Terça, 14 de julho de 2020 hh:mm:ss

A DOR MUITO ALÉM DO LUTO. ANTÔNIO PROVAVELMENTE MORREU DE COVID-19 E ERA CASADO COM POLLYANA, UMA PESQUEIRENSE.

A dor insuportável da esposa de uma vítima do Covid-19. Pollyana Pires perdeu o marido e não houve velório.

Publicado em 22 de abril de 2020 às 19:22
Atualizado há 3 meses

       Depois de insistir dezenas de vezes, pedindo apenas uma informação sobre o estado de saúde do marido, que estava na UTI do Hospital Português, no Recife, um médico (a pedido de uma enfermeira), atendeu o telefonema de Pollyana.

       Na ligação, ele foi claro: “Nós estamos dando prioridade aos pacientes. Meu plantão está superlotado e para dar notícias aos parentes é muito difícil porque preciso tirar toda a proteção, retirar toda a roupa hospitalar e vir atender o telefone. É quase impossível vir dar notícias sobre pacientes”, disse o médico.

       Pollyana e toda a família entendeu a dificuldade do médico, em meio a tanto trabalho. Fornecer uma simples informação dentro da UTI é impensável.

DIAS DE TERROR

       Pollyana Pires é pesqueirense e ainda vive dias de terror, segundo sua irmã gêmea, Patrícia. O marido de Pollyana, Antônio Fernando Coelho de Azevedo, 43 anos, foi internado com sintomas de Covid-19 e ela não teve detalhes do caso, sequer pôde acompanhar o marido e, dias após sua internação, recebeu a notícia que ele tinha falecido.

       A família ainda aguarda o laudo médico para comprovar se a morte foi mesmo por coronavírus, mas o pessoal do hospital informou aos parentes que as chances são gigantes de ser covid-19.

       Na segunda-feira, 20 de abril, Pollyana (que estava de quarentena em casa), recebeu uma ligação do hospital. “Eles disseram apenas que o estado dele era muito grave e que era para ela ir de imediato ao hospital. Chegando lá, deram a notícia que o marido dela tinha morrido”, conta Patrícia.

       Antônio Fernando Coelho de Azevedo foi sepultado como suspeito de Covid-19. Todo o protocolo exigido foi realizado: sem velório e acompanhamento no funeral. Segundo parentes, ele já era “uma pessoa de doenças cardiovasculares, tinha diabetes e era hipertenso”.

       Muito além da profunda dor de perder o marido, Pollyana, ouviu do pessoal do hospital que ela apenas iria reconhecer o corpo, que seguiria para o sepultamento sem acompanhamento. Arrasada, Pollyana teve que voltar pra casa e ficar em quarentena.

       “Nunca pensei que ela ia passar por isso. Também acredito que ela jamais vai esquecer na vida os momentos terríveis que passou e passa”, explica Patrícia.

       Pollyana Pires e Antônio Fernando Azevedo se casaram e foram morar em Aldeia, em Camaragibe, Região Metropolitana do Recife. Ele trabalhava em casa como autônomo, comercializando produtos e programas de games. Raramente saia de casa, nem viajava para o exterior. Não se sabe como foi contaminado.

DUPLA DOR

       Segundo psicólogos, os parentes podem sofrer muito com a “dupla dor”, modo definido por alguns médicos com o trágico sentimento das pessoas impedidas de viver o luto. Segundo psicólogos, o ritual do velório, quando se olha para o corpo de alguém morto para a despedida, é a maneira de se compreender que de fato aquela pessoa se foi.

       “Pular esse momento, além de agravar a dor, traz efeitos psíquicos indesejáveis”, atestam psicólogos.

       Estudos no campo da psicanálise apontam que parte das depressões mais difíceis de curar, por exemplo, decorrem de luto mal feito, mal elaborado, interrompido ou não reconhecido.

        Com o avanço da pandemia do novo coronavírus, a impossibilidade de velar e enterrar os entes queridos deixou de ser uma realidade distante.

       Mas, o caso de Antônio Fernando seguiu determinação de medidas sanitárias, que foram adotadas para evitar a transmissão do vírus durante as cerimônias fúnebres. Os métodos interferem nos ritos de despedida.


       A dor da perda é grande, mas em tempos de coronavírus se torna enorme porque os corpos são sepultados em urnas lacradas. “Nós os parentes, não pudemos nos despedir do marido da minha irmã, tampouco estamos podendo acompanhá-la, porque está de quarentena”, finalizou Patrícia.        

  “Tem muita gente que não dá importância a essa doença. É muito séria e traz momentos sombrios para todos os parentes. As pessoas devem se conscientizar e seguir o isolamento para evitar a contaminação”, diz Patrícia Pires. “Eu moro em Arcoverde sigo à risca a quarentena e ainda tem pessoas que lhe taxam de paranoica, porque não estão nem aí para o problema”, revela Patrícia.

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