217? DEPUTADO FEDERAL | Pesqueira dividiu seus votos — e expôs um dilema político
A urna revelou uma cidade eleitoralmente forte, mas politicamente fragmentada. Entre 217 candidatos a deputado federal que receberam votos no município, poucos conseguiram transformar presença em identidade.
Por Flávio José Jardim
atualizado há 7 horas
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Existe uma diferença importante entre ter muitos votos e ter força política. A eleição de 2026 em Pesqueira parece ter deixado exatamente essa contradição sobre a mesa.
O município não ficou órfão de candidatos. Pelo contrário. O eleitorado pesqueirense distribuiu seus votos entre uma verdadeira multidão de postulantes a deputado federal. Foram 217 candidaturas diferentes alcançando pelo menos um voto e, juntas, somando 13.503 votos.
A quantidade impressiona. Mas o que realmente merece análise não é apenas a dimensão da lista. É o que ela revela sobre a política local.
Pesqueira continua sendo um território cobiçado. É uma cidade importante, com eleitorado expressivo e capacidade de influenciar disputas regionais. O problema é que essa força aparece pulverizada.
Em vez de funcionar como uma corrente política concentrada, o voto pesqueirense se comportou como uma espécie de rio com dezenas de afluentes. Há candidatos que chegaram ao município com estruturas partidárias robustas. Outros vieram respaldados por prefeitos, ex-prefeitos, vereadores, lideranças regionais ou grupos políticos tradicionais. Alguns conquistaram centenas de votos. Outros, apenas alguns.
Entre os nomes que mais pontuaram aparecem Silvio Costa Filho, com 9.471 votos; Felipe Carreras, com 3.204; Anderson Ferreira, com 2.489; Lula da Fonte, com 2.429; Carlos Veras, com 1.870; Miguel Duque, com 1.415; Renildo Calheiros, com 1.310; Jones Manoel, com 1.267; Pedro Campos, com 851; Rosa Amorim, com 726; Juliana de Chaparral, com 658; Marcelo Gouveia, com 591; e Gilson Machado, com 552 votos. A fotografia é reveladora.
Pesqueira não votou em um único projeto. Votou em vários. E talvez esteja justamente aí a maior questão política deixada pela eleição. Uma cidade pode ter muitos eleitores e, ainda assim, não transformar esse eleitorado em poder político concentrado.
É o paradoxo pesqueirense. Enquanto candidatos de diferentes regiões conseguiram construir nichos eleitorais dentro do município, a candidatura identificada diretamente com a terra encontrou um cenário muito mais difícil.
João Prudêncio terminou com 1.700 votos no total, sendo 1.421 em Pesqueira. O número precisa ser analisado sem paixão eleitoral e sem transformar estatística em sentença definitiva.
Ser “filho da terra” pode criar uma identificação inicial, mas não garante, sozinho, uma votação expressiva. A política moderna exige organização, presença, alianças, comunicação e, sobretudo, capacidade de transformar pertencimento em voto. A urna mostrou isso.
O eleitor não necessariamente vota em quem é da cidade. Vota em quem consegue convencê- lo. E essa talvez seja uma das lições mais duras da eleição. Pesqueira possui uma enorme quantidade de lideranças, grupos, relações políticas e preferências individuais. O resultado disso é uma fragmentação que beneficia candidaturas externas e dificulta a construção de uma representação política genuinamente municipal.
A lista dos 217 candidatos também revela outra característica interessante: existem votos praticamente personalizados. Um, dois, três, quatro, cinco votos.
São pequenas ilhas eleitorais espalhadas pelo município. Podem representar amizade, parentesco, compromisso político, influência profissional, relações comunitárias ou simplesmente uma escolha individual. Isoladamente, esses votos parecem insignificantes. Somados, ajudam a explicar a pulverização.
E existe uma consequência política nesse comportamento. Quanto mais dividido estiver o eleitorado, mais difícil será para qualquer candidatura local transformar Pesqueira em uma base eleitoral realmente decisiva. É uma matemática cruel.
Cada grupo pode comemorar sua pequena vitória, cada liderança pode apresentar seu candidato como representante, cada eleitor pode exercer livremente sua escolha. Mas, ao final, a cidade pode descobrir que entregou milhares de votos a diferentes projetos sem necessariamente fortalecer uma representação política própria. Não é uma crítica ao eleitor.
É uma provocação à classe política. Porque o eleitor tem o direito de escolher quem quiser. A pergunta deveria ser dirigida às lideranças: por que Pesqueira ainda não conseguiu construir uma candidatura capaz de reunir, de forma consistente, uma parcela majoritária ou expressiva do seu próprio eleitorado?
A resposta não está apenas nas urnas. Está nas articulações feitas antes delas. Está na capacidade de dialogar com bairros, distritos, comunidades, segmentos sociais e lideranças. Está na credibilidade construída durante anos — e não apenas durante uma campanha.
Também está na capacidade de convencer o eleitor de que votar em alguém da própria região pode significar mais do que uma questão sentimental. Porque política não se faz apenas com discurso de pertencimento. Faz-se com projeto. Faz-se com liderança. Faz-se com presença. Faz-se com voto. A eleição de 2026 deixa, portanto, uma fotografia incômoda para Pesqueira: 217 candidatos encontraram espaço eleitoral dentro do município, enquanto uma candidatura diretamente associada à terra conseguiu reunir 1.421 votos locais. Não é o fim de uma história.
Talvez seja o começo de uma discussão muito maior. Pesqueira precisa decidir se quer continuar sendo um território onde muitos candidatos conseguem retirar pequenas ou grandes parcelas do eleitorado ou se pretende construir, ao longo do tempo, uma estratégia política capaz de transformar seu peso eleitoral em representação.
Porque uma coisa é possuir votos. Outra, completamente diferente, é possuir força política.
E talvez seja justamente essa diferença que a eleição de 2026 tenha colocado diante do espelho. Pesqueira não perdeu sua força eleitoral. O que a urna mostrou é que essa força continua dividida.
A questão agora é saber quem terá capacidade política para transformar essa divisão em projeto, liderança e representação. Essa é a verdadeira disputa que começa depois da eleição.
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