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HISTÓRIA | Geraldo Freire “O caçador de fumaça”

No mês de aniversário de Pesqueira, a pedagoga e linguista Ana Paula Lima reconta um pouco da história de sofrimento e alegria de Geraldo Freire e sua fuga do interior para Recife. Geraldo Freire ainda manda um recado para o aniversário da cidade. Ouça áudio...

Por Flávio José Jardim atualizado há 3 anos
Publicado em 28 de abril de 2021, 13h35

HISTÓRIA | Geraldo Freire “O caçador de fumaça”

      

TEXTO: ANA PAULA LIMA

“Leve eu, minha Saudade. Acorde eu, minha saudade. Balance eu, balance eu, balance eu...”.

       É com esse sentimentalismo que o Comunicador da Maioria, o Pesqueirense de coração, Geraldo Freire homenageia a cidade de Pesqueira pelos 141 anos de Elevação à Categoria de Cidade.

       A paixão pela cidade é uma lembrança que permeia a alma do radialista desde o dia que foi acolhido com sua família por esta cidade.

       Em busca de dias melhores a família Freire chega na região com um único propósito, uma vida com dignidade. Queira o destino ou não, a saga da família começara e muitas coisas aconteceram. 

       Tudo parecia estar indo bem, quando de repente as dificuldades retornaram a esta família como se fosse uma sentença de um sofrimento que não teria fim. 

       Em meados do século XX, viviam uma época onde não se tinha muita escolha, e a condição financeira daquela família era pouca ou quase nada e buscavam a qualquer custo um pouco de dignidade.

       Mas, a fábrica de sonhos estavam em declínio, e para eles a perda do emprego fichado do pai na Fábrica Peixe implicou em grandes dificuldades para a família de cinco pessoas, recém chegadas do Ceará.

       O sonho do emprego foi se transformando em sofrimento ao passar dos dias. Sem ter muito que fazer, foram se afastando da cidade em busca de qualquer serviço que tirasse da fome aquelas cinco pessoas.

       Em busca do passadio como diziam em linguagem coloquial, foram trabalhar nas roças de tomates e morar em condições precárias.

       Se não bastasse todas estas dificuldades, para essa história ficar mais parecida com roteiro de filme ou narrativa de best-seller, a matriarca da família morre deixando uma lacuna infinita no coração de três crianças que metaforicamente falando, perdera o chão naquele momento.

       Como toda boa narrativa tem que ter o clímax, com essa não foi diferente na trajetória vivida por esse garoto.

       Mas, como trazia no nome a força de um guerreiro, Geraldo, nome de origem germânica, que quer dizer “Senhor da Lança”, “Guerreiro Forte”, não podia imaginar em sua inocência de criança a força que tinha pra vencer aquela batalha que por horas se apresentava tão difícil.

       Assim com a força do nome, ele ainda menino, lutou como guerreiro. E dos bons. O primeiro confronto desse corajoso guerreiro foi vencer a dor e a tristeza da morte da mãe, que morreu sabe-se lá como, perdeu o que é mais seguro para uma criança de cinco anos, o colo e a proteção materna. Quem faria aquele chá de laranja, docinho? 

       A batalha dele estava apenas começando, separado das suas irmãs na calada da noite fúnebre, sentia aquela dor sem poder fazer nada. A vida vai seguindo e as dificuldades também, de modo itinerante passa o tempo nas barracas quentes, frias ou barulhentas a depender da estação e do clima, nas roças onde seu genitor trabalhava. Ele viveu a pobreza na mais dura realidade.

GERALDO FREIRE, COM, AMIGOS EM MIMOSO, PESQUEIRA (PE).

       Existe na literatura um livro do escritor Khaled Hosseini, chamado “O Caçador de Pipas”, aqui, Geraldo Freire era um garoto de que tinha como atribuição caçar fumaça. Ficava à espreita de uma fumaça no ar para identificar uma Casa de Farinha, onde acharia farinha ou goma para fazer tapiocas.

       O pequeno guerreiro que durante o dia caçava fumaça na esperança de dormir com a barriga cheia, mesmo que fosse com a tapioca insossa (já que não tinha um mísero punhado de sal), como vinda dos céus, na doação de alguns, e é provável que sim, já que ele tinha um anjo a protege-lo por lá!

       A segunda batalha do garroto era vencer a fome e a ignorância sociocultural do pai que já era mestre na arte de sofrer a pobreza trazidas pra eles como herança. Como Geraldo Gomes, tinha muita força e a proteção oculta do seu anjo mãe, conseguiu vencer o frio da sua rede mijada, expressão comumente usada por ele em linguajar popular que costuma usar como forma de se fazer pertencer a um passado. A enurese noturna muitas vezes tem cunho psicológico, teria esse menino motivos para mijar na sua rede?

       Somada as suas dores noturnas, as gotas de orvalho caídas pelas brechas do telhado da barracas cheirando a ferrugem, esfriavam ainda mais a esperança de uma vida melhor. Noite a dentro era embalado pela rede fria molhada por xixi e lágrimas que com um nó na garganta sofria a falta da mãe, de um lençol e de pão.

