Da dor à Câmara: duas histórias que chegaram ao Congresso
Ana Carolina Oliveira e Leniel Borel transformaram tragédias familiares em atuação política e agora levarão para Brasília bandeiras ligadas à proteção das crianças, segurança e combate à violência
Por Flávio José Jardim
atualizado há 7 horas
Publicado em
Há histórias que começam muito antes de uma eleição. Não nas urnas, nos palanques ou nos partidos, mas em momentos capazes de mudar uma vida para sempre.
Foi a partir de duas dessas histórias que Ana Carolina Oliveira e Leniel Borel chegaram à política brasileira. Mãe de Isabella Nardoni e pai de Henry Borel, respectivamente, os dois conheceram a violência contra os próprios filhos e, anos depois, transformaram a experiência pessoal em participação na vida pública.
Agora, o caminho ganhou uma nova dimensão. Nas eleições de 2026, os dois foram escolhidos para representar seus estados na Câmara dos Deputados. Ana Carolina, pelo Podemos de São Paulo, recebeu 246.741 votos e foi eleita para uma cadeira no Congresso.
Leniel Borel, candidato pelo Progressistas no Rio de Janeiro, obteve 72.658 votos e também garantiu seu espaço na Câmara dos Deputados. A Justiça Eleitoral confirmou sua eleição pelo sistema proporcional.
O resultado eleitoral coloca os dois diante de um desafio que ultrapassa a conquista de um mandato: transformar uma experiência de dor em propostas, debates e políticas públicas.
Ana Carolina chegou à política depois da morte de Isabella, em 2008. A menina tinha apenas 5 anos quando morreu após ser arremessada do sexto andar de um edifício na Zona Norte de São Paulo. O caso provocou enorme repercussão nacional e terminou com a condenação do pai da criança, Alexandre Nardoni, e da madrasta, Anna Carolina Jatobá.
Desde então, Ana Carolina passou a atuar publicamente em temas relacionados à segurança e à proteção de vítimas de violência. Como vereadora da capital paulista, construiu sua trajetória política em torno dessas pautas e agora levará essa experiência para Brasília.
A votação expressiva conquistada em São Paulo mostra a dimensão alcançada por sua candidatura: foram quase 247 mil votos em uma das disputas proporcionais mais concorridas do país.
No Rio de Janeiro, a trajetória de Leniel Borel também nasceu de uma tragédia familiar. Em 2021, Henry Borel, então com 4 anos, morreu após sofrer múltiplas lesões internas no apartamento onde vivia com a mãe e o padrasto. O caso provocou comoção nacional e abriu uma ampla discussão sobre violência contra crianças.
O padrasto, o ex-vereador Jairo Souza Santos Júnior, conhecido como Dr. Jairinho, foi condenado a 43 anos, 9 meses e 20 dias de prisão por homicídio duplamente qualificado, tortura e coação no curso do processo. Monique Medeiros, mãe de Henry, também foi condenada por omissão em relação às agressões sofridas pelo menino.
A partir daquela perda, Leniel entrou na vida pública e passou a defender medidas relacionadas à infância, à segurança e à proteção de crianças. Primeiro, no Legislativo municipal do Rio. Agora, no Congresso Nacional.
O que une Ana Carolina e Leniel não é apenas a circunstância que os levou à política. É a tentativa de transformar uma experiência particular em uma agenda de interesse coletivo. Brasília será o próximo cenário dessa caminhada.
A partir de 2027, duas pessoas que conheceram a violência contra crianças dentro da própria família ocuparão cadeiras na Câmara dos Deputados. Caberá a eles transformar histórias pessoais em atuação legislativa e fazer com que temas como prevenção da violência, proteção da infância e atendimento às vítimas permaneçam no centro do debate público.
A política, nesse caso, não apagará o passado. Mas poderá dar a ele um novo significado. Porque algumas pessoas chegam ao Parlamento carregando projetos. Outras chegam carregando experiências que não podem ser esquecidas.
Ana Carolina Oliveira e Leniel Borel chegam a Brasília levando as duas coisas.
Você precisa estar logado para comentar. Por favor, faça login ou crie a sua conta.
Ainda não há comentários para esta notícia. Seja o primeiro a comentar!