Política

GALBA MACÊDO | A República diante do espelho

O Supremo Tribunal Federal deveria ser esse lugar quase sagrado onde a República deposita a última palavra..."

Por Flávio José Jardim atualizado há 1 dia
Publicado em

GALBA MACÊDO | A República diante do espelho

 

galba
galba

- A República diante do espelho Há momentos em que uma nação deixa de ouvir o ruído das ruas e começa a escutar o silêncio das instituições. São momentos perigosos. Porque as instituições, quando adoecem, raramente fazem alarde. Não quebram portas, não levantam a voz. Apenas começam, pouco a pouco, a perder aquilo que talvez seja seu bem mais precioso: a confiança de quem as contempla. O Supremo Tribunal Federal deveria ser esse lugar quase sagrado onde a República deposita a última palavra quando todas as outras palavras já se confundiram. Ali, a toga deveria ser mais pesada que o poder. Mais pesada que a amizade. Mais pesada que a conveniência. Mais pesada, sobretudo, que o próprio homem que a veste. Mas eis que o Brasil atravessa um desses períodos em que as sombras se alongam sobre o mármore das instituições. Acusações, suspeitas, conflitos, interesses, versões e silêncios se misturam no grande teatro da política nacional, enquanto, do lado de fora, milhões de brasileiros tentam compreender o que acontece dentro de uma casa que deveria ser, por excelência, a casa da clareza. E talvez a maior tragédia não esteja no conflito. O conflito é próprio da democracia. A tragédia começa quando já não sabemos distinguir a Justiça da disputa pelo poder. Quando a toga parece falar a linguagem dos palanques. Quando decisões jurídicas são recebidas como vitórias ou derrotas partidárias. Quando o cidadão deixa de perguntar “o que diz a Constituição?” e passa a perguntar “de que lado está o ministro?”

galba
galba

Nesse instante, alguma coisa muito delicada começa a se romper. Porque a Justiça não pode ter lado. Pode ter interpretação... Pode ter divergência. Pode ter votos vencidos e vencedores. Mas não pode ter torcida. A Justiça, quando se torna torcida, deixa de ser Justiça e transforma-se em paixão — e toda paixão política, quando chega ao poder, tem dificuldade de reconhecer os próprios limites. Talvez seja por isso que o símbolo da Justiça seja uma mulher de olhos vendados. Não é porque ela não queira enxergar. É porque não deve enxergar aquilo que não importa. Não deve saber quem está diante dela. Não deve distinguir o poderoso do humilde, o amigo do adversário, o governante do cidadão anônimo. Deve enxergar apenas aquilo que os olhos humanos tantas vezes se recusam a ver: a verdade. Mas a verdade é uma criatura exigente... Não aceita atalhos; Não se curva a maiorias; Não se intimida diante de títulos; Não pergunta quem telefonou; Não pergunta quem conhece quem; Não pergunta de que partido veio a acusação. A verdade simplesmente espera. Espera as provas. Espera a investigação. Espera o tempo. E, sobretudo, espera coragem. Por isso, numa República madura, investigar não deveria ser uma afronta. Questionar não deveria ser uma heresia. Discordar não deveria ser confundido com destruir. As instituições democráticas não se fortalecem quando são blindadas contra perguntas. Fortalecem-se quando conseguem sobreviver a elas. É preciso, porém, cuidado com os dois abismos. De um lado, está a tentação de transformar toda suspeita em condenação.

 

Do outro, a tentação igualmente perigosa de transformar toda crítica em ataque à democracia. Entre esses dois extremos existe um caminho estreito, quase invisível, chamado responsabilidade. É por esse caminho que a República precisa caminhar. Porque nenhum ministro é a Constituição. Nenhum tribunal é a República. Nenhum homem, por mais brilhante que seja, pode ser confundido com a instituição que temporariamente representa. Homens passam. Cargos passam. Governos passam. Ministros passam. A Constituição fica. E talvez seja essa a grande lição que o momento nos oferece. A democracia não pode depender da santidade dos homens. Precisa depender da solidez das instituições. E instituições sólidas não são aquelas que jamais erram. São aquelas que sabem reconhecer o erro, investigar a própria conduta, corrigir seus caminhos e prestar contas à sociedade. O Supremo não precisa parecer infalível. Precisa ser confiável. Porque o poder pode exigir obediência. A Justiça, não. A Justiça precisa conquistar algo muito mais difícil: a consciência de que foi justa. E talvez seja por isso que o Brasil esteja olhando para o Supremo com uma mistura de esperança, inquietação e cansaço. Esperança de que a razão prevaleça. Inquietação diante das sombras. Cansaço de uma política que transformou quase tudo em guerra. No fundo, o cidadão comum não quer saber quem venceu a batalha entre grupos, ministros ou partidos. Quer saber se a lei continua sendo a mesma para todos. Quer poder olhar para uma decisão judicial sem precisar perguntar primeiro quem será beneficiado por ela.

Quer acreditar. E talvez não exista palavra mais bonita — nem mais frágil — na vida de uma República do que essa: acreditar! Uma democracia pode sobreviver a governos ruins, pode sobreviver a crises econômicas, pode sobreviver a eleições acirradas... Pode até sobreviver a seus próprios erros. O que ela não pode perder por muito tempo é a fé do cidadão na Justiça. Porque quando o povo deixa de acreditar que a Justiça é justa, começa a procurar justiça em outros lugares. E a história nos ensina que esses lugares costumam ser perigosos. Por isso, talvez o Supremo esteja diante de uma oportunidade que vai muito além da crise presente. A oportunidade de olhar para si mesmo. Sem arrogância. Sem medo. Sem partidos. Sem aplausos. Como quem se coloca diante de um espelho depois de uma longa noite e pergunta, em silêncio: “Ainda somos aquilo que a República espera de nós?” Que a resposta não venha das palavras. Que venha dos atos. Porque, no fim, a História não guarda para sempre os discursos dos poderosos. Guarda aquilo que fizeram quando o poder lhes ofereceu a escolha entre a conveniência e a verdade. E a verdade, quando finalmente chega, não veste toga, não usa medalhas, não ocupa cadeiras. Apenas entra pela porta. E fica. 03/09/2026. Galba Macêdo, Pesqueirense, Professora, Acadêmica da Academia Pesqueirense de Letras e Artes (APLA)

Você precisa estar logado para comentar. Por favor, faça login ou crie a sua conta.

Ainda não há comentários para esta notícia. Seja o primeiro a comentar!

Veja também