Política

Dona Odete recebe título de Cidadã Pesqueirense das mãos do Presidente Guila Araújo

O título de Cidadã Pesqueirense consagra uma vida dedicada à renda renascença e ao fortalecimento da identidade cultural do Agreste.

Por Flávio José Jardim atualizado há 9 meses
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Dona Odete recebe título de Cidadã Pesqueirense das mãos do Presidente Guila Araújo

O último domingo, 17 de agosto, entrou para a história de Pesqueira como uma tarde em que o passado e o presente se entrelaçaram com a força das linhas da renascença. Na solenidade marcada por emoção, beleza e memória, a Câmara de Vereadores concedeu à Mestra Odete Cavalcanti Maciel o título de Cidadã Pesqueirense. Uma homenagem carregada de simbolismo, proposta pelo presidente da Casa, Guila Araújo, e recebida com lágrimas, aplausos e reverência.

 

Nascida em Poção, em 1º de fevereiro de 1928, Dona Odete é uma testemunha viva de quase um século de tradição.

 

 Aprendeu cedo, ainda menina, aos pés da mestra Elza Medeiros, a Lala, que havia herdado os segredos da renda de Maria Pastora e, por sua vez, das freiras do Convento Santa Tereza de Olinda. Naquela época, a pequena Odete não poderia imaginar que o fio que unia aquelas mulheres atravessaria gerações para transformá-la em uma das guardiãs mais respeitadas dessa arte.

 

Aos 27 anos, já casada, mudou-se para Pesqueira. E ali sua missão encontrou raízes mais profundas. Durante 25 anos, atuou como professora da Prefeitura, transformando salas de aula em ateliês de sonhos. Mais de cinco mil mulheres passaram por suas mãos e aprenderam não apenas a técnica refinada da renda, mas também valores que se bordam com paciência, disciplina e amor pelo detalhe. Para muitas famílias, a renascença significou sustento, independência e dignidade.

 

A história de Dona Odete é também a história do fortalecimento econômico do Agreste. Ao ensinar a renda, ela não apenas preservou uma tradição, mas transformou-a em bandeira cultural e motor de sobrevivência para milhares. Cada toalha, cada colcha, cada peça produzida sob sua orientação carrega em si não só a beleza da arte, mas a marca silenciosa da resistência.

 

Visionária, foi pioneira ao introduzir cores em um trabalho que até então se limitava ao branco puro. Sua ousadia deu nova vida à renascença, ampliando horizontes e provando que tradição e inovação podem andar de mãos dadas. Graças a ela, Pesqueira se tornou referência mundial na arte do lacê, e Pernambuco passou a exibir com orgulho essa identidade cultural em feiras nacionais e internacionais.

 

Hoje, com quase cem anos de vida, Dona Odete ainda se debruça sobre os desenhos com a mesma devoção. À luz da janela durante o dia, e sob a ajuda dos óculos à noite, continua a bordar como quem respira. “Vou continuar a trabalhar até quando Deus quiser”, costuma repetir. Para ela, a renda não é apenas trabalho; é oração, é memória, é vida pulsando na ponta da agulha.

 

Seu legado ultrapassa o material. Dona Odete construiu um patrimônio imaterial, feito de saberes, gestos e histórias transmitidas de geração em geração. Tornou-se referência, inspiração e símbolo de perseverança. E mesmo com tamanha grandeza, guarda a simplicidade dos mestres verdadeiros: “Enricar eu nunca enriquei não, mas trabalhar trabalhei muito”, disse certa vez, com aquele sorriso que mistura humildade e grandeza.

 

O título de Cidadã Pesqueirense, portanto, não é apenas uma formalidade institucional. É uma reparação, um reconhecimento tardio, porém justo, de que aquela mulher bordou não só panos, mas destinos. Fez de linhas simples um grito silencioso que ecoa nas raízes da identidade pernambucana.

 

Na tarde de sua homenagem, diante da Casa Anísio Galvão, o aplauso que se ergueu não foi para uma simples artesã. Foi para uma matriarca da cultura, para uma mulher que fez do silêncio do bordado uma voz que atravessou fronteiras. E se a renascença é hoje símbolo de Pernambuco, é porque mãos como as dela resistiram e persistiram.

 

Pesqueira se curva diante de Dona Odete, reconhecendo que sua vida é mais do que arte: é história viva, é patrimônio humano, é eternidade tecida em renda. O título, agora emoldurado, não simboliza apenas uma honraria oficial. Ele sela a verdade maior: Dona Odete é e sempre será a mestra que borda a alma de Pesqueira com linhas eternas.

 

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odete (Flávio/flaviojjardim.com.br)

 

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