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FLÁVIO J JARDIM - NOTÍCIA VERDADE

O Mito da Caverna. Diálogo entre Sócrates e Glauco

O Mito da Caverna. Diálogo entre Sócrates e Glauco
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O Mito da Caverna. Diálogo entre Sócrates e Glauco. Escrito há 400 anos antes de Cristo, o alerta de Platão continua tão verdadeiro, ou mais, do que à época.

O Mito da Caverna. Diálogo entre Sócrates e Glauco

Sócrates- Imagine o estado da natureza humana com respeito à ciência e à ignorância, conforme o quadro que dele vou esboçar. Imagine uma caverna subterrânea que tem em toda a sua largura, uma abertura por onde entra livremente a luz e, nessa caverna, homens acorrentados desde a infância, de tal modo que não possam mudar de lugar, nem voltar a cabeça devido às cadeias que lhes prendem as pernas e o tronco, podendo tão-só ver aquilo que se encontra diante deles. Nas suas costas, a certa distância e a certa altura, existe um fogo cujo fulgor os ilumina, e entre esse fogo e os prisioneiros existe um caminho por onde passam as pessoas. Ao lado desse caminho, imagine uma parede semelhante a esses tapumes que os charlatães de feira colocam entre si e os espectadores para esconder deles o jogo e os truques secretos das maravilhas que exibem.

Glauco- Estou a imaginar tudo isso.

Sócrates- Imagine homens que passem pelo lado de fora da caverna, carregando objetos de todas as espécies ou pedra, figuras de homens e animais de madeira ou de pedra, de tal modo que tudo isso apareça por cima do muro. Os que tal transportam, ou falam uns com os outros, ou passam em silêncio.

Glauco - Estranho quadro e estranhos prisioneiros!

Sócrates- E, no entanto, são ponto por ponto tal qual como nós. Em primeiro lugar, julgas que perceberão outra coisa, de si mesmos e dos que se encontram a seu lado, além das sombras que na sua frente se produzem, no fundo da caverna?

Glauco - Que outra coisa poderão ver, pois que, desde o nascimento, foram compelidos a conservar a cabeça permanentemente imóvel?

Sócrates- Verão, apesar disso, outras coisas além dos objetos que passam à sua retaguarda?

Glauco - Não.

Sócrates - Se pudessem conversar uns com os outros, não concordariam em dar às sombras que veem os nomes dessas mesmas coisas?

Glauco - Sem dúvida.

Sócrates - E se no fundo da sua prisão houvesse eco que repetisse as palavras daqueles que passam, não imaginariam que ouviam falar as sombras mesmas que desfilam diante dos seus olhos?

Glauco - Sim.

Sócrates - E, por fim, não julgariam eles que nada existiria de real além das sombras?

Glauco - Não há dúvida.

Sócrates - Pense agora naquilo que naturalmente lhes aconteceria se fossem libertados das suas cadeias e se fossem esclarecidos acerca do erro em que estavam. Liberte-se um desses cativos, e que ele seja obrigado a levantar-se imediatamente, a voltar a cabeça, a andar e a enfrentar a luz: nada disso poderá fazer sem grande esforço; a luz encandear-lhe-á a vista e o deslumbramento produzido impedi-lo-á de distinguir os objetos cujas sombras via antes. Que julgas tu que responderia se lhe dissessem que até então apenas vira fantasmas e que agora tem ante os olhos objetos mais reais e mais próximos da verdade? Se lhe mostrarem imediatamente as coisas à medida que se forem apresentando, e se for obrigado, à força de perguntas, a dizer o que é cada uma delas, não ficará perplexo e não julgará que aquilo que dantes via era mais real do que aquilo que agora se lhe apresenta?

Glauco - Sem dúvida.

Sócrates - E se o obrigassem a enfrentar o fogo, não adoeceria dos olhos? Não desviaria os seus olhares, para dirigi-los para a sombra, que enfrenta sem dificuldade? Não julgaria que essa sombra possui algo de mais claro e distinto do que tudo quanto estamos lhe mostrando?

