimos, para substituir as métricas brutas de renda, CEP e até mesmo pontuação de credito” (in Inteligência Artificial de Kai-Fu Lee).

       A ‘Smart Finance’ não é um banco, é, tão somente, um aplicativo com tecnologia de IA.  Que agora está abrindo linhas de crédito para populações antes impensáveis, como imigrantes. Hoje fazem milhões de empréstimos, com uma inadimplência considerada baixa. Fazendo inveja aos bancos tradicionais da própria China. É para isso que servem os dados e a IA! E os bancos de pedra e cal que se cuidem!

           Terceira Onda: IA de Percepção está começando em várias partes do mundo. Digitalizando o mundo físico ao nosso redor, conhecendo nossas caras, nossa voz, nossos trejeitos…  Isso na sequência deve atenuar as linhas e desassossegos entre o digital e o físico. Vamos ver em que vai dar!

           Quarta Onda: IA Autônoma será um momento mais sério. É o sonho dos malucos da tecnologia, em busca da ‘singularidade’. Aquele momento em que as máquinas superarão os humanos! Vão esperar sentados. Se e quando isso acontecer, elas também ficarão superadas!

           Todos devemos começar a rever certos conceitos e nos prepararmos para um mundo em que carros autônomos tomem as ruas e estradas, em que drones ou outros bichos voadores se apoderem dos céus; que máquinas, super-humanas se apoderem das fábricas, dos campos agricultáveis sem o trabalho humano, da pecuária com as vaquinhas com chips que não soltem pum para não furar a camada de ozônio, do controle do clima e definindo quando, quanto e onde deve chover, e nos deixando sem muito que fazer. O verdadeiro Ócio Criativo, previsto por Domenico De Masi. Não sei se essas máquinas tão poderosas permitirão nosso livre pensamento e livre ócio! Não esqueçam que sempre haverá alguém por trás dessas tecnologias!

           Em seu livro Inteligência Artificial, Kai-Fu Lee, bem no meio do volume, faz uma pergunta, simetricamente central:

“O principal gargalo para implementação total (da Inteligência Artificial) será a tecnologia ou a política?”

           Vejam, por exemplo: A empresa Tesla, a maior fabricante de automóveis do mundo, nos Estados Unidos preocupa-se em construir carros autônomos que se adaptem às estradas existentes e cuidar da segurança absoluta devido à responsabilidade civil. Parte-se do pressuposto de que as estradas não poderão ser mudadas e muito menos a legislação.

           Já para os chineses, tudo que existe pode ser mudado. Eles já se preparam para mudar o seu mundo. Construir cidades sob medida para carros autônomos. Eles pensam em construir uma sociedade e uma economia preparadas para IA. Essa é uma abordagem técnico-utilitarista, típica da cultura chinesa.

       A aceitação do risco, dessa forma, permite ao governo chinês fazer apostas em tecnologias revolucionárias e investir pesado nelas.

           É o que estão fazendo na área de diagnósticos em medicina e no aprendizado nas escolas. Ao invés de criarem milhares de escolas ineficazes de medicina, e esperarem vários anos para colher os resultados, optam por desenvolver tecnologias e instrumentos de diagnóstico e distribuí-los a todos os médicos e hospitais. Dando chance e abrangência de atendimento ao máximo da população – questão de ponto-de-vista!

           Usar a Inteligência Artificial para analisar cada aluno, seus costumes, suas preferências, suas tendências, seu ambiente e seu potencial. Dirigir o ensino, seus exercícios e os deveres de casa, sob medida, para a capacidade, potencial e tendências de cada um.

           A gente precisa começar a pensar:

           A certa altura do seu livro, Kai-Fu Lee, ao tempo em que era presidente da Google China, conta que, certa vez, foi fazer uma palestra sobre reconhecimento de fala e imagem, numa escola de engenharia da Universidade de Ciência e Tecnologia em Hefei, no sul da China.

       Na noite da palestra, os alunos se espremiam pelo salão e colavam os ouvidos nas janelas, na esperança de ouvir o que se falava lá dentro.

           Nessa época a china estava há pelo menos uma década, atrás dos Estados Unidos, em tecnologia, era o ano de 1999.

       Os livros à disposição dos estudantes eram antigos, desatualizados e mal traduzidos. A internet era bastante precária. Estudar fora só com bolsa integral, praticamente impossível. E era raro haver a oportunidade de ouvir boas palestras sobre tecnologia.

           As luzes dos dormitórios se apagavam às 23 horas. Kai-Fu conta que caminhando pela alameda para apanhar seu carro, se surpreendeu com a multidão de estudantes saindo em silencio dos dormitórios, para se sentarem no meio fio das calçadas, e usar a claridade para estudar. A claridade da iluminação pública!

           Ao invés de nos impressionarmos apenas com os avanços tecnológicos, vale a pena refletir em fatos como este. Para depois não nos pegarmos matutando: “por que eles conseguem e nós não”!

           Há quem tenha medo dos avanços tecnológicos e há os que se preparam para conviver com eles. Olha só o que nos diz o chinês, um dos criadores da IA, como hoje a conhecemos: “Parte do motivo pelo qual prever o final de nossa história com a IA é tão difícil é porque não se trata apenas de uma história de máquinas. (…) Nosso futuro com a IA será criado por nós e refletirá as escolhas que fizermos e as ações que tomarmos.” Kai-Fu Lee

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