Nhe’ẽ Porã: Memória e Transformação. Cacique Marcos é destaque em novo cargo e em vídeo em exposição de São Paulo
“Língua é pensamento, língua é espírito, língua é uma forma de ver o mundo e apreciar a vida”. Exposição sobre famílias linguísticas dos povos indígenas no Brasil tem vídeo que destaca Cacique Xukuru
Por Flávio José Jardim
atualizado há 3 anos
Publicado em



ESTAÇÃO DA LUZ - SÃO PAULO (SP) – O Cacique do Povo Xukuru do Ororubá, Cacique Marcos, vive um excelente fase em sua vida profissional e de luta.
Assumiu como Assessor Especial do Ministério dos Povos Indígenas, a convite do Presidente Lula e da Ministra Sônia Guajajara e foi destaque em toda imprensa nacional. (Veja matéria lá abaixo sobre o novo cargo do Cacique Marcos).
“Enquanto indígena, enquanto Cacique do Povo Xukuru do Ororubá, recebi uma nova missão que exige muita responsabilidade e enche o meu coração de alegria e orgulho. Estou atuando como Assessor Especial no Ministério dos Povos Indígenas para lutar, ao lado dos meus irmãos e irmãs, por um Brasil que busque reparar os mais de 500 anos de violência, desrespeito e abandono que o nosso povo sofreu”.
“Vamos trabalhar imensamente para reconstruir o Brasil, acabando com o garimpo ilegal, o desmatamento e, principalmente, valorizando o nosso povo. Quero dizer que, em nome da minha trajetória, da história do Cacique Xikão e do meu comprometimento com as causas sociais, não irei decepcionar ninguém. Sigamos juntos, guerreiras e guerreiros”, destacou o Cacique.
Mas, não é só isso. A convite, o editor Flávio J Jardim e a professora Ana Paula Lima, visitaram o Museu da Língua Portuguesas, na Estação Luz, no centro de São Paulo.
Lá, está sendo realizada a exposição Nhe’ẽ Porã: Memória e Transformação, que vai até o dia 23 de abril de 2023. No terceiro andar tem vídeos sobre a luta dos povos indígenas do Brasil. Em um telão, está sendo exibida a dança do toré e uma série de manifestações em defesa do luta indígena. Nesse vídeo, o Cacique Marcos, de Pesqueira, é destaque e está sendo visto por centenas de pessoas que passaram diariamente pela mostra.


LÍNGUAS INDÍGENAS
Nhe’ẽ Porã: Memória e Transformação propõe ao público uma imersão em uma floresta cujas árvores representam dezenas de famílias linguísticas às quais pertencem as línguas faladas hoje pelos povos indígenas no Brasil – cada uma veicula formas diversas de expressar e compreender a existência humana.
A exposição, que conta com a articulação e o patrocínio máster do Instituto Cultural Vale, busca mostrar outros pontos de vista sobre os territórios materiais e imateriais, histórias, memórias e identidades desses povos, trazendo à tona suas trajetórias de luta e resistência, assim como os cantos e encantos de suas culturas milenares.
Contando com a participação de cerca de 50 profissionais indígenas – entre cineastas, pesquisadores, influenciadores digitais e artistas visuais como Paulo Desana, Denilson Baniwa e Jaider Esbell -, a mostra tem curadoria de Daiara Tukano, artista, ativista, educadora e comunicadora indígena; consultoria especial de Luciana Storto, linguista especialista no estudo de línguas indígenas; e coordenação de pesquisa e assistência curatorial da antropóloga Majoí Gongora, em diálogo com a curadora especial do Museu da Língua Portuguesa, Isa Grinspum Ferraz.
A reportagem da Revista Poder e do Site Flávio J jardim, além de Ana Paula Lima, que é professora de português e especialista em linguagem, estiveram na exposição para conhecer as línguas faladas pelos povos indígenas e as transformações decorrentes da invasão colonial. A mostra é também um chamado para experimentar outras concepções de mundo, e começa no próprio nome da exposição que vem da língua Guarani Mbya, composto a partir de duas palavras: Nhe’ẽ significa espírito, sopro, vida, palavra, fala; e porã quer dizer belo, bom. Juntos, os dois vocábulos significam “belas palavras”, “boas palavras” – ou seja, palavras sagradas que dão vida à experiência humana nesta terra.
“Nhe’ẽ Porã é uma exposição necessária e urgente. Foi com essa convicção que levamos essa ideia para o Museu da Língua Portuguesa. Queríamos também contribuir com a UNESCO para chamar a atenção de toda sociedade para a Década Internacional das Línguas Indígenas. Essa exposição tem a função de nos lembrar que falar de povos indígenas é falar de diversidade. A variedade e a riqueza das línguas nela representadas explicitam isso de forma inquestionável. Os diferentes povos indígenas têm muito a nos ensinar sobre pluralidade social, diferentes formas de interação indivíduo-natureza e outros modos possíveis de constituição de sociedade e de vida no planeta”, afirma Maria Luiza Paiva, Vice-Presidente Executiva de Sustentabilidade da Vale.
“Preservar as línguas indígenas em toda a sua diversidade é, também, preservar a nossa cultura enquanto brasileiros. No Instituto Cultural Vale acreditamos que, mais que patrocinar, é importante articular ações culturais que levem toda a riqueza de saberes e fazeres do Brasil às pessoas. Esperamos que a Nhe’ẽ Porã nos leve a conhecer mais sobre nossos povos originários, e que nos leve a refletir, enquanto sociedade, sobre suas formas de criar, viver e conviver”, diz Hugo Barreto, Diretor-Presidente do Instituto Cultural Vale.
“Para a UNESCO, como agência líder das Nações Unidas na condução da Década Internacional das Línguas Indígenas, esta iniciativa é fundamental para que todos sejam mobilizados quanto à importância da preservação da diversidade linguística indígena, em um contexto internacional com tantos desafios. O lançamento da Década no Brasil, durante a abertura desta exposição, demonstra a força de uma ação conjunta, no âmbito da cultura e da educação, pelo reconhecimento e pela valorização do legado dos povos originários, bem como para a garantia de seus direitos culturais. A iniciativa contribui para a promoção da diversidade cultural, para o diálogo intercultural e para o desenvolvimento sustentável, de maneira que as línguas indígenas, bem como outras expressões simbólicas e materiais desses povos, possam ser preservadas e tratadas como bem público global indispensável para a humanidade”, destaca Marlova Jovchelovitch Noleto, Diretora e Representante da UNESCO no Brasil.
“Estamos muito emocionados e esperamos que seja a primeira de muitas exposições sobre línguas indígenas do Museu da Língua Portuguesa, com curadoria indígena. Nossa exposição principal já fala bastante sobre a presença indígena na língua portuguesa, na perspectiva do patrimônio imaterial que ajuda a moldar a nossa identidade como brasileiros. A exposição Nhe’ẽ Porã aprofunda essa relação”, diz a diretora executiva do IDBrasil, organização social de cultura responsável pela gestão do Museu da Língua Portuguesa, Renata Motta.
“A nova exposição temporária do Museu da Língua Portuguesa evidencia a imensa contribuição dos povos originários à construção do patrimônio cultural comum da língua portuguesa por meio das diversas línguas indígenas, que revelam modos de ser, estar e pensar fundamentais para a compreensão do Brasil do presente e para a invenção do Brasil do futuro”, explica Sérgio Sá Leitão, Secretário de Cultura e Economia Criativa do Estado de São Paulo. “De um modo criativo e lúdico, ela também reforça o papel do Museu da Língua Portuguesa como um espaço de aprendizagem e de valorização da diversidade cultural do Brasil.”