       Mas, como a sua mãe em forma angelical, abria suas asas sobre ele todos os dias, surge como um alento para o menino a escola, pois encontrava uma coisa que lhe dava prazer e o fazia transgredir àquela realidade tão cruel. A escola era a única coisa boa que tinha. Dotado de uma esperteza e inteligência que chamavam atenção, o menino se destacava do demais por aprender ler em tempo recorde.

       O anjo fazendeiro, Seu Titi, lhe deu de presente uma janela para o futuro, uma cartilha, que fez dele um leitor competente, para vencer o próximo duelo, a fuga, que o levaria para as suas irmãs e para uma vida de trabalho e sucesso.

       Como em um sonho, Geraldo pobre menino do Fundão de Dentro, munido da coragem adquirida a duras penas, planejou fugir daquela vida desgraçada permeada pela fome, frio e abandono, marcas que o deixou descrente até da bondade divina, mas todo esse sofrimento o fez tão forte e abençoado que conseguiu aos nove anos de idade e dez quilos de sonhos catados no terreiro de  mamonas, meia dúzia de pão e uma roupa desbotada como se diz no interior,  partiu viagem no trem da alegria em direção a um abraço carinhoso de tia Ciló e suas irmãs. 

       O apito do trem na estação de Ipanema era um aviso de que dias melhores viriam, e foi. Seu anjo desencarnado mais uma vez agia protegendo-o dos perigos, e colocando pessoas para proteger aquela criança franzina maltratada pelos míseros nove anos de luta pela sobrevivência a chegar em seu destino.

       Motoristas que foram verdadeiros anjos da guarda o fizeram chegar ao destino, o menino que achava Deus um carrasco, por levar sua mãe sem explicação, o deixando cético a acreditar nessa bondade.

       Não compreendia ele que todo aquele sofrimento o fazia mais forte que seu nome a cada dia que passava. O guerreiro que tinha como lança a inteligência, venceu a batalha do medo de ser capturado, da fome e da pobreza extrema. Não sabia ele que os deuses estavam do seu lado o tempo todo. Fizeram até o catimbozeiro errar a vidência, pra seu destino se cumprir.

       Como todo bom ateu, Geraldo cresceu humanamente, tornou-se um ser generoso, percebendo em seu pai Lauro, um homem que assim como ele foram vítimas de uma sociedade e que merecia todo o conforto que ele um dia conquistou, como forma de agradecimento e cuidado comprou com o dinheiro que consegui como radialista, o mimoso teto tão sonhado para seu patriarca.

       Com gesto nobre de perdão, ambos viveram bons momentos no Distrito de Mimoso.

       Toda essa história é pra contar o saudosismo de Geraldo Freire por Pesqueira demonstrado nas tantas viagens do Recife à Cimbres e Mimoso, que na sua psique busca com toda força interior, está perto da sua mãe de alguma forma.

       O nome Pesqueira, o leva a viver as poucas lembranças de sua mãe, que como diz o hino da cidade é a Rainha do Ororubá que o guerreiro de Cimbres lembra com saudade.

       Estar nessa cidade transporta o Comunicador da Maioria ao inconsciente universo da saudade que o inspirou na criação da música “Minha Saudade”, de sua autoria, musicada por Daniel Bueno, a qual ele a elege como sendo a sua saudosa lembrança da sua infância em Pesqueira. “Leve eu minha saudade”, a doce lembrança da mãe, a saudade das coisas simples que viveu na vida sofrida e que ainda assim tem cheiros de jurema florada, canto de passarinho, histórias de Trancoso, elementos que permeavam um pouco a fantasia da infância violada pela falta de tudo, mas, superada a partir de uma cartilha que o fez abrir os olhos para a cultura e para os valores que conseguiu adquirir, apresentados no seu jeito debochado de ser e se comportar na sociedade.

       Pesqueirense que se considera com muito orgulho, é consumidor nato de tudo que diz respeito a esta cidade e a cultura desse lugar, enquanto comunicador sempre valorizou a linguagem popular nordestina com o sendo um patrimônio que deve ser respeitado.

       E como diz o pesquisador suíço Ferdinandde Saussure, o pai da linguística, a linguagem se opõe a língua e a língua se opõe a fala, o Comunicador da Maioria, encontra nesse meio termo o espaço necessário para fazer sucesso com seu linguajar popular, dotado de sabedoria que conquista a todos.

       Como final de sua narrativa vivida, tem como desfecho a vitória de ter vencido a guerra da pobreza. Eis o roteiro de uma história com um final feliz, vivido na pele por um Pesqueirense por opção, que faz questão de revelar seu passado com fonte de inspiração para muitos. E com sua inspiração poética, Geraldo freire parabeniza a cidade de Pesqueira.

       “Minha Saudade traz de volta a minha escola

Meu carrinho, minha bola

Vem pra rede conversar.

[ ...]

Leve eu minha saudade

Acorde eu, minha saudade

Balance eu, balance eu, balance eu...’’  

       À Pesqueira, tudo, diz Geraldo Freire.

VEJA A HOMENAGEM DE GERALDO FREIRE AO ANIVERSÁRIO DE 141 ANOS DE ELEVAÇÃO À CATEGORIA DE CIDADE DE PESQUEIRA, OCORRIDO NO DIA 20 DE ABRIL DE 2021.

https://youtu.be/a__08ro7-zU

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