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FLÁVIO J JARDIM - NOTÍCIA VERDADE

Coluna da Sexta-Feira. Airton Monteiro

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Coluna da Sexta-Feira. Airton Monteiro. FLINTSTONES OU JETSONS

Coluna da Sexta-Feira. Airton Monteiro

Coluna da Sexta-Feira. Airton Monteiro

      Aproveitei o domingo meio chuvoso, programei o GPS para o endereço que tinha e fui visitar meu amigo Edgar. Lembra do Edgar? Aquele que, há uns dois anos, caiu num programa de Home Office, trabalhar em casa?!

 

      De repente, já perto da entrada, meu carro estanca. Tento ligar e nada, nada acende. Buzino para chamar a atenção do pessoal de um Posto de Combustível, ali perto, e, não tem buzina. Resolvo sair, apesar da chuva fina e as portas do carro estão travadas. Será que entrei no conto de terror que descrevi, no último artigo? Apelei para o amigo de todas as horas, o celular. Nada. Apesar de toda carga, o celular não funcionava. E então vejo o Edgar, de bermuda e camiseta, se aproximando do carro, apontando para mim e rindo a valer. Quando ele chega junto ao carro, tudo funciona. Desci do carro para abraçar meu amigo, bastante constrangido e um tanto mal humorado. Então ele me disse:

      - Você se saiu bem na nossa experiência de segurança eletrônica. Toda a área está monitorada 24 horas e qualquer pessoa que chegue e não seja reconhecida por nosso sistema de voz e face, será detida de alguma forma, como a interferência que fizemos em seu veículo e o bloqueio eletromagnético do seu celular. Coisas muito simples! Tem mais interferências, mas infelizmente, não posso dizer. Questão de segurança!

 

      - Mas vamos ver o resto. Estamos fazendo um montão de coisas, corriqueiras ou tecnológicas, para termos uma vida saudável e feliz. Lembra que lhe falei do meu sitio? Há muitos por aqui. Mas, perto da pracinha temos um bocado de casas e apenas um prédio caixão com nove apartamentos. Ao todo, 202 adultos e um montão de crianças de todas as idades. Ainda estamos situados na proposta de 150 amigos por indivíduo. Como você falou várias vezes, Robin Dunbar define entre 100 e 239 o número de pessoas com que, teoricamente, conseguimos manter relações sociais estáveis; e Marx Zuckerberg se propôs a incentivar a criação de comunidades, a partir do seu Facebook. Estamos tentando fazer de tudo um pouco.

 

      Deda, (Deolinda, - eita nome! É a esposa de Edgar), conseguiu a transferência pra cá e abriu uma escolinha de tecnologia à tarde, para a garotada e até para os adultos. Tudo que está sendo feito por aqui conta com a participação da escola, que tem até curso para programadores, além de eletrotécnica e cursos para manutenção elétrica, eletrônica e de recursos computacionais. Muita coisa pra fazer por aqui, e a gente quer que todos façam parte, de alguma forma, da construção da comunidade. Claro que há discordâncias, preguiças, ciumeira e tudo que existe em toda parte. Até político já andou se metendo por aqui. Aliás, criar comunidades é coisa de políticos, padres e pastores. De vez em quando esculhambam tudo, mas é o papel deles.

 

      - A garotada já está querendo colocar chips até nas galinhas de capoeira pra descobrir onde elas põem os ovos. Brincadeira!

 

      Quem tem sítio tá plantando e criando, inclusive, algumas experiências em cativeiro. Muitos legumes são cultivados em hidroponia; estamos estudando uma forma de ter nossa água tratada, e o uso de energias alternativas, solar e eólica. O lixo orgânico da comunidade já está sendo compostado para uso nas nossas pequenas plantações de frutas, verduras e flores. O lixo reciclável mandamos pra fora uma vez por semana. Algumas experiências são comunitárias, mas grande parte são negócios ou pequenos negócios, para complementação de renda. A maior relevância está no uso intensivo de tecnologia. Controles de Ph, salinidade, adubação, correção de solo e água, tudo feito por computador e a maior parte das correções são feitas com o uso de internet das coisas. É como um grande aprendizado e uma grande construção. Inclusive na parte de controles urbanos.

 

      Todas as semanas, as famílias se reúnem seja para um churrasco ou qualquer brincadeira ou algum mutirão para cuidar das coisas públicas, já que nenhuma prefeitura apareceu por aqui, até agora. Mas como a vida precisa ser divertida, algumas mulheres resolveram prover alguns almoços festivos. E como quase ninguém tinha experiência em cozinha, entraram homens e crianças nessa brincadeira e foi bastante divertido. Hoje algumas dessas senhoras transformaram a brincadeira numa pequena empresa de fornecimento de refeições, inclusive para comunidades vizinhas. Garotos e suas bicicletas criaram um aplicativo de distribuição e quem possui drone está ganhando um bom dinheiro com o serviço de entrega, chamado de tecnodelivery. Quase todos estão conseguindo complementar sua renda, com uma nova empresa de soluções, startups, com base em tecnologia ou não, mas com foco absoluto nas necessidades dos clientes. Destaco as empresas de manutenção preventiva e corretiva dos sistemas computacionais, elétricos e eletrônicos. E tudo o mais que você está vendo por aqui. Viu a segurança, né?