A EXPOSIÇÃO
A exposição tem uma lógica circular, não importando onde é o começo ou o fim. Atravessando todo o espaço, o visitante encontrará um rio de palavras grafadas em diversas línguas indígenas, criando um fluxo que conectará as salas em um ciclo contínuo. Num dos possíveis pontos de partida da mostra, o visitante se depara com uma floresta de línguas indígenas representando a grande diversidade existente hoje no Brasil. Nessa floresta, o público poderá conhecer a sonoridade de várias delas.
A sala ao lado, “Língua é Memória”, traz à tona históricos de contato, violência e conflito decorrentes da invasão dos territórios indígenas desde o século 16 até a contemporaneidade, problematizando o processo colonial que se autodeclara “civilizatório”. Neste ambiente, outras histórias serão contadas por meio de objetos arqueológicos, obras de artistas indígenas, registros documentais, mapas e conteúdos audiovisuais e multimídia. As transformações das línguas indígenas são tratadas em conteúdos que exploram a resiliência, a riqueza e a multiplicidade das formas de expressão dos povos indígenas. “Colocamos em debate o fato de que somos descritos como povos ágrafos, sem escrita, mas nossas pinturas também são escritas – só que não alfabéticas”, explica Daiara Tukano.
O ambiente apresenta também outras formas de comunicação entre os povos indígenas, como o monumental trocano – um tambor feito a partir de uma tora única e cedido pelo Museu de Arqueologia e Etnologia da USP -, que Daiara Tukano descreve como “o WhatsApp de antigamente”. Este instrumento pertence aos povos do Alto Rio Negro, e na exposição será acompanhado por outros objetos cerimoniais originários da mesma região, onde nasceu o pai da curadora. Devido às proibições de práticas rituais e à violência decorrentes da presença missionária salesiana no Alto Rio Negro, as línguas e culturas desses povos foram afetadas enormemente.
Em um jogo de contrapontos, esta sala exibe também uma palmatória utilizada em escolas religiosas para castigar crianças indígenas que insistissem em falar suas línguas em vez do português. A peça é feita de Pau-Brasil, árvore considerada símbolo nacional, e que dá nome ao País.
Na sala “Palavra tem poder”, o público conhecerá a pluralidade das ações e criações indígenas contemporâneas a partir de seu protagonismo em diferentes espaços da sociedade, a exemplo de sua atuação no ensino, na pesquisa e nas linguagens artísticas. Os conteúdos estão distribuídos em nichos temáticos, entre eles destacamos os filmes do “Ninho do Japó”, sala de projeção com exibição de produções de autoria indígena.
Ao acompanhar o percurso do rio, os visitantes alcançam um quarto ambiente, noturno, uma atmosfera onírica introspectiva que permite o contato com a força presente nos cantos de mestres e mestras das belas palavras. O rio que percorria o chão da exposição, agora sobe a parede como uma grande cobra até se transformar em nuvens de palavras – preparando a chuva que voltará a correr sobre o próprio rio, dando continuidade ao ciclo.
#ministerio #indigena #caciquemarcos #assessorespecial #brasil #historia
Você precisa estar logado para comentar. Por favor, faça login ou crie a sua conta.
Ainda não há comentários para esta notícia. Seja o primeiro a comentar!