Política

Josessandro Andrade: a palavra que nasceu no Sertão e ganhou o mundo

Poeta, escritor, compositor e artista da palavra de Sertânia transforma a cultura do Sertão do Moxotó-Ipanema em poesia, resistência e identidade — e leva sua produção a palcos literários no Brasil e no exterior

Por Flávio José Jardim atualizado há 14 horas
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Josessandro Andrade: a palavra que nasceu no Sertão e ganhou o mundo
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Há artistas que escrevem sobre o lugar onde vivem. Outros fazem da própria terra uma matéria-prima permanente de criação. Josessandro Andrade pertence a essa segunda categoria. Natural de Sertânia, no coração do Sertão do Moxotó-Ipanema, ele construiu uma trajetória marcada pela poesia, pela literatura, pela música, pelo teatro e pela defesa incansável da cultura popular.

Autodefinido como “um artista da palavra, um maluco, um sonhador, um brincante”, Josessandro já publicou três livros — Cheiro de Mike Chabeira, A Roda do Escárnio e Cor das Hienas. Sua produção ultrapassou as fronteiras de Pernambuco e chegou a diferentes espaços internacionais. A Roda do Escárnio, por exemplo, foi premiado pelo Swiss Excellence Literature Network, durante o Salão Internacional do Livro de Genebra, na Suíça.

A trajetória ganhou ainda mais projeção quando Josessandro se tornou um dos 40 finalistas da segunda edição do Prêmio Brasiliê, promovido pela Editora Articule, de São Paulo. O concurso reuniu 135 poetas de 22 estados brasileiros, além do Distrito Federal e de Portugal. O sertaniense foi o único representante de Pernambuco na final. A obra selecionada foi “O Amor é um ato revolucionário”, poema que transforma o afeto em instrumento de resistência e reflexão social.

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A criação de Josessandro não se limita ao papel. Em seu trabalho, palavra e imagem dialogam. O poema finalista ganhou uma apresentação gráfica que utiliza cores como elementos simbólicos: o amarelo associado à consciência crítica, o rosa ao afeto, o verde ao cooperativismo e o laranja à ideia de paz ancestral. A peça foi desenvolvida pelo designer Silas Freitas e permanece exposta no “Ateliê Artista da Palavra”, na residência do poeta.

Mas a internacionalização de sua obra não parou na Suíça. Josessandro também participou do Salão Internacional de Poesia de Marrakech, no Marrocos, além de integrar antologias na Alemanha, Romênia, Portugal e Argentina. Em 2025, participou ainda da Exposição Espa- Romênia. É também autor teatral, compositor e cordelista, além de ter dirigido o filme Sertão Fértil, dedicado aos potenciais e aos desafios da região sertaneja.

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Em entrevista concedida ao jornalista Flávio J Jardim, editor da Revista Poder, editor do Site Notícia Verdade e editor da Revista Sertânia, Josessandro falou sobre sua trajetória, suas obras, a cultura popular e o desafio de fazer com que o Sertão reconheça a força dos próprios artistas.

 

ouça abaixo a entrevista
ouça abaixo a entrevista (Flávio/flaviojjardim.com.br)

 

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Para ele, o Sertão do Moxotó-Ipanema possui uma riqueza cultural extraordinária, mas ainda não tem plena consciência da própria força. O poeta compara a região a um boi que não sabe

o tamanho da força que possui. Na sua avaliação, muitas vezes a cultura nordestina encontra maior reconhecimento fora de suas próprias fronteiras do que dentro delas.

Josessandro, entretanto, reconhece que Sertânia tem valorizado seu trabalho. Sua produção está presente no Parque Memorial do Padre Cristiano, no Armazém Central das Artes e na Casa do Ancião, onde há uma placa de bronze com um cordel de sua autoria. Também mantém atuação na Rádio Sertânia FM, onde participa de iniciativas voltadas à cultura.

A preocupação do poeta, porém, vai além da própria carreira. Seu pensamento, afirma, é coletivo. Ele defende que os artistas também precisam compreender o valor de suas próprias obras e investir na qualidade da produção. Para Josessandro, mecanismos de incentivo cultural, como editais, representam oportunidades importantes, mas precisam ser acompanhados de profissionalização, planejamento e compromisso com a própria arte.

É nesse espírito que surge a Casa dos Poetas, espaço dedicado à preservação da memória e da produção literária do Sertão do Moxotó-Ipanema. O acervo reúne autores de Sertânia e também de municípios como Pesqueira, Alagoinha, Arcoverde e Custódia. O local promove rodas de poesia, cafés literários, cantorias de viola e atividades destinadas especialmente às escolas.

Ao lado está a Casa da Cultura, que também funciona como espaço de preservação da memória histórica e artística de Sertânia. Parte do antigo acervo do Museu Histórico e Artístico de Sertânia, criado por Zé Ramos de Almeida, foi recuperada e incorporada ao espaço. Fotografias, objetos históricos, literatura, música, artes plásticas, artesanato e outras manifestações culturais encontram ali um ponto de preservação e divulgação.

Josessandro também lembra iniciativas que marcaram a vida cultural sertaniense, como o Festival Literário do Sertão, vencedor do Prêmio Nacional Viva a Leitura em 2009, e a Semana Estudantil de Artes de Sertânia, que reunia bandas de pífano, aboiadores, cantadores, música e teatro. Embora algumas dessas iniciativas tenham sido interrompidas, a Associação Cultural de Sertânia mantém o Cantares da Terra, feira mensal que reúne diferentes linguagens artísticas.

Outro ponto defendido pelo poeta é a união cultural entre os municípios do Moxotó-Ipanema. Ele pretende ampliar a articulação com cidades como Buíque, Custódia, Pesqueira e Arcoverde, criando uma rede capaz de aproximar artistas e fortalecer a produção regional.

Para Josessandro, a distância entre os municípios acaba enfraquecendo uma região que possui um patrimônio cultural capaz de se transformar em verdadeira potência.

Na conversa, ele também destacou artistas de Pesqueira, entre eles Diozman, Genival e Jaqueline Torres. O poeta descreveu Diozman como um grande representante da literatura de cordel e um “guerrilheiro cultural”; Genival, como dono de rara sensibilidade poética; e Jaqueline Torres, como uma artista de imagética fértil e consistente. Para Josessandro, Pesqueira, a “Atenas do Sertão”, possui uma produção cultural de grande relevância.

Quando olha para o futuro, o poeta defende uma cultura popular cada vez mais profissionalizada e capaz de acessar as políticas públicas. Ele cita projetos ligados a manifestações tradicionais, como a banda de pífanos de Umburanas, cuja história atravessa cerca de 120 anos, e a Cavalhada de Alagoas, com quase um século de existência. Para ele, artistas, produtores e coletivos precisam se capacitar para disputar editais e conquistar espaços.

A história de Josessandro Andrade é, portanto, maior que a trajetória individual de um poeta. É a história de um sertaniense que encontrou na palavra uma forma de enxergar o mundo, questioná-lo e, ao mesmo tempo, afirmar a identidade de sua gente. Sua literatura parte do Sertão, dialoga com suas dores, celebra suas potencialidades e atravessa fronteiras.

Entre livros, poemas, cordéis, música, teatro, cinema, acervos e projetos culturais, Josessandro constrói uma obra que tem como ponto de partida Sertânia, mas não reconhece fronteiras para a imaginação. Sua voz é sertaneja, sua linguagem é universal e sua principal bandeira continua sendo a mesma: fazer com que o Sertão conheça, valorize e reconheça a força extraordinária da própria cultura.

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