 

      - E seu trabalho? – perguntei.

      - Você quer mais do que isso? Sou engenheiro projetista como você sabe. E desde que cheguei aqui e encontrei alguns colegas de profissões assemelhadas, que só fazemos projetar. Está sendo uma experiência espetacular. Mas, vamos lá em casa. Os garotos já com 15 e 16 anos, são quase adultos e Deda, há muito, quer lhe conhecer. Vou lhe mostrar meu escritório de trabalho. Afinal, trabalhar foi o que vim fazer aqui e é pra isso que me pagam! Almoça com a gente?!

 

      A sala de trabalho de Edgar deve ter sido imaginada pelos Flintstones. Uma mistura de coisas simples com o que há de mais avançado em termos de tecnologia. O melhor exemplo é um cavalete de desenho, para projetos de edificações, que pertenceu a seu avô e que Edgar usa com o maior carinho. Sobre a plataforma, em vez de papel vegetal preso por presilhas ou fita “durex”, uma tela flexível de mais ou menos 70 polegadas, interligada com os diversos computadores da sala. Ele trabalha na tela como se fora um papel vegetal mesmo, inclusive usando réguas e esquadros, e seus colegas de elétrica, hidráulica, agrimensura, topografia, cálculo estrutural, arquitetura, decoração, urbanismo vão complementando o trabalho, “on line” e “just in time”, por vários mãos. De vez em quando é preciso discutir algum ponto, trocar ideias mesmo. Então todos ligam seus aparelhos e exatamente de seu local de trabalho, fazem uma conferência via internet, tão real como se estivessem todos num atelier de projetos. Quando é preciso apresentar o trabalho fisicamente ao cliente, colocam a tela em um tubo de carregar mapas e a levam para o cliente. Bota-se a tela na parede e se faz como antigamente. Com um detalhe: as observações do cliente são registradas no projeto, imediatamente, já que é um computador.

- Bravo!

 

      Se for alguma coisa que precise ser impressa, como um contrato, um boleto para pagamento de taxas, ou uma solicitação de licença, tudo é emitido imediatamente. Se for algo que tenha que ser feito, fabricado, construído, vai direto para impressoras 3D, conforme o caso. Enfim, um subúrbio semi-rural de nossa cidade, entra em cheio no século XXI!

 

      Falei mais acima que a família se assemelha aos Flintstone. Mas corrijo, são os Jetsons. Faço a correção, porque durante minha visita, tive a oportunidade de conhecer Severina, uma robô que faz a limpeza da casa, dá a comida pras galinhas, tange o gado e põe água nas plantas, vestida de acordo, com avental e um pano na cabeça, sempre cantarolando o tempo todo. Edgar me disse que Severina, uma cópia de Rosie dos Jetsons, lembra? foi uma construção coletiva dos quatro, com a ajuda indispensável de um técnico em eletrônica da vizinhança e uns dois especialistas em mecânica e funilaria. Vem gente de todo canto conhecer Severina.

Coluna da Sexta-Feira. Airton Monteiro

 

      Nossa Rosie é a governanta da casa toda. Nela estão todos os controles e programas, todas as conexões e interconexões. Todas as informações são passadas para Rosie. De vez em quando a gente a leva para a praça. Faz o maior sucesso distribuindo pipoca para a criançada! E a gente vende a ideia do uso da robótica. Já tem gente interessada!

  

      E, por falar em galinhas, tivemos no mês passado, a primeira grande crise familiar. Até o pároco da vizinhança e um pastor evangélico que abriu sua igreja há pouco, tentaram ajudar. Tudo porque Deda, para se mostrar às amigas, disse que era capaz de matar uma galinha e fazer uma cabidela e, para provar, resolveu pegar a galinha mais gorda do quintal, que era o xodó das crianças. Sinceramente, pensei que iria começar a Terceira Guerra Mundial. Felizmente tudo acabou bem. A galinha pedrês foi salva na última hora. Já estava com o pescoço depenado. Tudo terminou com um contrato escrito e formalizado de que, na comunidade, os animais só morreriam de morte natural. Morte morrida como se diz por aqui! Qualquer carne comestível teria que vir de lugares distantes e de animais desconhecidos e sem parentesco com os daqui.  Eles estavam prevendo a Lei que criou a Natureza Jurídica para os animais, aprovada no último dia 7 de agosto, pelo Senado Federal UFA!

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