Sociedade

Adeus a Romero de Sousa: Um Boêmio autêntico e imortal de Pesqueira

Romero não era apenas um homem – era uma lenda viva, um verdadeiro boêmio à moda antiga. Filho do também inesquecível Seu Calado, o eterno “Meu Nobre”, ele herdou do pai não apenas a paixão pela noite e pela poesia do cotidiano, mas também o dom raro de transformar uma mesa de bar num templo de alegria.

Por Flávio José Jardim atualizado há 1 ano
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Adeus a Romero de Sousa: Um Boêmio autêntico e imortal de Pesqueira

 

capa
capa (Flávio/flaviojjardim.com.br)

 

PESQUEIRA (PE) - Num domingo envolto em nuvens e lágrimas, a cidade de Pesqueira se despediu de um de seus mais emblemáticos filhos: Romero de Souza. Aos 69 anos, Romero partiu deste mundo no dia 7 de junho de 2025, após 15 dias de internação no hospital de Serra Talhada, onde enfrentou complicações que nem sua força boêmia conseguiu vencer. Neste domingo, cercado por amigos e familiares, foi sepultado no Cemitério de Pesqueira, sob a chuva mansa que parecia chorar junto com os corações enlutados.

 

“Romero não era apenas um homem – era uma lenda viva, um verdadeiro boêmio à moda antiga. Filho do também inesquecível Seu Calado, o eterno “Meu Nobre”, ele herdou do pai não apenas a paixão pela noite e pela poesia do cotidiano, mas também o dom raro de transformar uma mesa de bar num templo de alegria”.

 

Juntos, em tempos distintos, pai e filho construíram um legado que ultrapassava os limites da boemia: eram mestres na arte de viver.

 

No céu dos boêmios, onde estrelas cintilam ao som de serestas e o tempo se dobra em compassos de samba-canção, Seu Calado agora estende os braços para receber Romero. É festa nas alturas. Os dois se reencontram como velhos parceiros de mesa, rindo alto, brindando à eternidade, tocando violão imaginário sob uma lua que nunca se apaga. A boemia, ao contrário do que pensam os apressados, é um modo profundo de amar o mundo — e Romero sabia disso como poucos.

 

Pesqueira está de luto. O velório, realizado no bairro do Prado, no tradicional Velório da Boa Fé, foi marcado pela presença de amigos inseparáveis e companheiros de tantas jornadas: Valdir Bananeira, Pio, Lu, Maurílio, Luiz Bananeira, Chico Fuxico. Gente que, como Romero, sabe que a vida só vale se for vivida com intensidade, música e verdade. Seus irmãos, Robson e Alexandre, choravam a dor que só quem perde um pedaço da alma pode entender. Ao lado deles, a viúva Cleide de Souza, guardava nos olhos marejados as memórias de um amor que durou meio século.

 

Cleide e Romero formaram um daqueles casais que parecem moldados pelas mãos do próprio destino. Juntos há 50 anos, viveram uma história de amor que resistiu a tudo: às tempestades da vida, às madrugadas solitárias e aos silêncios do tempo. Eram um porto seguro um para o outro. E mesmo agora, com a ausência física de Romero, a força desse amor continua a ecoar, como uma melodia eterna tocando suavemente ao fundo da vida de Cleide.

 

 

casal
casal (Flávio/flaviojjardim.com.br)

 

 

Testemunhas desse amor, os amigos e familiares não esquecem os gestos de carinho entre eles — as mãos dadas, os olhares cúmplices, as palavras simples ditas com uma ternura que não se ensina. Cleide e Romero, mesmo com a idade, ainda sorriam um para o outro como dois jovens apaixonados, e esse sorriso agora é a lembrança mais preciosa guardada por ela.

 

Romero era mais que um boêmio: era um contador de histórias, um amigo de todas as horas, um homem que fazia da vida uma roda de conversa, do bar um palco, e da amizade, uma religião. Sabia ouvir, rir, brindar. Sabia viver. Sua ausência é um vazio que ecoa nos becos e bares da cidade, mas sua presença, paradoxalmente, continua viva nos corações de quem teve o privilégio de caminhar ao seu lado.

 

Pesqueira não o esquecerá. Em cada esquina onde ele contou uma piada, em cada calçada onde sentou-se para ver a vida passar, em cada copo erguido em nome da alegria, Romero estará lá — sorrindo com aquele jeito maroto, olhos brilhando de vinho e poesia, como se dissesse: “A vida é agora, meu nobre.”

 

E enquanto Cleide continua sua caminhada nesta terra, guiada pelo amor inquebrantável que os unia, Romero segue sua jornada no céu dos boêmios, onde o violão nunca se cala e as estrelas dançam ao som de boleros. Lá, Seu Calado e ele brindam à vida que viveram e à eternidade que agora celebram. Porque, para os boêmios de verdade, a morte não é o fim — é apenas o começo de uma nova roda de amigos.

 

Romero de Sousa não se foi. Apenas mudou de mesa.

 

romero
romero (Flávio/flaviojjardim.com.br)

 

contracapa
contracapa (Flávio/flaviojjardim.com.br)

 

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