CINEMA QUE NASCE DA RAIZ: JOVENS INDÍGENAS TRANSFORMAM CELULARES EM VOZ E RESISTÊNCIA NO SERTÃO
Mostra estudantil emociona público em Arcoverde e revela uma geração que filma, narra e preserva sua própria história
Por Flávio José Jardim
atualizado há 14 horas
Publicado em
No coração do Sertão pernambucano, uma cena carregada de significado tomou conta do Sesc Arcoverde no último dia 15 de abril. Jovens estudantes, muitos deles indígenas, ocuparam as telas não apenas como espectadores, mas como protagonistas de suas próprias narrativas, durante a Mostra de Vídeo Estudantil (MOVE), uma iniciativa que vem revolucionando o olhar da educação pública sobre o audiovisual.
Guiados pelos mediadores Kleber Xukuru e Raquel Xukuru, os alunos chegaram ao evento levando mais do que vídeos: trouxeram histórias, identidades e sentimentos traduzidos em imagens captadas, em sua maioria, por celulares. Uma prova viva de que a arte não depende de grandes equipamentos, mas de sensibilidade, vivência e coragem para contar.
A ação, promovida pelo Governo de Pernambuco por meio da Secretaria de Educação e suas Gerências Regionais, sob orientação do professor Renan Peixe, tem se consolidado como um poderoso instrumento pedagógico. Desde o final de 2025, as oficinas vêm formando jovens realizadores, despertando talentos e incentivando o pensamento crítico dentro e fora da sala de aula.
Entre os destaques da mostra, estiveram produções de escolas indígenas como Ororubá, MEMBY e Milson e Nilson, além da Escola Arruda Marinho. Cada obra exibida carregava consigo fragmentos de território, ancestralidade e pertencimento, reafirmando o papel da escola como espaço de valorização cultural.
As produções emocionaram o público ao abordar temas profundos, como a preservação ambiental, a memória coletiva e o futuro das próximas gerações. Vídeos-cartas e documentários trouxeram mensagens carregadas de esperança, mas também de alerta, mostrando que esses jovens estão atentos ao mundo que os cerca e dispostos a transformá-lo.
A mostra também se destacou pelo seu caráter inclusivo. Estudantes da Educação de Jovens e Adultos (EJA) e pessoas com deficiência participaram ativamente das oficinas e das produções, ampliando vozes e reforçando o compromisso com uma educação que acolhe, respeita e dá espaço a todos.
Mais do que um evento, a MOVE se tornou um marco na formação cultural da região. A participação de escolas de Pesqueira e Arcoverde, integradas à GRE Sertão do Moxotó Ipanema, fortaleceu o intercâmbio de experiências e mostrou que o interior pulsa criatividade e potência.
Por trás desse movimento, também está a força do coletivo Ororubá Filmes, do povo Xukuru, do qual Kleber e Raquel fazem parte. Com o apoio do COPIXO e da coordenação da Escola Arruda Marinho, a iniciativa segue firme, plantando sementes de protagonismo, identidade e resistência — e colhendo, já agora, os frutos de uma juventude que decidiu contar sua própria história.
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