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ARTE EM MADEIRA, MEMÓRIA EM LINHA: J. Borges chega a Lisboa pelas mãos da pesqueirense Laís Maciel e Filipe Campello

A Verso Galeria, recém-inaugurada pela pernambucana e pesqueirense Laís Maciel e seu marido Filipe Campello, estreia em solo europeu com uma mostra histórica: a última série de xilogravuras do mestre J. Borges

Por Flávio José Jardim atualizado há 1 ano
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ARTE EM MADEIRA, MEMÓRIA EM LINHA: J. Borges chega a Lisboa pelas mãos da pesqueirense Laís Maciel e Filipe Campello

Lisboa ganhou nesta semana um novo centro de gravidade para a arte brasileira. No coração do Campo de Ourique, bairro de atmosfera boêmia e inquieta, a Verso Galeria abre suas portas com um gesto simbólico e estético de rara potência: a exposição Pernambuco por J. Borges, com obras inéditas do maior xilogravurista da história brasileira. A iniciativa é assinada por Laís Maciel, artista visual e curadora natural de Pesqueira, e por seu marido, o filósofo e pesquisador Filipe Campello. Juntos, eles estão redesenhando o mapa da arte popular no cenário europeu.

 

A mostra, que será inaugurada nesta sexta-feira (9), às 19h, reúne uma seleção comovente de gravuras feitas por J. Borges nos meses que antecederam sua morte, em julho de 2024. Trata-se de um testamento visual de um artista que soube transformar madeira, tinta e poesia popular em patrimônio nacional. E agora, em internacional. É a primeira vez que essas obras deixam o Brasil — e o fazem não apenas em nome da beleza, mas da memória.

 

Com curadoria primorosa e afeto evidente, a exposição na Verso é mais do que um evento artístico: é uma travessia cultural. As obras de J. Borges transportam ao público europeu as festas de São João, as feiras nordestinas, os bois de carnaval, as rezas, os sanfoneiros, as romarias — tudo o que pulsa no imaginário coletivo de Pernambuco. Cada peça parece conter não apenas traços, mas vozes. Vozes que narram o Brasil profundo.

 

J. Borges, que começou a vida como pedreiro e carpinteiro em Bezerros, chegou aos livros por meio da literatura de cordel. Em seguida, aprendeu a ilustrá-los. A xilogravura, técnica de entalhar imagens em madeira e transferi-las para o papel, tornou-se sua linguagem definitiva. Um ofício rústico e sofisticado que ele elevou a um lugar de genialidade reconhecido internacionalmente. Suas obras já passaram por museus como o Louvre, em Paris, e agora entram para o acervo permanente do Museu Reina Sofía, em Madri, que adquiriu parte da série exibida na Verso.

 

Laís Maciel, que cresceu entre o sertão e a arte, filha de Sandra Maciel e Yrageu Tabosa, carrega consigo a força e a ternura de quem conhece as raízes. Irmã do advogado André Maciel, ela traz à galeria não apenas técnica e curadoria, mas identidade e memória. Ao lado de Filipe, oferece à Europa um Brasil real, sensível, que pulsa nas bordas e no centro.

 

A escolha por abrir a Verso Galeria com a obra de J. Borges é um manifesto. “Queríamos começar com aquilo que nos constitui: o Brasil da imagem e da palavra, da madeira e do mito. J. Borges representa isso como ninguém. É o artista do povo, mas também o artista do mundo”, afirmou Filipe Campello, na coletiva de imprensa da inauguração.

 

A parceria com a Christal Galeria, do Recife, foi fundamental para viabilizar o transporte e a curadoria das peças. Cada xilogravura é apresentada em moldura delicada, sem perder a rusticidade que caracteriza o traço de Borges. A iluminação da galeria, cuidadosamente pensada, valoriza os detalhes minuciosos das matrizes entalhadas, revelando texturas que evocam a terra e a oralidade do Nordeste.

 

A abertura da exposição será marcada por uma roda de conversa sobre arte popular, com presença de artistas brasileiros residentes em Portugal, professores universitários e representantes do setor cultural lisboeta. Espera-se um público diverso: brasileiros saudosos de suas raízes, portugueses fascinados pela força imagética da xilogravura, e colecionadores atentos ao valor histórico da mostra.

 

Não há dúvida: Pernambuco por J. Borges é um presente visual. Uma homenagem ao artista que se despediu do mundo com madeira nas mãos e versos na boca. Uma travessia oceânica que leva consigo não apenas arte, mas alma. “A xilogravura é meu jeito de rezar”, dizia Borges. E agora, essa oração nordestina ecoa em Lisboa.

 

A Verso Galeria firma-se, já em sua estreia, como um espaço de intercâmbio e potência criativa. O projeto de Laís e Filipe não é um gesto passageiro — é uma ponte. Uma galeria com a missão de colocar a arte brasileira no mapa europeu, com dignidade, beleza e, acima de tudo, verdade.

 

A exposição ficará aberta ao público até julho e a entrada é gratuita. No centro da galeria, entre imagens de sanfoneiros e vaqueiros, uma frase de cordel resume o espírito da mostra: “Não é só arte, é memória entalhada com faca de afeto.” Que Lisboa saiba recebê-la com olhos largos e coração aberto.

 

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lais (Flávio/flaviojjardim.com.br)

 

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lais (Flávio/flaviojjardim.com.br)

 

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