Política

Dona Odete: A Mestra que Borda a História de Pesqueira com Linhas Eternas

A Câmara Municipal de Pesqueira concede o título de Cidadã Pesqueirense à guardiã da renda renascença, que há quase um século transforma linhas em arte e vidas em poesia.

Por Flávio José Jardim atualizado há 1 ano
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Dona Odete: A Mestra que Borda a História de Pesqueira com Linhas Eternas

 

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odete (Flávio/flaviojjardim.com.br)

 

Há mulheres que não apenas vivem a história: elas a tecem, ponto por ponto, até que se torne parte inseparável da identidade de um povo. Assim é Dona Odete, Odete Cavalcanti Maciel, a mestra artesã de 97 anos que, neste domingo, 17 de agosto, receberá o título de Cidadã Pesqueirense, em cerimônia proposta pelo presidente da Câmara de Vereadores, Guilherme Araújo, o Guila Xukuru. A homenagem acontecerá em frente à Casa Anísio Galvão, logo após o desfile da renda renascença, dentro das festividades do projeto Pernambuco Meu País.

 

Pesqueira se prepara para aplaudir, não apenas uma mulher, mas um símbolo vivo da resistência cultural, alguém que transformou agulha e linha em instrumentos de emancipação feminina, de sobrevivência econômica e de beleza universal. A cidade se tornará palco de uma justa reverência àquela que, desde os anos 1930, se dedicou a repassar o saber da renda renascença a milhares de mãos.

 

Nascida em Poção, berço dessa arte, no dia 1º de fevereiro de 1928, Dona Odete cresceu cercada pela disciplina silenciosa das primeiras rendeiras. Ainda menina, foi a mais jovem aprendiz de Elza Medeiros, a Lala, herdeira dos ensinamentos de Maria Pastora, que por sua vez aprendera com as freiras do Convento Santa Tereza de Olinda. Assim, o fio da tradição atravessou séculos e chegou às mãos delicadas de uma menina que mal podia imaginar a dimensão de sua missão.

 

O primeiro grupo de artesãs, recorda ela, nasceu quase às escondidas: uma sala estreita, sem janelas abertas, onde trabalhavam das seis da manhã às seis da tarde. Tudo em silêncio, quase em segredo, como se guardassem um tesouro. “Não podíamos levar trabalho para casa, nem comentar o que fazíamos. Era um mistério que se desdobrava em cada ponto bordado”, lembra a mestra.

 

Quando Lala abandonou a cidade, o destino da renda renascença em Poção poderia ter murchado. Mas foi Odete quem assumiu a responsabilidade de manter viva a tradição. Abriu portas, iluminou caminhos, multiplicou alunas. Chegou a reunir 40 mulheres em um salão iluminado apenas por candeeiros, tecendo até altas horas da noite. O rosto, coberto de fuligem, se lavava em água com limão para que a linha não manchasse. Era sacrifício, mas também era poesia.

 

Em 1955, casada, mudou-se para Pesqueira, onde transformou sua arte em missão. Durante 25 anos foi professora da Prefeitura, formando gerações de mulheres que encontraram na renda não apenas sustento, mas dignidade e pertencimento. Ali, ajudou a mudar o perfil econômico do Agreste, transformando uma arte de convento em bandeira cultural e fonte de sobrevivência para milhares de famílias.

 

Mais de cinco mil mulheres aprenderam com ela. Cinco mil histórias bordadas, espalhadas pelo mundo em colchas, toalhas, vestidos e lembranças que carregam o selo da eternidade. Dona Odete não apenas ensinou a técnica, ensinou também a paciência, a resistência e o amor pelo detalhe.

 

Hoje, quase centenária, ela continua a sentar-se diante da janela, aproveitando a claridade do sol para bordar. À noite, com os olhos auxiliados pelos óculos, se debruça sobre os lacês. Diz que até sonha com os desenhos. A renascença é mais do que um ofício: é uma forma de respiração. “Vou continuar a trabalhar até quando Deus quiser”, afirma.

 

Foi pioneira no uso das cores em um trabalho que, até então, só conhecia o branco. Misturou tradição com ousadia, e fez da sua agulha uma revolução silenciosa. Muitas famílias se sustentaram graças a ela, muitas filhas puderam estudar, muitos lares foram erguidos com a renda renascença que brotava de suas aulas.

 

Pesqueira reconhece hoje o valor de uma mulher que, mesmo sem nunca buscar riqueza material, enriqueceu culturalmente todo um estado. “Enricar eu nunca enriquei não, mas trabalhar trabalhei muito”, disse certa vez, com o humor e a simplicidade de quem sabe o valor de sua entrega.

 

E como não reconhecer? Se a renda renascença é hoje símbolo de Pernambuco, se ela está exposta em feiras internacionais, se é destaque na Fenearte, é porque mãos como as de Dona Odete persistiram, incansáveis, na delicadeza. Ela é parte da Alameda dos Mestres, e, acima disso, é parte da alma de Pesqueira.

 

O título que receberá não é apenas uma homenagem oficial. É um ato de justiça histórica. É o reconhecimento de que sua vida costurou não apenas panos, mas também destinos, identidades e esperanças.

 

Na tarde de 17 de agosto, diante da Casa Anísio Galvão, o aplauso que se erguerá não será para uma artesã qualquer. Será para uma matriarca da arte, para a mestra que fez do silêncio do bordado um grito de cultura.

 

Que todos estejam presentes: rendeiras, jovens, artistas, políticos, curiosos. Todos têm algo a aprender com Dona Odete. Porque sua história é um convite a olhar a vida com mais delicadeza, a perceber que a beleza pode nascer da paciência, e que cada ponto bordado pode ser resistência contra o esquecimento.

 

Pesqueira se tornará palco de festa, mas também de memória. Cada fio bordado por Odete é um fio da própria cidade, que se entrelaça em sua identidade. Por isso, o título de Cidadã Pesqueirense é também o reconhecimento de que Pesqueira não seria a mesma sem ela.

 

Dona Odete nos mostra que a arte é uma forma de eternidade. Que a renda renascença não é apenas bordado, mas poesia em algodão, resistência em cada laçada, beleza que desafia o tempo.

 

E neste domingo, quando a cidade se vestir de festa, será como se todo o Agreste se curvasse em reverência diante de uma mulher que fez de sua vida uma obra de arte.

 

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odete (Flávio/flaviojjardim.com.br)

 

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odete (Flávio/flaviojjardim.com.br)

 

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