O Mito da Caverna. Diálogo entre Sócrates e Glauco

 

Glauco - Certamente.

Sócrates - Se agora o arrancarmos da caverna e o arrastarmos, pela senda áspera e fragosa, até à claridade do Sol, que suplício o seu por ser assim arrastado! Como está furioso! E, uma vez chegado à luz livre, os olhos ofuscados com o fulgor dela, poderia ver alguma coisa da diversidade de objetos a que chamamos seres reais?

Glauco - De início ser-lhe-ia impossível.

Sócrates - Necessitaria de tempo, sem dúvida, para se acostumar a eles. Aquilo que distinguiria melhor seria, em primeiro lugar, a sombra; e, logo a seguir, as imagens dos homens e dos demais objetos, refletidos à superfície das águas; por fim, os próprios objetos. Daí volveria os olhos para o céu, cuja visão suportaria com maior facilidade durante a noite, à luz da Lua e das estrelas, do que durante o dia, à luz do Sol.

Glauco - Sem dúvida.

Sócrates - Por fim, encontrar-se-ia em condições, não só de ver a imagem do Sol nas águas e em tudo aquilo em que se reflita, como de olhá-lo e contemplar o verdadeiro Sol no seu verdadeiro local.

Glauco - Sim.

Sócrates - Depois disto, pondo-se a refletir, chegaria à conclusão de que o Sol é o que determina as estações e os anos, e o que rege todo o mundo visível e que, de certo modo, é causa daquilo que se via na caverna.

Glauco - É evidente que chegaria gradualmente a tais reflexões.

Sócrates - E se, então, se recordasse da sua primeira habitação e da ideia que aí formavam da sabedoria, ele e os seus companheiros de escravidão, não se regozijaria com a mudança e não teria compaixão da desgraça daqueles que permaneciam cativos?

Glauco - Certamente.

Sócrates - Crês tu que agora ele sentisse ciúmes das honras, das vaidades e recompensas ali outorgadas àquele que mais rapidamente captasse as sombras, àquele que com maior segurança recordasse as que iam atrás ou juntas e por tal razão seria o mais hábil em prever a sua aparição, ou que invejasse a condição daqueles que na prisão eram mais poderosos e mais honrados? Não preferiria, como Aquiles, segundo Homero, passar a vida ao serviço dum pobre lavrador e sofrê-lo, a voltar ao seu primeiro estado e às suas primitivas ilusões?

Glauco - Não duvido de que preferiria suportar todos os males possíveis a voltar a viver de tal modo.

Sócrates - Atente, pois, nisto: se regressasse novamente à sua prisão, para voltar a ocupar nela o seu antigo posto, não se acharia como um cego, na súbita passagem da luz do dia para a obscuridade?

Glauco - Sim.

Sócrates - E se, no entanto, ainda não distinguisse nada e, antes que os seus olhos se houvessem refeito, o que apenas poderia acontecer depois de muito tempo, tivesse de discutir com os outros prisioneiros sobre essas sombras, não se tornaria ridículo aos olhos dos outros, que diriam dele que, por ter subido até lá acima, perdera a vista, acrescentando que seria uma loucura se eles pretenderem sair do lugar onde se encontravam, e que, se alguém se lembrasse de tirá-los dali e levá-los para a região superior, se tornaria necessário prendê-lo e matá-lo?

Glauco - Indiscutivelmente.

