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FLÁVIO J JARDIM - NOTÍCIA VERDADE

Airton Monteiro. CONSELHOS DE PITOCO

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Airton Monteiro. CONSELHOS DE PITOCO. Mas Pitoco, em seu sacrifício pelo bem da humanidade, nos deixou algumas lições inesquecíveis...

Airton Monteiro. CONSELHOS DE PITOCO

       As estepes russas, fora dos meses gelados, são tapetes de verdura, semelhante ao nosso pantanal. O paraíso dos animais e principalmente das aves.

 

       Vai chegando o tempo do frio – e como é fria aquela terra! – e todo mundo tem que arrumar um lugarzinho melhor e mais quente para sobreviver.

       Como aqui, lá são as aves de arribação que se mandam primeiro! Inclusive os sabiás das estepes.

 

       Em todo agrupamento, humano ou animal, se sobressaem os diferentes da espécie. Um é líder, outro é maria-vai-com-as-outras, um é do contra, esse reclama de tudo, há os fofoqueiros, e a turma do deixa-disso, os sabichões, os espertalhões, os cooperativos, os interesseiros, os otários e os teimosos e uma multidão de características que torna a vida mais interessante e os agrupamentos humanos ou animais, mais animados, mesmo que sejam, como no caso, de pássaros.

 

       Assim com gente, do mesmo jeito com os passarinhos.

 

       O líder do grupo, que vai à frente, reuniu todo mundo e avisou que dentro de três dias estariam partindo para o sul, numa debandada só, como todos os anos. E começou, a seguir, a dar as orientações para a partida:

 

       Em primeiro lugar indicou seus lugares tenentes para substituí-lo na longa viagem, naquela formação em ‘V’, comum aos pássaros em debandada. Recomendou a formação dos subgrupos, aconselhando que os mais velhos e doentes ficassem sempre na fileira de detrás, para fazerem menos esforço.

Airton Monteiro. CONSELHOS DE PITOCO

 

       Que todos arrumassem seus pertences para a viagem se mantivessem em seus grupos, não se ausentassem do grupo, piassem quando todos piassem e se mantivessem de bico fechado, quando todos estivessem em silêncio.

 

       Qualquer um deveria avisar se percebesse algum perigo ou avistasse algum predador.

       Todos ouviram, alguns fizeram aquelas perguntas bobas, comuns aos grupos, só pra chamar a atenção e mostrar que estavam atentos.

 

       Mas havia um ‘do contra’, que não perguntava nada, mas que criticava tudo, não concordava com nada e muito menos ajudava ninguém, como era um chato, apelidaram-no de Pitoco.

 

       Enfim chegou o dia da partida. Uma linda manhã de sol, mas um ventinho gelado que não enganava ninguém. A relva molhada pelo sereno da noite brilhava ao sol com suas gotículas cristalizadas. Os passarinhos tinham que ficar pulando para não terem as patinhas presas naquela beleza congelada.

 

       Hora de partir! É dado o sinal! E Pitoco reclamando que era muito cedo, que ainda não tomara o café da manhã, que o sol iria derreter logo aquelas gotinhas congeladas, que essa pressa é pura besteira.

 

       Mas todos levantaram voo e ele se viu obrigado a acompanhá-los. Reclamando muito, é claro!

 

       Irrequieto, voava pra frente e pra trás, tirava a atenção dos outros. Estava sempre mostrando o que ficara lá em baixo e que eles estavam perdendo e reclamando muito, é claro!

      De vez em quando se atrasava e os outros gritavam pra ele apressar o passo, ou melhor, o voo.

 

       Num certo momento, ele pensou ver lá de cima, uma minhoca, vermelha e gordinha, que poderia saciar sua fome por toda a viagem. Deixou a turma para trás, reclamando e desceu feito uma bala para pegar seu tesouro.

 

       Lá se foi e lá ficou! Deliciando-se com o sabor, nem notou que suas patinhas ficaram congeladas no gramado. Ele ouvia o piar dos seus colegas, mas não dava a mínima.

       De barriguinha cheia, resolveu alçar voo, pronto para contar a aventura aos outros. Qual o quê! Como diria Chico Buarque. Bateu asas. Piou para os colegas voarem para ajudá-lo, mas estava muito longe e eles não ouviram seus pios. Pitoco ficou desesperado. Vermelho como um pimentão, piava desesperado e inutilmente, sem que ninguém viesse ajudá-lo. 

       Que desespero! Rezou para todos os santos, fez mil promessas, disse que se, se salvasse, seria o Pitoco mais comportado de toda passarada.

 

Airton Monteiro. CONSELHOS DE PITOCO

 

       Não sei se foi obra de algum santo ou do acaso. Pastando as últimas gramíneas verdes e deliciosas, uma vaquinha leiteira, daquelas com manchas negras sobre o pelo branco, úbere enorme, quase estourando de tanto leite, parou e soltou um daqueles pastelões verde amarronzados, cheirosos de fazer inveja e que serviria de adubo para as gramíneas, no próximo verão. O que os gramáticos e veterinários costumam chamar de esterco e até se vende com esse nome em supermercados. Mas que, nós pessoas simples, chamamos, bosta de vaca!

 

       Detalhe: esse enorme pastelão caiu exatamente sobre Pitoco!

 

       Se alguém o tivesse visto, teria rezado por sua alma. Qual o quê!  - de novo -. Pitoco ficou na maior felicidade! Aquela massa quentinha soltou suas patinhas, aqueceu suas penas e renovou-lhe as esperanças. Nem se lembrou de agradecer aos santos que o haviam salvo. Deve ter sido apenas a sua velha e boa sorte, pensou ele.

 

       Mas ele logo percebeu que não ia ser fácil sair dali.  A massa já começara a endurecer. E, como era de costume, pôs-se a piar a todo vapor. Passarinho tem pulmões?

 

       O dia era realmente dos bichos curtirem o fim do verão, comer as últimas guloseimas que aparecessem, pois o inverno que chegava não iria ser fácil. E assim um bichano peludo, de olhos negros e faro fino, passeava por ali à espera de encontrar alguma coisa.

 

       E aí, parou, levantou as orelhas e ficou a ouvir o piar de um pássaro. Mas como? Eles já tinham ido embora e não via nenhum pássaro por ali. Aproximou-se do enorme pastelão e parou impressionado! Em toda a sua vida de felino, na cidade ou na selva, nas montanhas ou estepes, jamais tinha ouvido mer..., desculpem, esterco piar.

 

       Meteu suas patinhas no esterco, não sem certo asco. Remexeu e lá encontrou o Pitoco, todo sujo, mas gordinho e feliz como ele só.

 

       O bichano riu de tanta leseira, esfregou Pitoco na grama molhada limpando-o dos vestígios do esterco e, satisfeito da vida, garantiu o almoço naquele último dia de sol.

 

       Coitado do Pitoco! Assim acabam os teimosos.

 

       Mas Pitoco, em seu sacrifício pelo bem da humanidade, nos deixou algumas lições inesquecíveis:

 

1.  Nem sempre quem nos bota na mer..., desculpem-me, no esterco, é nosso inimigo!

 

2. Nem sempre quem nos tira do esterco é nosso amigo! E, principalmente,

 

3.  Quem está no esterco, não pia!

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