Sexta, 25 de setembro de 2020 hh:mm:ss

AIRTON MONTEIRO – MEMÓRIAS DA TERRA E DO TEMPO

Não faz muito tempo, só sete séculos, mas marcou tanto a humanidade, que, ainda hoje, serve de referência para tudo quanto é de desgraça

Publicado em 7 de maio de 2020 às 22:04
Atualizado há 5 meses

       Até os nordestinos brasileiros, que sequer existiam naquela época, e que nunca viram nada parecido, quando querem caracterizar alguém que está passando dos limites, e, sem saber ao menos o significado de bubônica, diz:

– Tá com a bobônica! Isso é uma peste!

       Bubônica, Peste Negra, Peste ou bobônica, como dizem os nordestinos arretados, foi um dos maiores marcos ou marcas da humanidade.

       Reduziu à metade a população da Europa, estima-se em duzentos milhões a mortandade.

       Durou uns quatro anos, não teve estatístico que conseguisse prever isso, desmantelou governos, revolucionou costumes, pôs em dúvida as religiões, e é tida como a principal responsável pelo Renascimento, que se lhe seguiu. 

       Li ou reli, agora, no começo da quarentena um livro, de um dos maiores romancistas italianos do século XIV, Os Noivos, autor, Alessandro Manzoni. Escrito na época da mais destrutiva epidemia da humanidade.

       O romance narra a história de um jovem casal, que não consegue se casar, por causa de um padre frouxo e irresponsável, de um senhor feudal mal caráter e de um tempo atrasado.

       Mas o interessante do livro é seu final, onde Manzoni coloca seus protagonistas, em plena Milão, logo no início da Peste Negra.

       A descrição que ele faz dos seres humanos, dos bons e dos maus, da fome e da peste; das mentiras, das perseguições, das injustiças, do roubo da coisa pública e particular, da luta pelo poder, do ódio grassando na sociedade, na sempre descuidada saúde, e da sujeira: falta do mais rudimentar saneamento, do lixo espalhado pelas ruas, da falta de higiene pessoal do mau-caratismo político, é capaz de rivalizar mesmo com os autores mais diretivos sobre o assunto que, a meu ver, foi o mais marcante de toda humanidade.  

       Se você ler o livro vai ficar impressionado.

– Mas como! Antigamente o povo era assim? Que coisa horrível!

       Se meu caro leitor quer achar coisas mais interessantes, vale a pena baixar El Decameron de Giovanni Boccaccio, escrito também durante a Peste Negra, e se divertir com os 100 contos de 7 mulheres e 3 homens, acho que daí um nome, decameron, numa quarentena obrigatória ou reclusão social, como se chama hoje, por causa da Peste, numa mansão, em uma das colinas que circundam Firenze.

Sim, também daquela vez, o centro de disseminação pela Europa, foi a Itália.

       Também, naquele tempo, foram as causas econômicas e a guerra biológica, que fizeram eclodir a epidemia. Também, daquela vez, ela veio lá dos lados da China e da Índia.

– Mas, é muita coincidência!

       Transmitida por uma bactéria e não por um vírus, a Yersínia Pestis, e com aqueles sintomas comuns de gripe do famoso vírus atual, e, se hoje não há vacinas, por relaxamento histórico, naquele tempo não existia antibióticos, porque não fora ainda inventado.

          A peste era transmitida pela respiração, e pelo contato direto com pessoas, vivas ou mortas, além dos fluidos corporais dos cadáveres, ao estourarem os bulbos, normalmente debaixo das axilas.

       Nem havia OMS, nem redes de televisão, pra fazerem revelações estrondosas, mas já havia interesses econômicos e gente de caráter duvidoso, igual a hoje, fazendo boatos boca aboca, levando o terror a todo mundo.

       Para aparecerem como salvadores.

       Acredita-se que ela tenha se originado na Ásia Central e se disseminado pela Rota da Seda que ligava o Oriente, principalmente a China, a toda Europa, através do Mediterrâneo e também por estradas terrestres; essa é a história mais bonita.

