Quinta, 09 de julho de 2020 hh:mm:ss

AIRTON MONTEIRO -CONSIDERAÇÕES SOBRE O TEMPO

Mas afinal o que é o tempo, a vida, o fim? Essas questões filosóficas que andam pela cabeça de todo mundo e que não têm respostas. Se tivessem não seriam questões filosóficas.

Publicado em 30 de abril de 2020 às 22:20
Atualizado há 2 meses

Amanhã é domingo pede cachimbo,

O cachimbo é de barro bate no jarro

O jarro e de ouro bate no touro

O touro é valente bate na gente

A gente é fraco cai no buraco

O buraco é fundo acabou-se o mundo.

Quem não lembra dessa parlenda?!

Antiga, engraçada, infantil, um jogo de palavras para animar a meninada, que tenta fazer um paralelo sobre a vida, sobre as sequências e consequências dos atos e dos fatos, até o final dos tempos.

Uma brincadeira sobre o tempo. Sobre o correr do tempo.

Mas afinal o que é o tempo, a vida, o fim? Essas questões filosóficas que andam pela cabeça de todo mundo e que não têm respostas. Se tivessem não seriam questões filosóficas.

A gente fala em controlar o tempo, ganhar tempo, perder tempo, mudar o tempo, seguir o tempo, sem saber o que é o tempo…  Até que ele comece a nos faltar.

Um filosofo grego pré-socrático, Zenão de Eléia, dizia que não havia movimento, tudo era um ‘eterno’ retorno. Daí já se conclui que tempo tem alguma coisa a ver com movimento.

Precisamos trapacear o tempo para nos libertar do espaço, ou ao contrário? A gente consegue imobilizar ou se imobilizar no espaço, mas não pode fazer isso com o tempo. Ele é irrecuperável, intransponível insubstituível.  

Mas ainda há muita coisa a dizer sobre isso.

Por exemplo os cães medem o tempo pelo faro. Se você passar o dia todo em casa com seu cão, ele não lhe abanará a calda. Mesmo que você passe o dia todo na cama e ele no quintal. Mas se você sair por algum tempo, na volta, ele vai recebe-lo, fazendo festa.

É como se ele medisse o tempo pelo faro, pelo tempo que você esteve fora do alcance do seu faro.

Pensando bem, nós medimos o tempo pela visão e o tato, ou, sobretudo, a partir disso.

Temos durante nossa evolução perdido o faro e a sensibilidade para com o outro.

Precisamos recuperar os sentidos. Vivemos calçados e perdemos o contato com a mãe terra! (Vejam como as crianças adoram ficar descalças). Usamos protetores solares para nos proteger do sol que é a fonte da vida. Desenvolvemos todo tipo de alergia sobre alimentos e cheiros, devido à forma de utiliza-los e guarda-los. Queremos ver mais do que a visão nos permite e cada dia vemos menos.

O faro há muito que perdemos, obnubilado por perfumes artificiais que embotam as sensações dos perfumes naturais e que deveriam ser nossa principal defesa, como nos animais. Se observarmos direitinho, não é o mundo que muda, nós é que mudamos o mundo.

O tempo é uma coisa individual. É diferente para cada um. O tempo só acontece na primeira pessoa.

Eu fui e você ficou! É muito mais uma afirmação sobre espaço do que sobre o tempo. Você cria uma ilusão e a repete infinitamente. Isso é a nossa vida, nosso tempo! Eu tenho certeza que estarei vivo ontem (e não, amanhã).

O ontem já passou. O amanhã ainda não existe e o agora dura frações de segundo.

Pensando bem, além de individual é pura ilusão!

O tempo existe, enquanto existir movimento. Se a terra parar agora. O tempo parará também, agora! Se o sol parar sua rotação, não haverá dia e noite e, portanto, não haverá tempo! Alguma dúvida?

Sem espaço também o tempo não sobrevive.

Parar no tempo é o mesmo que parar no espaço.

No entanto, o tempo é a ilusão mais real que nós temos, em nossas vidas. Afinal, a vida nada mais é que ‘o tempo que durar o nosso tempo’.

Tempo é um elemento complicador de nossas vidas que a gente fala o tempo todo e ninguém consegue definir.

A gente o mede através de relógios. Que nada mais são que uma sequência de espaços. Fala dele, como passado, como presente e como futuro sem ter o mínimo controle sobre ele, apesar de se tentar e de se demonstrar que o temos debaixo de nosso poder: O passado acaba de acontecer, o futuro ainda virá e o presente quando a gente acaba de identifica-lo ele já se foi!

E aí nos perguntamos: o que fazer quando somos obrigados a parar? Somos obrigados a ficar parados, contidos num espaço?

Mas vamos ‘parar’ nossas digressões filosóficas e falar de coisas mais prosaicas. Por exemplo cinema. Que nada mais é que luz e sombra, tempo e movimento. Uma sequência de fotos estáticas, que criam movimento na velocidade sobre o espaço.

Nesses tempos de confinamento, de parada obrigatória do tempo e das restrições de espaço, nos sobra tempo (e espaço) para ler, pensar, e lembrar de coisas que haviam se perdido no tempo.  Ou que nós esquecemos nos nossos exíguos espaços.

