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PESQUEIRENSE É o Único inocentado no STF pelos atos golpistas de 8/1. VEJA A INCRÍVEL HISTÓRIA DO PERNAMBUCANO

Geraldo Filipe da Silva passou 11 meses preso na Papuda com os invasores do 8 de janeiro e não simpatiza com Bolsonaro

Publicado em 18 de março de 2024 às 22:35
Atualizado há 4 semanas

PESQUEIRA (PE) – Geraldo Filipe da Silva, um morador de rua de 27 anos, que passou 11 meses preso na Papuda com os invasores responsáveis pelos ataques golpistas de 8 de janeiro, é o único detento inocentado pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

       Ele está em liberdade desde 25 de novembro e seu julgamento foi encerrado na última sexta-feira (15). Em entrevista ao UOL, Geraldo contou que ficou curioso com o barulho das bombas e helicópteros e foi ver o “pau quebrando” na Praça dos Três Poderes.

       No entanto, chegou a apanhar de manifestantes bolsonaristas, que o acusaram de ser um “infiltrado da esquerda”. Foi quando ele pulou uma grade e deu de cara com policiais, que lhe deram voz de prisão. Geraldo narrou ainda que não simpatiza com o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e não gosta dos bolsonaristas.

       No turbilhão do caos que se abateu sobre a nação em 8 de janeiro de 2023, um personagem singular emerge das sombras: Geraldo Filipe da Silva, um morador de rua que se viu enredado em uma trama de injustiças e preconceitos. Enquanto o país testemunhava os desdobramentos das manifestações na Praça dos Três Poderes, Geraldo, por ironia do destino, tornou-se o único inocentado entre os detidos nesse fatídico dia.

       O que se passou naquele dia fatídico foi uma sucessão de eventos que lançaram Geraldo em um turbilhão de confusões e violência. Curioso com o alvoroço que ecoava pelas ruas, ele se aproximou da Praça dos Três Poderes apenas para ser brutalmente agredido por manifestantes que o confundiram com um infiltrado de ideais opostos. Desarmado e descalço, Geraldo foi rapidamente subjugado e detido pela polícia, mesmo sem qualquer evidência de seu envolvimento nas manifestações.

       A experiência de Geraldo atrás das grades foi marcada pelo isolamento e pelo confronto com a hostilidade dos demais detentos, especialmente dos bolsonaristas, que o acusavam injustamente de alinhamentos políticos que ele jamais professara. Na prisão, enfrentou não só a privação da liberdade, mas também o preconceito e a violência física e verbal.

       Ao ser finalmente libertado, Geraldo se viu às voltas com as marcas deixadas por meses de injustiça e difamação. Sua luta pela reparação dos danos sofridos levanta questionamentos sobre o funcionamento do sistema judiciário e a garantia dos direitos individuais, especialmente para os mais vulneráveis.

       Geraldo, nascido em Pesqueira (PE), enfrentou uma série de desafios ao longo de sua vida, desde as dificuldades familiares até os percalços que o levaram a vagar pelas ruas das grandes cidades. Sua trajetória é um retrato das desigualdades e injustiças que permeiam a sociedade brasileira, evidenciadas de forma contundente no episódio do 8 de janeiro.

       O caso de Geraldo não é apenas uma história isolada, mas sim um símbolo das falhas e injustiças que permeiam o sistema judiciário brasileiro. Sua luta por justiça e reparação ecoa além de sua própria história, representando uma demanda por um sistema mais justo e inclusivo para todos os cidadãos. Enquanto o país busca compreender e superar os traumas do passado, casos como o de Geraldo nos lembram da urgência de garantir os direitos e a dignidade de cada indivíduo, independentemente de sua condição social ou política.

VEJA O TEXTO COMPLETO DO UOL

“O QUE ACONTECEU NO MEIO DA CONFUSÃO”

       Geraldo é o único caso de detento do 8/1 inocentado pelo STF. O julgamento foi encerrado na última sexta-feira, mas ele está em liberdade desde 25 de novembro.

       Deu tudo errado para Geraldo em 8 de janeiro de 2023. Curioso com o barulho das bombas e dos helicópteros, foi ver o “pau quebrando” na praça dos Três Poderes”.

       Apanhou dos manifestantes golpistas que imaginaram que ele era um infiltrado da esquerda. Ele chegou ao local num momento tenso: a Polícia Militar tinha abandonado a apatia e começava a prender os invasores

Geraldo escapou da surra para as algemas. O morador de rua pulou algumas grades e deu de cara com a polícia. Tomou uma rasteira e recebeu voz de prisão ainda no chão.

O que ele não entende é como foram achar que uma pessoa descalça foi confundida com um infiltrado ou um golpista. Geraldo não estava de verde-amarelo, era andarilho havia três anos e seus pés estavam com feridas abertas

Para piorar, uma rápida conversa denuncia os problemas cognitivos do morador de rua. Ele acha que seu cérebro é monitorado pelos equipamentos eletrônicos e satélites e seus pensamentos são transmitidos pelos rádios e aplicativos de música.

Eu não participava de grupos [no WhatsApp], não ia a manifestação e acampamentos. Eu ficava no Centro Pop [equipamento para pessoas vulneráveis] na Asa Sul. Não tinha envolvimento com os patriotas.

CONVÍVIO DIFÍCIL

Geraldo conta que a primeira sensação na cadeia foi de isolamento. A direção da prisão separou os detentos por estado e andarilho não tem residência fixa. Os presos que estavam na mesma caravana andavam juntos, enquanto ele não conhecia ninguém.

O morador de rua ficou na cela A4 com pessoas de Rondônia e Paraná. O convívio com os bolsonaristas foi complicado. Considerado de esquerda e detido junto a manifestantes que tentaram derrubar Lula (PT), Geraldo foi hostilizado. Mas nas ruas vigora a lei do mais forte e ele sabia brigar.

