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FLÁVIO J JARDIM - NOTÍCIA VERDADE

Ville Radieuse II

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Ville Radieuse II - Artigo: Airton Monteiro. Educação. Por que não deixar que as pessoas escolham o seu ninho, como os passarinhos? Melhorar suas habitações em vez de mudá-las de lugar?

Ville Radieuse II

      Voltando da Ville Radieuse, para os dias atuais: Até quando nossos netos vão pensar que a casca do ovo é uma embalagem industrial e que a carne congelada não tem nada a ver com a morte do boi e com boi no pasto? Que frutas e verduras nascem no supermercado e que o leite vem da caixinha mesmo? Sem gordura, sem lactose, sem glúten... Com gosto não sei de quê? Experimente dar pra eles leite puro da vaca. Vão achar péssimo! E se tomarem vão ter dor de barriga.

      E, até quando, eles vão achar que minha casa minha vida é uma gaiola pequenininha, bem bonitinha, de dois quartos, sala cozinha e banheiro, sem jardim e sem quintal; sem frente, sem fundos e sem oitão (alguém ainda sabe o que é isso?) que a porta da frente, frente de que? Aquela que dá pra rua! Fica lá em baixo, a 1.500 metros?

      Que minha maior janela é a tela do televisor e que meus amigos estão todos no celular? Que é o único lugar, o celular, onde podemos bater uma pelada, jogar bola de gude e andar de bicicleta? Quem sabe fazer sexo?

      Há tempo, os urbanistas tentam arrumar uma solução pra essas coisas e quanto mais eles mexem, pior fica. Meus respeitos a Le Corbusier e sua Ville Radieuse, mas nós não queremos tanto. As autoridades e urbanistas criam uns conjuntos habitacionais insossos, insípidos e inodoros. A primeira coisa que fazem quando escolhem um terreno é passar a máquina e deixar o chão liso. Quem quiser, depois, que plante! 

      - Numa das minhas viagens de trabalho tive oportunidade de conversar com engenheiros e arquitetos da cidade de Londres. Os especialistas, que eu acompanhava, queriam saber quais os critérios que eles usavam para construir uma larga avenida, cortando bairros tradicionais. De tudo que disseram só uma coisa me impressionou: eles plantavam grama no lugar onde deviam ficar as passarelas. E olha, que inglês considera o gramado a coisa mais sagrada do mundo! E deixavam que as pessoas atravessassem por onde bem quisessem, durante alguns meses. Depois eles voltavam lá e construíam as passarelas nos lugares marcados pelos pés dos passantes. Pronto! Estava definido. Proibido pisar na grama. E aí era proibido mesmo! Experimente pisar na grama pra ver o que lhe acontece!

      Por que não deixar que as pessoas escolham o seu ninho, como os passarinhos? Melhorar suas habitações em vez de mudá-las de lugar? Não precisa criar comitês, fazer pesquisas, votação, perguntar ao STF se é constitucional. Santa Inglaterra que nem Constituição escrita tem! Para fazer o mundo melhor é preciso apenas ter sensibilidade e observar. A vida é das pessoas. A Lei e a Ordem devem servir para que uns não tomem a felicidade dos outros.

Ville Radieuse II

      Os governantes, no afã de fazer a felicidade do povo e de ganhar as próximas eleições, constroem uns conjuntos artificiais, desmancham toda uma estrutura social existente, construída há anos, passada dos avós para os pais e netos. Derrubam os puxadinhos feitos com tanto sacrifício, tanto carinho, tudo com a desculpa das péssimas condições de vida e da marginalidade do local. Espalham o povo por diversos locais, bonitinhos, arrumadinhos, pintadinhos que ficarão feinhos, desarrumadinhos e sujinhos, pior do que o anterior, em pouco tempo. A mesma bagunça e uma marginalidade mais violenta. Na antiga comunidade, O safado do Zé, traficante e ladrão respeitava os mais velhos do bairro. Ele nasceu ali. Todo mundo o conhece e formiga sabe que roça come. Toma a benção a D. Josefa que fez o parto daquela peste! Agora no novo conjunto, ninguém conhece ninguém, não respeita ninguém!

      Quem está acostumado a viajar, fora e dentro do Brasil, sabe que os bairros, que são pequenas cidades dentro das cidades, costumam desenvolver suas próprias características. Quanto mais antigos são, mais historias guardam e mais interessantes ficam. Em grande parte, esses bairros são locais gostosos para se viver ou para se visitar. Desmanchar isso, em nome do desenvolvimento, é algo, pelo menos, muito arriscado. Não se refaz uma comunidade nem com decretos nem com boas intenções.

      Alguém imagina acabar com La Boca, em Buenos Ayres? Arrumar suas ruas e mudar as características de seus conventillos? Ou acabar com a informalidade do Bairro Latino em Paris?

      Alguém arrisca a mudar as características dos Bairros do “Bixiga” em S. Paulo, que seus próprios moradores mudaram o nome para não lembrar outras coisas, ou da Vila Mimosa, do baixo meretrício do Rio de Janeiro? Que virou ponto turístico? Ou Apipucos no Recife que mantém a nostalgia dos velhos tempos? Quero ver, daqui a cem anos, alguém identificar um bairro típico, com histórias pra contar, na nossa Capital Federal, artificialmente fabricada pra dar certo!

      As pessoas deixam a vida no campo com a ilusão de que nas grandes cidades vão ter uma vida melhor. Uma cidade grande como São Paulo tem muitos atrativos; oferece muitas oportunidades: hospitais, médicos, restaurantes, biblioteca, teatros. Mas já está se vendo um esforço de algumas pessoas de mudar dessa megametrópole para cidades menores. Ainda é um número pequeno, mas é um movimento – tem gente comprando casas no interior, nas praias, se não para morar por lá, ao menos para repousar nos finais de semana. Mas os finais de semana não são a ocasião de se ir a teatro, shoppings, centros culturais etc. que é exatamente as coisas que valorizam e tornam interessantes as grandes cidades?!

      Então, o que as pessoas querem é “descansar das cidades”.

      Se observarmos melhor, as grandes previsões têm falhado galhardamente. Tanto a de Le Corbusier, há cem anos, atrás, quanto vai falhar a do “SmartThings Future Living Report”, nos cem anos pra frente.

      Mas precisamos ter cuidado. Vai que um dia, eles acertam!

Ville Radieuse II

 

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