Datena, Sikêra, Adrilles e Sheherazade diante do teste das urnas. Quando a fama encontra a urna, a celebridade descobre o peso do voto
Eles já tinham fama, audiência e milhões de brasileiros conhecendo seus nomes. Em 2026, porém, a política mostrou que celebridade não é sinônimo de voto — e que entre os holofotes e o Congresso existe uma distância que só a urna consegue medir
Por Flávio José Jardim
atualizado há 7 horas
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A televisão cria personagens. O futebol fabrica ídolos. Os realities revelam desconhecidos. A internet transforma pessoas comuns em fenômenos nacionais. Mas existe um lugar onde a fama precisa começar tudo de novo: a urna eletrônica. As eleições de 2026 deixaram esse contraste especialmente evidente em São Paulo e também em outros estados.
Nomes conhecidos por milhões de brasileiros entraram na disputa por cadeiras nos Legislativos. Alguns carregavam décadas de televisão. Outros chegaram à política depois de experiências em reality shows. Houve ainda atletas, cantores, humoristas e personalidades que fizeram sucesso com vídeos e memes.
A lógica parecia simples: se existe reconhecimento público, seria possível transformá-lo em votos? O resultado mostrou que a equação não é tão automática.
Em São Paulo, José Luiz Datena terminou a disputa com 51.071 votos. O número o colocou entre os famosos mais votados da lista apresentada, mas não foi suficiente para garantir a eleição.
Datena conhece há décadas a força da televisão brasileira. Seu rosto esteve associado a programas jornalísticos de grande audiência e a uma comunicação que alcançou diferentes públicos.
A experiência diante das câmeras, porém, não se converteu automaticamente em uma cadeira no Congresso.
O mesmo aconteceu com Sikêra Júnior, conhecido nacionalmente pela apresentação de programas policiais. Candidato pelo Republicanos, ele recebeu 37.050 votos. Adrilles Jorge, que ganhou projeção nacional no Big Brother Brasil e posteriormente construiu carreira política, alcançou 26.694 votos.
A votação o colocou diante de um cenário curioso: milhares de pessoas conheciam seu nome, mas o reconhecimento acumulado ao longo dos anos não foi suficiente para levá-lo à Câmara dos Deputados.
Silvia Abravanel, filha do apresentador Silvio Santos e figura conhecida da televisão brasileira, recebeu 22.464 votos pelo PSD.
Quase o mesmo resultado apareceu para Rachel Sheherazade, que contabilizou 22.451 votos. A jornalista construiu uma carreira marcada pela presença na televisão e por comentários que alcançaram grande repercussão nacional. A passagem pelo jornalismo, pelo entretenimento e por reality show ampliou ainda mais sua exposição pública.
Mesmo assim, diante das urnas, a notoriedade encontrou um obstáculo que nenhuma audiência televisiva consegue eliminar: cada voto precisa ser conquistado individualmente. Netinho de Paula, cantor e apresentador conhecido do público brasileiro, terminou a disputa com 19.336 votos pelo MDB.
Jean Wyllys, que já havia exercido mandato de deputado federal e ficou conhecido nacionalmente também pela participação no Big Brother Brasil, obteve 18.073 votos pelo PT. A lista segue.
Eduardo “Xaropinho” do Ratinho recebeu 15.382 votos. Geraldo Luís, conhecido por programas populares da televisão, alcançou 10.176 votos pelo Avante.
Luís Fabiano, ex-jogador de futebol que levou para a política a popularidade construída dentro dos gramados, terminou com 9.613 votos. O goleiro Sérgio teve 9.565.
Manoel Gomes, o “Caneta Azul”, fenômeno musical que ultrapassou fronteiras da internet e virou personagem conhecido em todo o país, recebeu 7.239 votos. Baianinho de Mauá chegou a 7.452 votos, enquanto MC Gui somou 7.378. Val Marchiori, conhecida nacionalmente desde sua participação em “Mulheres Ricas”, alcançou 5.025 votos.
Dinei, outro nome ligado ao futebol, terminou com 3.315. Lucas Penteado, ator e ex-participante do Big Brother Brasil, recebeu 3.448 votos. Marquito, conhecido pela participação no universo televisivo do Ratinho, teve 1.595. E Finazzi, também ligado ao futebol, terminou com 1.069 votos.
Os números contam uma história maior do que a trajetória individual de cada candidato. Eles revelam a distância que pode existir entre ser conhecido e ser escolhido.
Uma pessoa pode ser reconhecida no supermercado, abordada nas ruas, seguida nas redes sociais, lembrada pela televisão e ainda assim encontrar dificuldades para transformar essa familiaridade em uma votação eleitoral capaz de produzir um mandato. É aí que a política muda completamente as regras do jogo. Na televisão, o público acompanha.
Na internet, o usuário curte, compartilha e comenta. No futebol, o torcedor vibra.
No reality show, milhões acompanham cada movimento. Na eleição, entretanto, é preciso convencer o eleitor a apertar cinco dígitos na urna e confirmar uma escolha.
E isso exige algo diferente da fama. Exige presença política, organização, estrutura partidária, capacidade de comunicação, identificação com determinadas pautas e, sobretudo, uma relação eleitoral construída em diferentes territórios.
Por isso, a eleição de 2026 deixa uma pergunta interessante para além dos nomes famosos: até onde vai o poder da celebridade quando ela entra no território da política? A resposta não está apenas na quantidade de seguidores ou no tamanho da audiência. Está nos votos.
E os votos mostraram que a passagem dos holofotes para o plenário não acontece por um simples movimento de transferência. O palco pode apresentar alguém ao país. A urna, porém, exige uma escolha.
No fim das contas, a celebridade pode começar a campanha com algo que muitos candidatos levam anos para conquistar: reconhecimento do público. Mas reconhecimento não é sinônimo de mandato.
As eleições de 2026 deixaram essa diferença registrada nos números. Para alguns, a fama foi apenas o ponto de partida. Para outros, nem mesmo milhares de votos foram suficientes para transformar notoriedade em uma cadeira parlamentar.
E talvez esteja justamente aí uma das maiores lições desse pleito: na política, o eleitor não vota apenas no rosto que conhece. Ele vota em uma escolha.
E, quando as câmeras são desligadas e a apuração começa, é a urna — e não a audiência — que dá a palavra final.
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