Sócrates - Pois, meu querido Glauco, é essa, precisamente, a imagem da condição humana. A caverna subterrânea é este mundo visível; o fogo que a ilumina, a luz do Sol; o prisioneiro que ascende à região superior e a contempla é a alma que se eleva até à esfera do inteligível. É isto, pelo menos, o que penso, já que o queres conhecer, mas só Deus sabe se é certo. Pelo que me toca, a coisa afigura-se-me tal como te vou comunicar. Nos últimos limites do mundo inteligível encontra-se a ideia do bem, que só com dificuldade se percebe, mas que, todavia, não pode ser percebida sem que se conclua que ela é a causa primeira de quanto há de bom e de belo no universo; que ela, neste mundo visível, produz a luz e o astro do qual a luz irradia diretamente; que, no mundo visível, engendra a verdade e a inteligência; que é preciso, enfim, ter os olhos fitos nessa ideia, se quisermos conduzir-nos honestamente na vida pública e privada.

Glauco - Na medida em que pude compreender a tua ideia, concordo contigo.

Sócrates - Tens, pois, de admitir e não estranhar que aqueles que alcançaram essa sublime contemplação desdenhem da intervenção nos assuntos humanos e que as suas almas aspirem, incessantemente, a fixar-se nesse lugar eminente. Assim deve ser, se isto está em conformidade com a pintura alegórica que esbocei.

Glauco - Assim deve ser.

 

Platão, in 'República'

 

Nossas Observações

 

Escrito há 400 anos antes de Cristo, o alerta de Platão continua tão verdadeiro, ou mais, do que à época.

Senão, vejamos: não existe nada mais parecido com a parede onde os prisioneiros, desde pequenininhos, viam a vida passar, do que a Televisão!

Mas não só ela. As redes sociais, os jornais, as revistas, os livros e, sobretudo os discursos políticos, tentam nos mostrar aquilo que querem que nós vejamos.

Adiantou pouco todo conhecimento que a humanidade trouxe até os nossos dias, se não somos capazes de pensar por nós mesmos, de termos nossas próprias ideias e parar de seguir pela cabeça dos outros como piolhos ou como Maria vai com as outras. Uma manada de inocentes úteis. Sem Fe, sem luz, sem razão. Atrás de afirmativas mal intencionadas ou simplesmente burras. Acreditando que a verdade deve estar com quem grita mais alto.

Como o escravo que saiu da caverna, temos medo da luz do sol, porque ela vai esCLAREcer as coisas. As sombras são mais confortáveis, Não ter que virar a cabeça para olhar o outro lado, é mais cômodo.

Chegamos a esse estado de coisas, porque durante toda nossa vida, seguimos “cegamente” os líderes religiosos, os pais, os professores e os políticos, e sempre achamos mais cômodo ficarmos quietinhos. Enquanto eram apenas esses nossos guias, ainda era possível, para alguns, reagirem. Reagimos primeiro contra os pais: uma grande influência porém fácil de ser contestada. O amor amortecia tudo. Depois contra os líderes religiosos costumeiros e os substituímos por líderes religiosos de religiões que se disseram ideologias (é a mesma coisa!), não foi difícil, tiramos os deuses e misticismos que não faziam muito sentido e colocamos uma porção de mentiras também míticas e místicas e maléficas.  Depois reagimos contra os professores. E aí, a preguiça intelectual facilitou o trabalho.

Mas, o pior, de tudo, foi quando nos colocaram dentro da caverna e manipularam nossa visão, nossa audição e nossa mente.

Agora estamos revoltados, mas não conseguimos nos desligar da televisão. Não conseguimos nos desligar do celular e, ao menos por algumas horas, pararmos. Pensar, antes de decidir! Decidir só depois de analisar! Analisar em cima de fatos concretos ou, até que os fatos se mostrem concretos e claros.

A tecnologia que está chegando aí, muito mais forte e abrangente, vai cada vez mais, colocar nas mãos de poucos, a força de impingir ideias, regras e soluções. Se não começarmos a reagir, a partir de agora, seremos uma multidão de inúteis. Nem mesmo para os serviços mais rasteiros seremos chamados. As maquinas farão melhor, mais rápido e mais barato do que nós.

Qual a conclusão? Platão estava certo desde 400 anos a.C.

O Mito da Caverna. Diálogo entre Sócrates e Glauco

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