       A mais feia conta que a cidade de Kaffa ou Caffa, ou Teodósia, como se chama hoje, na Ucrânia à margem do Mar Negro, fora comprada pelos Genoveses, aos Mongóis.

       E, naquele tempo, a Itália não havia sido ainda unificada. Os genoveses transformaram Caffa em um importante centro de negócios.

       Os Mongóis, quando viram o prejuízo, resolveram tomar na marra aquilo que tinham vendido.

       Cercaram a cidade durante um bocado de tempo. Nessa ocasião a Peste Bubônica começara a se expandir pelos portos e, em Caffa, a dizimar os soldados que faziam o cerco à cidade.

       Resultado, os Mongóis, se sentindo perdidos e com muita raiva, jogaram por sobre as muralhas, por meio de catapultas, os corpos dos seus defuntos apodrecidos, para dentro da cidade. Negócio de doido!

       A população apavorada pegou todos os barcos de que dispunham e se espalharam, através do mediterrâneo, por toda Europa com seus ratos e suas pulgas, seus principais transmissores.

       Como hoje, naquela época havia umas máscaras semelhantes a uma cabeça de ave, com enorme bico e que tinham dentro uma composição de ervas, para proteger o mascarado da peste e da fedentina.

          Quem podia, se abastecia de víveres e se trancava em casa com toda família, em reclusão. Pra peste não pega-los!

Quase sem exceção, morriam juntinhos mesmo.

       Os que morriam antes, eram atirados pela janela, no meio da rua. Como está sucedendo com a Nicarágua nos dias de hoje.

       Mexeu com a economia? e como mexeu!

       Revolucionou a vida social, as religiões, os costumes… e o livro Decameron descreve bem isso, inclusive é também o motivo do sucesso do filme de mesmo título de Pier Paolo Pasolini.

       É por isso que, quando surge algo como o Corona Vírus, a gente se sente como se estivesse na Idade Média.

       As mesmas medidas restritivas, que, ainda hoje, não se comprovam efetivamente sua eficácia.

       Estimativas de duração que custam a se definir, como o pico da nossa pandemia, que todo mês muda de data…

       O aparecimento de cientistas às ‘tuias’, cada um tentando chutar melhor, abaixar ou esticar a curva de Gaus, como se o vírus estivesse preocupado com estatísticas, enquanto a virulência parece seguir seu caminho, sem prestar muita atenção a esses detalhes.

       Mas tudo isso seria aceitável se não víssemos todos os dias, tantas cabeças com ideias medievais, soltando as ideias e críticas mais estapafúrdias.

       Disseminando ódio, culpando pessoas; na Idade Média culpavam-se os estrangeiros, os índios e os ciganos. E o povo corria atrás, para mata-los!

       Fidalgos e governantes se aproveitando do sofrimento dos outros para tirar vantagem ou se promover.

Por esse ângulo, a humanidade não parece ter mudado muito nesses últimos 700 anos.

       E, desculpe-me, a plêiade de cientistas, não consigo ver muitas diferenças entre as orientações de ontem e as de hoje; as restrições de ontem e de hoje; e os ‘tratamentos’ de ontem e de hoje. E os resultados de ontem e de hoje!

Se é para esperar dois anos, por uma vacina, ela nos servirá, somente, em outra pandemia e se for com o mesmo vírus.

       Nossa capacidade de fazer previsões, principalmente na área da saúde, continua bastante precária, se é que é feita!

          O que importa agora é o dia seguinte. E nossos planejadores estratégicos, ao que me parece, não estão pensando em nada disso.

       Os economistas sugerem medidas emergenciais, com medo do debacle que virá e os congressistas as derrubam com medo das próximas eleições!

       À Peste Negra seguiu-se o Renascimento. Uma forte transformação, na cultura, na sociedade, na política, nas artes e religião.

       Embora muitos autores resumam assas mudanças, às artes, filosofia e ciências!

       Se, nesse nosso caso, a sacanagem econômica internacional, a guerra biológica discutida entre americanos e chineses e o mau-caratismo político, nos levarem a um novo Renascimento, vai ser ótimo!

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