Sociedade

ADEUS, MEU AMIGO SEU ANTENOR...

Há pessoas que não morrem apenas para a família. Partem levando consigo um pedaço da alma de uma cidade. Hoje escrevo para me despedir de um homem que aprendi a admirar, respeitar e chamar de amigo...

Por Flávio José Jardim atualizado há 1 mês
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ADEUS, MEU AMIGO SEU ANTENOR...

PESQUEIRA (PE) - Existem textos que um jornalista escreve porque a profissão exige. Mas existem outros que simplesmente não conseguem nascer da técnica. Eles brotam da saudade. Da dor. Do silêncio que invade o peito quando alguém importante parte. Hoje, não escrevo como repórter. Escrevo como Flávio J. Jardim. Escrevo como um amigo que teve o privilégio de conhecer Seu Antenor Neto, de ouvi-lo, de aprender com sua simplicidade e de encontrar, em cada conversa, uma verdadeira lição de humanidade.

 

Estava viajando, não pude participar das exéquias, mas desde que recebi a notícia de sua partida, no último dia 13 de julho, confesso que algo ficou diferente dentro de mim. A rotina continuou, as notícias seguiram chegando, a cidade permaneceu em movimento, mas havia um vazio impossível de ignorar. Porque algumas pessoas parecem eternas. A gente acredita, mesmo sem perceber, que elas sempre estarão ali. Sentadas em uma calçada, tomando um café, contando histórias, distribuindo conselhos e espalhando aquele sorriso tranquilo que fazia qualquer conversa se transformar em um momento especial.

 

Seu Antenor era exatamente assim. Nunca precisou ocupar um cargo importante para ser respeitado. Nunca precisou levantar a voz para ser ouvido. Nunca precisou buscar reconhecimento, porque o respeito chegava naturalmente. Era um homem cuja grandeza morava na humildade. Um daqueles raros seres humanos que deixam marcas sem fazer esforço, apenas vivendo corretamente. Foi pai, avô, esposo, amigo, membro orgulhoso do povo indígena Xukuru do Ororubá e, acima de tudo, um homem de caráter que fez da honestidade seu maior patrimônio.

 

Conheci Seu Antenor em diversas oportunidades. Sempre o vi sereno, educado, gentil. Gostava de ouvir também, mas quando falava, todos prestavam atenção. Havia sabedoria em suas palavras. Havia experiência. Havia uma calma que parece cada vez mais rara nos dias de hoje. Nunca saí de uma conversa com ele sem aprender alguma coisa. É por isso que sua ausência pesa tanto. Não perdi apenas uma fonte de boas histórias. Perdi um amigo que fazia bem simplesmente por existir.

 

Quando li a homenagem escrita por seu filho, o Delegado Rossine, meus olhos se encheram de lágrimas. "Descanse em paz, meu amado pai, Antenor Neto, um exemplo de homem de bem, grande ser humano e um pai maravilhoso. Tenho muito orgulho de ser seu filho." Não era apenas a despedida de um filho. Era o reconhecimento público de uma vida inteira dedicada ao amor, ao trabalho e à família. Era impossível ler aquelas palavras sem sentir a dimensão da dor que atravessava aquele coração.

 

Também me emocionaram profundamente as palavras de Marconeide Cordeiro, esposa de Rossine e nora de Seu Antenor. Ela escreveu que a partida do sogro deixou um vazio imenso, mas que o carinho recebido através das orações, das mensagens e da presença dos amigos foi um abraço na alma da família. Essa talvez seja a maior riqueza que alguém pode deixar quando parte: o amor das pessoas. Não existe patrimônio maior do que esse.

 

As redes sociais foram tomadas por manifestações que revelaram exatamente quem foi Seu Antenor. Entre centenas de mensagens, uma delas me tocou profundamente. Um familiar escreveu: "Como dizia meu pai, meu primo Antenor é uma das melhores pessoas que ele conheceu. Digo o mesmo. Era uma pessoa incrível, sempre me cumprimentava com alegria e é essa imagem que vou guardar." Outra homenagem dizia simplesmente: "Obrigada por fazer parte da minha vida, meu padrinho." Houve quem escrevesse: "Que Deus o receba de braços abertos." Outros disseram: "Meus sentimentos à família.", "Descanse em paz.", "Deus conforte a todos.", "Nossa Senhora o apresente a Deus." Em comum, todas essas palavras carregavam a mesma verdade: Seu Antenor era amado.

 

Uma das recordações mais bonitas veio do vereador Mateus Leite, que relembrou uma tarde comum, daquelas que parecem não ter importância até que se tornam inesquecíveis. Contou que, durante uma reunião política, Seu Antenor chegou apenas para tomar um café. Sentou-se, participou da conversa e começou a recordar como era a política nos tempos antigos, lembrando histórias vividas ao lado de pessoas que marcaram a história de Pesqueira. É curioso como os grandes homens fazem isso. Eles transformam encontros simples em lembranças eternas.

 

PARTIDA

 

Soube que o velório, realizado na Funerária Zelo, e o sepultamento, acompanhado por familiares, amigos e pessoas de todas as partes da cidade, mostraram aquilo que nenhuma homenagem escrita consegue traduzir completamente: o tamanho do legado deixado por Seu Antenor. "Ali não estavam apenas pessoas cumprindo um ritual de despedida. Estavam corações agradecidos por terem convivido com alguém que soube viver fazendo o bem". disse outro amigo. 

 

Hoje, enquanto escrevo estas linhas, percebo que Pesqueira perde muito mais do que um cidadão. Perde um homem de caráter, um pai exemplar, um representante respeitado do povo Xukuru do Ororubá e alguém que conquistou amizades por onde passou. Eu, particularmente, perco um amigo e uma referência de humildade. Que Deus conceda o descanso eterno ao querido Seu Antenor Neto e fortaleça Dona Lourdes (viúva), Rossine (filho), Marconeide (nora), Hérika (filha), Yuri (neto) e todos os familiares. Sua história não termina aqui. Ela permanecerá viva na memória de quem teve o privilégio de conhecê-lo, e eu me sinto honrado por poder dizer que fui uma dessas pessoas.

 

Adeus, meu amigo Antenor. Obrigado por cada conversa, por cada gesto de gentileza, por cada ensinamento silencioso. Obrigado por mostrar que a grandeza não está na riqueza, nem no poder, mas na maneira como tratamos as pessoas durante a caminhada. Que Deus o receba em Sua morada eterna. E que, quando a saudade apertar, eu possa recordar seu sorriso sereno e acreditar que homens como o senhor nunca morrem de verdade. Eles apenas deixam de ser vistos pelos nossos olhos para permanecerem, para sempre, guardados em nossos corações.

 

capa 2
capa 2 (Flávio/flaviojjardim.com.br)

 

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