Quarta, 27 de janeiro de 2021 hh:mm:ss

COVID: Filha única do Dr. Augusto Costa, Larah Lins faz depoimento emocionante sobre a perda do pai médico

Dr. Augusto Costa, um médico exemplar, partiu devido a complicações da covid-19, e toda a cidade de Pesqueira está triste. A filha Larah, contou os últimos momentos da vida do pai, desde a internação até a notícia trágica nesta sexta-feira (08)

Publicado em 9 de janeiro de 2021 às 17:00
Atualizado há 3 semanas

       “Acredito que o dia mais temido da vida de qualquer pessoa, hoje, chegou para mim. A perda do meu pai, minha vida, meu tudo! Mas Deus é tão provincial que até nos detalhes ele caprichou, cortei a mão na cozinha dias antes e precisei levar alguns pontos e dessa forma, vim para casa (aqui no interior) devido a maleabilidade com os serviços manuais e talvez minha missão começava aí.

       Foi assim que tudo começou a acontecer: fraqueza, desidratação, apatia e até umas quedas.

       Muito animado para passar o Natal em Recife e dentro do meu coração o medo de levá-lo para um foco de covid maior (expressei para algumas pessoas), outros fatores foram acontecendo…

       Em 19/12 os primeiros sintomas, passado os dias e ele doentinho de alguma coisa que não sabíamos o que era (porque ele nunca nos reclamou de uma dor no pé), cancelamos nosso Natal em Recife.

       As coisas foram piorando e decidi levá-lo (a contragosto) para Recife dia 20/12 para o Hospital. Descobrimos então uma infecção urinária, que em idoso costuma ser muito discreta, porém perigosa.

       Foi necessário interná-lo e me lembro de suas palavras: ‘você teve coragem de fazer isso comigo? Que traíra rsrsrs’ (Eu precisava e era meu dever) e assim passamos Natal em um quarto de hospital e mais alguns dias para administração de antibiótico venoso e observação do quadro.

       Dia 27 o quadro evoluiu, sua saturação baixou e logo pensei: é covid! Cancelei o rodízio de Mainha com ele no hospital pois ela é asmática pesada e assumi TODO o comando dos próximos dias (ou batalhas), fiquei em tempo integral cuidando dele. Foi feito exame e positivou junto com uma alteração em uma enzima do coração que indicava algum estresse ocorrido lá.

       Imediatamente, foi transferido para uma UTI de covid com suporte coronariano. Três dias bem e estável, embora a partir dali minha presença diária e colada com ele não fosse possível, consegui algumas idas na UTI ele ainda estável e conversei um pouco, expliquei que agora só podia tá ali em oração, mas que ia dá tudo certo! Embora a contragosto de estar ali e sobre estresse, as 3x que consegui entrar ele sempre dava uma melhorada no quadro.

       Entrei duas vezes ele consciente e muito reclamão e 2 vezes dia 31/12 quando precisou ser entubado e o baque chegou no núcleo da Terra e dia 01/01 pela data “comemorativa”. E então foi a última vez que o vi. Desde então, não deixaram mais eu entrar e eu só sabia notícias por telefone.

       Contraímos covid, eu e mainha (porém assintomáticas) e ficamos na quarentena.

       No dia 06/01, o quadro deu uma super piorada, a infecção urinária ainda não tratada, os pulmões devido a covid, os rins… e outros órgãos começaram a sofrer um grande estresse e a luta pela vida começou. Foi muito rápida a piora e descobrimos um quadro de choque séptico, que sem entrar em detalhes levou ele a uma luta gigantesca pra se manter vivo. Uso de antibióticos fortes, drogas vasopressoras, soro, exames praticamente toda hora e uma perda de sangue considerável de algum lugar do corpo que não sabíamos de onde era, precisou de transfusão.

       Depois o quadro piorou ainda mais e ontem foi a maior batalha da minha vida em corrida contra o tempo orando e oferecendo minha vida pela dele. Foi oração, terço, fé o dia TODO pois ele faria uma diálise. Era preciso.

       De sorte, Deus manda anjos na vida da gente e contratamos em sua piora a geriatra melhor de todos os tempos em todos os sentidos que me manteve ciente de TUDO que acontecia. Eu queria saber de todos os detalhes e pedia incansavelmente que ela não me escondesse nada, pois pior era a dor de não saber do que se tratava… e foi ela com as palavras mais doces do universo me explicou que ele estava em choque séptico e que seria uma grande batalha.

       Não perdi a fé em nenhum minuto, ele conseguiu 2hs de diálise a custo de muito medicamento e ela sempre disponível a me explicar todo o quadro com muito carinho. Sabia que a noite de ontem seria bem decisiva, pois sabia dos riscos do quadro como um todo.