E ai me lembrei de dois filmes, um de 1993, ‘O Feitiço do Tempo’ ou para alguns, O Dia da Marmota, Groundhog Day (as marmotas se parecem esquilos grandes e vivem em países frios) e o outro filme, de 1962, é ‘O Anjo Exterminador’ do genial Luís Boñuel.

Os dois filmes tratam de tempo e de confinamento. Que coincidência!

Um fala de confinamento no tempo e o outro de confinamento no espaço. Por favor, não passem isso para os nossos governantes, se não eles vão querer criar mais essa distinção. Além do vertical e do horizontal. Já pensou: um confinamento vertical de tempo num confinamento horizontal de espaço? E o Ministro da saúde explicando isso?!

No primeiro filme, o protagonista, um apresentador do tempo, Homem do Tempo, Weather Man, como se diz em inglês, e do clima, na televisão, vai para uma cidadezinha do interior, acho que da Pensilvânia, fazer a cobertura das festividades do ‘Dia da Marmota’, uma lenda local sobre a condição da marmota fazer as previsões do clima, para o ano que se inicia.

E, no dia seguinte ao Dia da Marmota, ele descobre que o tempo não passa, ou não passou. Ele, o Homem do Tempo, ficou preso ao Dia da Marmota.

        E durante dias e dias, a cena se repete: ele se descobre, vivendo o mesmo dia, com as mesmas pessoas, com os mesmos fatos e os mesmos atos. E em cada dia ele tenta fazer algo diferente para se libertar das correntes que o tempo lhe havia posto em suas pernas.

O diretor, Harold Ramis, teve a brilhante ideia de colocar uma questão filosófica, no formato de uma comédia de costumes.

A gente ri, do começo ao fim do filme, mas, no outro dia de manhã, quando a gente acorda, fica preocupado com a passagem do tempo, e olha, meio desconfiado, para aquilo que estava ali na véspera.

No filme, as pessoas se movem, saem de casa, são livres, mas o tempo se repete inexoravelmente. Elas estão confinadas no tempo!

O Protagonista está preso no tempo, mesmo podendo se movimentar. Não pode sair da cidade, porque a cada manhã ele se acorda e se levanta no mesmo lugar, e da mesma maneira. Pensando bem, é terrível!

No filme de Boñuel, O Anjo Exterminador, que não dá para rir em nenhum momento, nem existe anjo nem ele extermina ninguém, mas em compensação quase que os personagens se exterminam entre si, ante a própria realidade.

Enquanto no primeiro filme a questão é o tempo, aqui o elemento principal é o espaço.

A história se passa num mesmo lugar, que não é um espaço fechado, mas que funciona como se fosse.  

Um lauto Jantar, precedido de uma audição musical, para pessoas da alta sociedade, numa vasta mansão na Rua da Providência, mais uma gozação de Boñuel, e que, por um milhão de motivos sem sentido, não consegue ser servido.

Os empregados sentem uma enorme vontade de ir para suas casas, e vão!

O Garçom derruba, por acidente, o prato principal, e, por fim ninguém consegue comer nada.

Quando tentam sair, com as portas todas abertas e sem guardas lá fora, uma força intima em cada um impede a saída.

Uma fronteira invisível e intransponível, enclausura aquelas pessoas. Elas são aprisionadas, por suas mentes, num mesmo espaço, por vários dias.

E é aí que acontece o inesperado.

A fome, a claustrofobia e a paranoia resultante dessa clausura, apagam todos os limites entre a civilidade e a selvageria.

Desfazem-se não somente as maquilagens, mas também caem as máscaras e as fantasias que cada personagem representa na vida social. As etiquetas desaparecem e as pessoas surgem como elas são, no seu recôndito mais íntimo e mais obscuro. Desaparecem também todas aquelas aparências da convivência social. As pessoas começam a se mostrar como elas são verdadeiramente.

        Na chegada todos pretendiam mostrar seus corpos sarados, suas roupas de grife, suas joias, seu poder econômico e social e sua influência política. E agora, nada disso interessa mais nem impressiona mais ninguém!

O traquejo social, o jogo de sedução, a cordialidade, o jogo sutil do poder e da convivência e da conveniência se desfazem totalmente, e os personagens que antes mantinham o discreto charme da burguesia, se portam como se estivessem nus, mostrando suas partes pudendas, suas mazelas, seus defeitos, seus vícios, suas atitudes mais torpes, mais mesquinhas, mais doentias.

E a convivência se torna insuportável.

Ninguém consegue manter uma aparência social aceitável. E a vida se torna um inferno!

De repente, volta-se à cena inicial do filme, a audição musical, e o encanto ou desencanto, como num passe de mágica desaparece e tudo volta a ser como era antes. Ufa!

Mas, no final do filme, com as ovelhas correndo para dentro da igreja, perseguidas por lobos vorazes e a população alienada correndo à procura de drogas, enquanto a polícia atira na praça. Choca!

O que deve significar a cena final do Anjo Exterminador? O anjo de Boñuel parece querer exterminar a falsa moral e as aparências, e pôr para fora as mentiras do nosso dia a dia. E nós afinal, estamos confinados no espaço ou fizemos uma reclusão involuntária no espaço?

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