Política

Ana Maria Gonçalves – Palavras Negras no Templo Branco

Há dias em que a História se enfeita de cores novas, e na tarde em que Ana Maria Gonçalves foi eleita a primeira mulher negra da Academia Brasileira de Letras, o céu pareceu soprar ventos de justiça pelas janelas do Petit Trianon.

Por Flávio José Jardim atualizado há 1 ano
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Ana Maria Gonçalves – Palavras Negras no Templo Branco

 

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abl (Flávio/flaviojjardim.com.br)

 

É curioso pensar que o caminho da palavra possa começar tão longe do papel. Ana Maria nasceu em Ibiá, Minas Gerais, em 1970. Antes de se fazer escritora, foi publicitária. Mas, ao que tudo indica, o destino das pessoas nascidas para a literatura as persegue até que aceitem a sina. Ana largou a publicidade e, com coragem de quem desbrava matas fechadas, dedicou-se ao ofício de escrever.

 

E escreveu. Escreveu como quem não tem medo de feridas expostas. Seu primeiro romance, “Ao lado e à margem do que sentes por mim”, publicado em 2002, já mostrava o fôlego de quem enxerga os abismos do amor, do racismo, das relações humanas. Mas foi com “Um defeito de cor” (2006) que Ana Maria Gonçalves se cravou no mapa literário brasileiro e, depois, internacional.

 

“Um defeito de cor” é mais do que um romance: é uma travessia. É o épico de Kehinde, menina africana sequestrada ainda criança e trazida para o Brasil como escravizada. Nas quase mil páginas do livro, Ana Maria costura o íntimo e o político, o amor e a revolta, a escravidão e a busca pela liberdade. Reconstitui um Brasil que se orgulhava de chicotadas e que hoje ainda guarda as marcas desses açoites na carne da desigualdade.

 

Com esse romance monumental, venceu o Prêmio Casa de las Américas em 2007, e sua obra foi traduzida para diversos idiomas, levando a saga negra brasileira para além-mar. Mais do que uma escritora, Ana Maria tornou-se voz e rosto de um movimento que há muito exige espaço: o da literatura afro-brasileira sendo reconhecida não como nicho, mas como parte do cânone.

 

Viajante, Ana morou em Salvador, São Paulo, nos Estados Unidos, e também viveu temporadas em outras partes do mundo. Leva consigo uma escrita que não conhece fronteiras. Escreveu contos, artigos, crônicas, sempre entrelaçando literatura, política, memória e identidade.

 

Há quem diga que a Academia Brasileira de Letras é um templo branco. Talvez tenha sido por isso que, no dia de sua eleição, os tambores invisíveis tenham rufado nas calçadas do Rio de Janeiro. Porque o lugar de Ana Maria Gonçalves não é apenas o de uma cadeira numerada. É o de quem expande as paredes da Casa de Machado, para que caibam mais vozes, mais histórias, mais cores.

 

A vitória de Ana Maria não é só sua. É de Kehinde, de todas as mulheres negras, de todas as palavras caladas que agora se libertam.

 

E quem sabe, ao olhar para aquele salão de lustres e cortinas pesadas, alguém ainda escute, lá no fundo, a voz de Kehinde dizendo que não há defeito algum em ter cor.

 

Texto: Galba Macêdo 

Julho 2025

 

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ablz (Flávio/flaviojjardim.com.br)

 

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