Segunda, 28 de setembro de 2020 hh:mm:ss

AIRTON MONTEIRO – A ROCHA, O MARISCO E O MAR

No embate entre as ondas e o rochedo quem sofre é o marisco.

Publicado em 9 de abril de 2020 às 22:51
Atualizado há 6 meses

Quando duas superpotências resolvem se confrontar em busca de protagonismo, temos duas saídas, ou nos portamos como meros observadores ou levamos nos costados o efeito das pancadas, até virarmos espuma.

De um lado, nossos vizinhos, os Estados Unidos, que apesar de terem a mesma idade que a gente, possuem certos aspectos que nos colocaram em estágios tão diferentes de desenvolvimento: primeiro, a colonização feita por pessoas que foram para lá, para ficar; e uma revolução, onde eles resolveram, na bala, o que iam ser na vida.

No Brasil, quem veio pra cá, veio buscar, veio pra levar, veio pra tirar. E muito depois implantaram-nos, sem anestesia, um estado pronto e regrado, uma monarquia completa com trono, rei e espada, com leis decretos, portarias, côngruas. Sistema hierárquico, condes, duques e marqueses, força naval, exército e banco para cobrar impostos e uma enormidade de pagamentos em ouro, à Coroa Portuguesa. O Quinto dos Infernos!

Não é que tenhamos ficado apáticos durante todo esse tempo. Aqui e acolá surgiram algumas revoltas, imediatamente abafadas pela espada ou pela troca de favores, quando não, pelas duas coisas. No duro, no duro, a grande população se manteve assistindo, como observadores.

– A gente num tem nada a ver com isso!

Do outro lado do embate está a velha China. Bota velha nisso! 5.800 anos de acordo com os últimos estudos. Um bilhão e meio de habitantes. Cultura milenar no DNA de uma imensa população, vivida, sofrida, experimentada.

Enquanto nós nos fizemos descendentes da cultura greco-romana, de um pouco mais de dois mil anos, temos o desplante de querer ensinar democracia aos outros povos. Uma democracia que nasceu lá num recanto da Grécia e que lá mesmo morreu, porque o que temos hoje só guarda daquilo o nome.

Mil, dois mil, três mil anos antes de Cristo, os chineses já desenvolviam sua própria filosofia. Caracterizada pelo aspecto prático da convivência, procurando orientar o ser humano sobre como se portar com harmonia em sua vida. Um tanto diferente das especulações teóricas, da filosofia grega. Tome-se por exemplo, conceito de forças opostas Yin Yang do Taoísmo. Se puder, pesquise o “Livro das Mutações”, ou I Ching.

As duas sociedades têm os seus valores, excelentes para elas, consolidadas em sua sociedade. Quem já passou pela experiência de morar no exterior, sabe a dificuldade em conviver, em pensar, em tirar conclusões, em terras alheias.

Quem já teve a curiosidade de ler SunTzu, um grande pensador chinês, e sua obra A Arte da Guerra, tão badalada por aqui há um certo tempo, e entendeu seus aforismos, não pode estranhar o que está acontecendo.

Se é verdade que a Revolução Cultural de Mao Tse Tung e a tentativa de implantar a filosofia marxista no mundo chinês foi uma forma de obnubilar a cultura e a filosofia milenar chinesa, na minha fraca opinião, não deu certo.

Após o regime imperial, começou um processo de importação da filosofia ocidental, interrompido com a ascensão do regime comunista em 1949

O conceito tradicional chinês de respeito à autoridade levou os ideólogos do Partido Comunista Chinês a execrarem, a filosofia chinesa, preferindo apoiar o marxismo e o pensamento de Mao Tsé Tung, sobretudo o expresso no Livro Vermelho.

repressão intensificou-se com a Revolução Cultural Chinesa, a partir de 1966. Até o Massacre na Praça da Paz Celestial se não me engano e 1989.

A China que surge hoje é algo inesperado para o Ocidente. Derrubar uma cidade para adapta-la aos automóveis autônomos não faz o menor sentido para nós, mas pode ser normal para eles.

Se a gente observar direitinho, o comunismo chinês, o grande partido, a bandeira vermelha e a prática econômica do país, tem pouco a ver com as excelentes teorias do Marxismo, pelo menos como o conhecemos e entendemos.

Querer medir as ações e políticas chinesas por nossas referências políticas, religiosas e democráticas ocidentais é uma terrível perda de tempo. Nada bate com nada. Não há pontos em comum. Um não pode ser referência para o outro. Muito menos, princípios e filosofias.

A forma de pensar, de raciocinar e até de exprimir as ideias são essencialmente diferentes.