A primeira confusão começou quando colocaram o dedo na cara do morador de rua. Ele avisou aos demais detentos que assistiam que a situação não ia virar briga porque respeitaria a idade avançada do dono do dedo. Mas usou a força para o indicador do oponente sair de perto de seu nariz.

As discussões reiteradas renderam a primeira passagem pela solitária. Não seria a única. Na segunda, e derradeira, ele já sabia que tinha direito a levar só escova de dentes, colher e caneca. Seria um mês sem banho de sol e com os pensamentos como única companhia. Por situações assim, Geraldo chorava na Papuda.

Como havia lido alguns livros na cadeia —estudou até a oitava série—, conta que teve uma epifania. Ele ficara sabendo do caso de Edward Snowden, funcionário da CIA que revelou um esquema global de espionagem por parte dos Estados Unidos. Na cabeça dele, estava explicado porque seus pensamentos viravam notícia de rádio.

“Me chamavam de infiltrado. A gente não consegue dormir com medo daqueles caras fazerem mal pra mim”, diz Geraldo Filipe da Silva.

O CASO DE GERALDO

O morador de rua ficou na cadeia até 25 de novembro do ano passado. Ele acha que alguém precisa pagar financeiramente pelos 11 meses na cadeia.

       Advogada diz que Geraldo quer processar o Estado. Taniéli Telles de Camargo afirma que ele está ciente de que tem direito a uma indenização, porém sairá do caso. “Minha missão se encerra com a absolvição dele”, declarou.

Geraldo conta que nunca foi filiado a partido político ou trabalhou em campanha. Ele também reclama que não pertence ao PCC, acusação que era feita todos os dias pelos demais presos no 8 de janeiro

O comportamento dele na Papuda criou inimizades. Na saída de cada detento chamado de “patriota”, há uma festa na porta da cadeia. Ele não teve esta cerimônia. Houve um bolo levado pela sua advogada e mais três pessoas para abraçá-lo.

Em liberdade, o morador de rua continuou sendo difamado. Bolsonaristas entram em seu perfil no Instagram e Facebook para chamá-lo de comunista, infiltrado e esquerdista.

As redes sociais são um tópico que preocupa muito a advogada Taniéli. A liberação do cliente da cadeia foi condicionada a não acessar as redes sociais e nem chegar perto da praça dos Três Poderes.

Mas o cliente não consegue compreender as medidas cautelares, quanto mais obedecê-las. Na semana passada, quando seu caso seria julgado, ele postou uma foto perto do Congresso. Também já arrancou a tornozeleira eletrônica.

QUEM É GERALDO

       O morador de rua nasceu em Pesqueira (PE), passou por Fortaleza e mudou para Ceilândia (DF). Aprendeu a primeira profissão com 16 anos, quando um conhecido o ensinou a ser serralheiro.

       Ele chegou a casar e tem um filho de oito anos. Mas não convive com o garoto porque não se dá bem com a ex. Geraldo contou que ela reclama de nunca receber pensão e que sustenta o filho sozinha

Mas a vida dele desabou por causa de um familiar de sangue. O morador de rua disse que a mãe pediu uma intervenção porque o irmão mais velho estava afundado no crack. Ele obedeceu e tentou ajudar.

Geraldo conta que, em 2 de abril de 2021, criminosos invadiram sua casa e quebraram tudo. A violência fez com que ele se mudasse para Arcoverde (PE), cidade onde se criou. Ele garante que não tem passagem pela polícia e exibe um atestado de “nada consta” de 2021. Mas a vida saiu do eixo.

Ele foi trabalhar de pedreiro em Belo Horizonte e só enfrentou problemas. Brigas com colegas de profissão fizeram achar que seria uma boa virar andarilho. A primeira caminhada foi até o Ceará. Depois de uma temporada em Pernambuco e Minas Gerais, ele voltou a Brasília.

Chegou à capital brasileira em novembro de 2022. Àquela altura, bolsonaristas acampados em frente ao quartel-general do Exército organizavam uma manifestação para o feriado da Proclamação da República. Alheio a tudo isso, Geraldo se preocupava em estar no Centro Pop no começo da noite, quando era servida a janta.

Foi assim até 8 de janeiro de 2023, quando ele deixou a mesa e foi ver o “agito” na Esplanada dos Ministérios. O dia mudou os rumos do Brasil e de Geraldo. Para não dizer que nada foi absorvido dos bolsonaristas, ele acha que a rede que transforma seus pensamentos em boletins de rádio é operada pelos comunistas

GERALDO VIRA ARGUMENTO DOS BOLSONARISTAS

       Geraldo foi defendido pela advogada Taniéli Telles de Camargo. Ela é de Jaraguá do Sul (SC) e defende sem cobrar nada 140 pessoas presas pela invasão às sedes dos Três Poderes.

O caso de Geraldo será usado para defender os outros presos. Taniéli diz que a situação caracteriza a falta de individualização das acusações. A advogada argumenta que prender um morador de rua torna evidente que a investigação não descobriu o papel de cada preso pelo 8 de janeiro. Ela afirma que o STF decidiu fazer uma acusação genérica sem se preocupar com os atos de cada suspeito.

Taniéli reclama que é muito difícil defender um cliente quando não é descrito seu papel num suposto crime. Além disso, a advogada diz que é errado do ponto de vista jurídico fazer acusações dando “control C e control V” [copia e cola].

STF condenou todos os outros acusados. As penas vão de 11 a 17 anos de prisão. Até o momento, o STF já puniu 116 envolvidos nos ataques golpistas. Os réus estão sendo julgados em lotes desde setembro do ano passado.

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