       Foi meu dia de mais angustia/dor/impotência /sofrimento de toda minha vida. Eu rezava pela vida dele, oferecendo a minha vida em troca.

       Mas, uma conversa calma após a diálise com nossa médica e sabendo o sofrimento que ele estava passando, talvez o dia de ontem foi Deus me preparando para a notícia hoje de manhã (sexta,08 de janeiro).

       06h ligaram para minha prima Andreia que me ajudou desde os primeiros sintomas, pois pedi que não me passassem mais notícias que eu estava absolutamente SEM FORÇAS de vê-lo naquele estado e não poder ao menos VÊ-LO quando na verdade eu o prometi que não sairia do lado dele em nenhum momento (porque ele é medroso de hospital, acho que por trabalhar na área e vê de um tudo a vida toda) e não suportava mais o peso das notícias.

       Eu estava esgotada, meus amigos estavam esgotados, a família estava esgotada, eu tive uma rede de apoio muito grande, mas o peso era sobre minhas costas e doía muito. Eu chorava da hora que acordava a hora de deitar. Todos os dias. Como eu ia viver sem meu pai, meu Deus?

       Foi então que de fato ligaram hoje (08) às 06h para minha prima Andreia e disseram algo a ela que me avisasse para ir no hospital urgente pois o quadro tinha piorado. Mainha sentiu o pior e eu disse: calma, deve ter dado alguma bronca e a gente precisa decidir algo… (na minha cabeça seria se ele tiver uma parada cardíaca, eu decidir se reanimava ou não – que loka né).

       Chegando lá, liguei para alguns primos pois independente do que fosse queria a presença dos meus familiares comigo caso eu ‘não aguentasse’, pois sentia que quem me conduzia era Deus, nunca mais fui eu desde que ele foi entubado. E assim o foi, veio a notícia de que o coraçãozinho dele não tinha aguentando tanto remédio para pressão se manter estável e teve a famigerada parada cardíaca.

       Eu nem sei o que sentia mais, não pensava, não podia passar desespero para minha mãe pois a partir daquele momento eu SERIA O TUDO DELA e ela o MEU TUDO (filha única). Organizei a papelada que não demorou, todas as burocracias e informei a vocês o ocorrido pelo storie.

       Na minha cabeça, eu já estava juntando o nome de todo mundo que ajudou na corrente de arrecadação de sangue, quem já tinha doado, quem tinha me mandado as mensagens mais lindas, quem colaborou com todo conforto dele, meus amigos médicos do coração que foram fundamentais e quando ele ficasse bom o plano era ele conhecer todo mundo que de certo modo colaborou para sua cura (maluca eu?!) a gente tenta sempre pensar o melhor, né?

       Mas, Deus achou por bem levá-lo na madrugada e nossos planos não coincidiram, mas senti uma gratidão enorme em não vê-lo sofrer mais, pois estava i-n-s-u-p-o-r-t-á-v-e-l cada notícia. E também senti o maior amargo da minha vida em não poder me despedir, falar o quanto o amava e ele partir junto da minha presença (era meu maior desejo), de descumprir a promessa de não abandoná-lo em nenhum segundo (mas eram regras sanitárias ante o quadro de pandemia) e talvez esse desacerto eu precise ajustar na minha vida, para me perdoar.

       Senti a necessidade de contar isso pra vocês porque tem TANTA gente que eu nem conheço me mandando as mensagens mais lindas e como agradecimento de alma eu queria partilhar esse momento da minha vida com vocês.  Dizer que ainda não parei pra ler por falta de coragem, porque tô com medo de reviver todos esses dias de sofrimento novamente. Eu faço questão de responder a cada um e não copiar e colar alguma coisa e mandar. Mas hoje, foi um dia de muita assimilação.

       A partir de hoje somos somente eu e minha mãe, minha vida pela dela e parece que nada mais faz sentido na vida a não ser cuidar dela. A gente nunca tá preparado para essas coisas, sempre fomos nós 3 em tudo… e agora os desígnios de Deus prepararam outro plano para nossas vidas que vão nos guiar. Nunca duvidei do agir de Deus nisso tudo, pelo contrário, minha fé era gigante, mas eu estava hiper cansada. Foram esforços heróicos para garantir zero sofrimento nele.

       Lutei contra tudo para manter a vida dele e fiz minha parte (quem viveu comigo sabe) mas hoje eu entreguei ele a Papai do Céu com gratidão… Eu não podia ter pai melhor, parece clichê, mas ele foi muito feito para mim e eu para ele! nossa simbiose vai ser eterna.

       É isso: Pai te amo do tamanho do infinito vezes infinito. Você sempre foi e sempre será minha vida. Um dia te encontro onde você estiver, eu te acho, não se preocupa. Cuida da gente aí de cima tá?       

Com amor, sua Larah”.

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