Voltando a SunTzu, ele diz que quem tem homens sob seu comando, deve saber utilizar igualmente, o fraco e o corajoso, o avaro e o tolo (espero que não estejamos entre esses!) e distribuir as tarefas conforme suas habilidades. E diz ainda, se você quer vencer a batalha precisa conhecer bem suas condições e as do oponente. E se o inimigo abre uma pequena porta, faça entrar todo seu exército por ela.

Se você ler, pelo menos as principais frases de Sun Tzu, ficará impressionado com tudo o que agora está acontecendo, como: “Se você conhece o inimigo e conhece a si mesmo, não precisa temer o resultado de cem batalhas. Se você se conhece, mas não conhece o inimigo, para cada vitória ganha sofrerá também uma derrota. Se você não conhece nem o inimigo nem a si mesmo, perderá todas as batalhas”

Sun Tzu

“A suprema arte da guerra é derrotar o inimigo sem lutar” Sun Tzu

E estão conseguindo. 

Já notou que ninguém fala nas armas nucleares chinesas ou em seus exércitos? Lembra dos desfiles militares da União Soviética, da Coreia do Norte? Ou as demonstrações de Poder dos Estados Unidos?

Estão entendendo, meus caros mariscos, onde estamos nos metendo?

Há poucos dias, em outro artigo, falei de uma universidade chinesa, onde os alunos desciam para a rua, à noite para estudar sob a luz da iluminação pública.  Nós brasileiros conhecemos por aqui, algum lugar em que pudesse acontecer isso?

Depois de termos assistido calados o fim do nosso, nem lá muito bom, sistema de ensino, por ideologias sem qualquer comprovação científica, implantadas apenas para fazer jus aos interesses partidários? O que fizemos?

Os pais, por acaso, não viram isso? Os jovens sempre tão revoltados e bem intencionados não perceberam isso?  

Mais uma vez cruzamos os braços e ficamos à espera de que alguém resolvesse. Não apareceu ninguém, sequer, para nos mandar bater panelas, na 

janela. Que ridículo!

– A gente num tem nada a ver com isso!

Agora, meus tristes mariscos, somos obrigados a assistir a luta dos Titãs, sem qualquer condição de influir ou dar palpite. Cuidado pra não escorregar na pedra!

Afinal a gente esqueceu até, como raciocinar pelo método greco-romano e nem temos a menor ideia de como se pensa como chinês.  

E para não perdermos tudo, dividimos o país em duas metades, de esquerda e de direita, sem ao menos sabermos onde é o centro, um tentando derrubar o outro, querendo passar a perna, querendo levar vantagem… todas essas pequenas coisas, que fazem o Brasil, Brasil!

Impressionados com as cores das bandeiras dos outros, esquecendo as da nossa. Terceirizando tudo, até nossa dignidade.

Aparece uma pandemia e não temos reagentes para os testes, porque a nossa preguiça prefere comprar lá fora. E nossa burrice não acredita em ciência!

Faltam máscaras porque os outros não nos estão vendendo, esquecemos que temos no Brasil milhares de polos de costura que podem resolver isso imediatamente. Cupira em Pernambuco já começou, Toritama e Santa Cruz do Capibaribe, se dizem capazes e dispostos.

Mas as nossas autoridades se acostumaram a pensar somente lá fora. Cada vez mais lá fora.

Em grandes apertos de mão, grandes negociatas! Ah se vocês vissem, as orientações sobre planejamento estratégico emanadas de Brasília!    

E continuam os apertos de mão, colóquios, seminários, (acordos?) Sem sequer ter noção dos meandros mais elementares da língua, quanto mais do pensamento!

Subordinar-se a qualquer dos dois lados, é simples! Não dói muito. Agora escolher, sem saber, na base do cara ou coroa é bastante arriscado.

Nós não nos preparamos para nenhum dos dois. Aliás, nós não nos preparamos pra nada.

Vejamos como somos, de olho no: em como eles são:

Somos mestres em gritar por liberdade, mas não respeitamos a liberdade dos outros.

Lutamos bravamente, até pelo direito que não temos, mas não queremos saber de nenhuma responsabilidade.

Separamos muito bem o que é próprio e o que é dos outros, mas consideramos que o que é público como de ninguém e se facilitar “eu me aposso”.

Não temos qualquer respeito à disciplina, exceto aquela que imponho aos outros.

Continuamos achando que trabalho é castigo e que a vadiagem é o supra sumo da vida dos ricos.

Consideramos todos os patrões como inimigos que querem nos explorar e nós, empregados, como pobres coitados e explorados.

Sim eu sei. 

Nós temos muitas características boas: alegria, musicalidade, gentileza… 

Será?

Olha mariscos, isso só nos salvará se o mar ou a rocha precisarem!

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