A “Pegadinha da BR-232”: vereadores e empresários de Sanharó denunciam marketing político em audiência pública
Lideranças políticas e setor produtivo criticam estratégia do Governo do Estado após polêmica sobre trajeto da duplicação da rodovia
Por Flávio José Jardim
atualizado há 2 meses
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A duplicação da BR-232, uma das obras de infraestrutura mais aguardadas do interior pernambucano, acabou se transformando no centro de uma intensa polêmica política. Durante e após a audiência pública realizada em Belo Jardim, no dia 10 de março, vereadores de Sanharó e empresários do tradicional Polo do Queijo denunciaram o que classificaram como uma “pegadinha” envolvendo o projeto apresentado pelo Governo do Estado de Pernambuco.
Entre as vozes mais contundentes estiveram o presidente da Câmara Municipal de Sanharó, Guto do Salgado, e o vereador mais votado da cidade, Iran Batista. Ambos criticaram o que consideram um movimento estratégico de marketing político em torno da obra, que inicialmente foi apresentada com um traçado que deixaria cidades importantes fora do eixo principal da duplicação.
Segundo relatos de parlamentares e representantes do setor empresarial presentes na audiência, o primeiro projeto divulgado indicava que a duplicação da rodovia poderia contornar os centros urbanos de cidades estratégicas como Belo Jardim, Sanharó, Pesqueira e Arcoverde. A possibilidade gerou imediata reação de comerciantes, empresários e lideranças políticas da região.
Para os representantes do Polo do Queijo de Sanharó — um dos principais símbolos econômicos e turísticos da cidade — a exclusão da rodovia do perímetro urbano poderia causar impactos profundos na economia local. O fluxo constante de viajantes que passam pela BR-232 é responsável por impulsionar as vendas e garantir a sobrevivência de dezenas de estabelecimentos que vivem do comércio direto com os motoristas.
A apreensão tomou conta da audiência pública. Empresários, vereadores e moradores se manifestaram com veemência contra o primeiro desenho apresentado. O temor era claro: se a rodovia passasse por fora da cidade, grande parte do movimento econômico poderia desaparecer, repetindo o que ocorreu em outros municípios brasileiros quando grandes vias passaram a contornar os centros urbanos.
Foi nesse clima de forte pressão popular que ocorreu um momento inesperado. Representando a governadora Raquel Lyra, a vice-governadora Priscilla Krause apresentou, durante o próprio evento, um projeto considerado “alternativo”, que garantia que a duplicação da rodovia continuaria passando pelo eixo já existente dentro das cidades.
A mudança repentina no discurso provocou ainda mais questionamentos. Para muitos dos presentes, o gesto foi interpretado como uma resposta imediata à pressão popular, mas também levantou suspeitas de que o primeiro projeto teria sido apresentado apenas como uma estratégia para provocar reação e, posteriormente, anunciar a “solução”.
O presidente da Câmara de Sanharó, Guto do Salgado, afirmou que a situação deixou evidente a ausência de diálogo prévio com as cidades afetadas. Segundo ele, comerciantes do Polo do Queijo e diversas lideranças municipais compareceram à audiência com uma única preocupação: evitar que a duplicação da rodovia fosse desviada para fora da cidade sem qualquer justificativa plausível.
Para o vereador, não havia razão técnica ou econômica que justificasse retirar o fluxo da rodovia do centro urbano de Sanharó. Ele destacou que a cidade possui um comércio consolidado e uma identidade regional fortemente ligada à rodovia, algo que seria drasticamente prejudicado caso o traçado fosse alterado.
Guto também levantou a hipótese de que o primeiro projeto teria sido apresentado apenas como uma manobra política. Segundo ele, a impressão que ficou é que o projeto definitivo já estaria pronto, e que a versão anterior teria sido usada apenas para gerar tensão e, posteriormente, permitir que o governo surgisse como responsável por “resolver” o problema.
Apesar das críticas, o parlamentar afirmou que ficou satisfeito com a confirmação de que a duplicação seguirá o eixo tradicional da rodovia. Para ele, essa decisão representa uma vitória da mobilização popular e da união entre empresários, comerciantes e representantes políticos da região.
O vereador Iran Batista também fez um discurso contundente ao comentar os acontecimentos. Ele destacou que a duplicação da BR-232 é uma obra extremamente importante e necessária para o desenvolvimento do interior pernambucano, especialmente para melhorar a mobilidade e reduzir acidentes em um dos trechos mais movimentados do estado.
Segundo Iran, a crítica apresentada pelos vereadores não é contra a obra em si, mas contra a forma como o processo foi conduzido. Para ele, o projeto deveria ter sido discutido de forma transparente desde o início com as cidades diretamente impactadas pela duplicação.
O parlamentar relatou que, nos dias que antecederam a audiência pública, o clima em Sanharó era de grande incerteza. Comerciantes e moradores discutiam constantemente o assunto, temendo que a nova rodovia pudesse desviar completamente o fluxo de veículos da cidade.
Entre os mais preocupados estavam justamente os empresários ligados ao Polo do Queijo, cuja atividade depende fortemente do movimento gerado pela rodovia. Muitos acreditavam que a mudança de trajeto poderia provocar uma queda brusca no movimento comercial.
Iran Batista comparou a situação com outros municípios que perderam fluxo econômico após a construção de vias de contorno. Ele citou exemplos de cidades onde, após o desvio das rodovias, o comércio local praticamente desapareceu, tornando-se uma preocupação real para Sanharó.
Outro ponto que chamou a atenção do vereador foi a rapidez com que o novo projeto apareceu durante a audiência. Segundo ele, enquanto o primeiro traçado teria levado meses para ser elaborado, o projeto alternativo surgiu de forma quase imediata durante o evento.
Esse fato reforçou a suspeita de que o traçado que mantém a rodovia dentro das cidades já estaria previamente preparado. Para o parlamentar, isso fortalece a tese de que a polêmica foi criada artificialmente como parte de uma estratégia política.
Mesmo diante das críticas, os vereadores reforçaram que a duplicação da BR-232 continua sendo uma obra essencial para o futuro da região. A rodovia é considerada um dos principais corredores logísticos de Pernambuco, conectando o litoral ao Sertão e movimentando milhares de veículos diariamente.
No entanto, as lideranças locais defendem que projetos dessa magnitude precisam ser construídos com diálogo, transparência e respeito às comunidades que dependem diretamente da rodovia para sobreviver economicamente.
Ao final da discussão, ficou clara uma mensagem comum entre vereadores e empresários: a duplicação é bem-vinda, mas não pode ignorar o impacto social e econômico sobre cidades que cresceram justamente à sombra da BR-232.
Para Sanharó e seu Polo do Queijo, o resultado da audiência foi recebido com alívio, mas também com vigilância. A população agora promete acompanhar cada etapa do projeto para garantir que a promessa de manter a rodovia passando pelo coração das cidades realmente saia do papel.
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