Pesqueira surpreende no Festival de Gramado e leva a força do povo Xukuru ao cinema nacional
“Empeleitada” conquista Menção Honrosa na 54ª edição do Festival de Cinema de Gramado e transforma presença indígena em um dos grandes momentos da participação pernambucana no evento
Por Flávio José Jardim
atualizado há 6 horas
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Pesqueira voltou os olhos para a Serra Gaúcha e terminou a 54ª edição do Festival de Cinema de Gramado com um motivo especial para comemorar. O documentário “Empeleitada”, dedicado à história, à trajetória e à resistência do povo Xukuru, conquistou Menção Honrosa na categoria Longa-Metragem Documental, levando para um dos mais importantes palcos do cinema brasileiro uma narrativa construída a partir do próprio território indígena.
A conquista foi anunciada durante a cerimônia de encerramento do festival, realizada neste sábado (22), depois de uma semana de exibições, encontros e celebração do audiovisual brasileiro. O tradicional palco dos troféus Kikito recebeu uma produção que nasceu longe dos grandes centros cinematográficos, mas que chegou a Gramado carregando uma história de ancestralidade, identidade e pertencimento.
Mais do que uma premiação, a Menção Honrosa representa o reconhecimento da potência de uma produção independente que escolheu contar uma história por dentro, a partir das experiências e da memória de seus próprios protagonistas. “Empeleitada” coloca o povo Xukuru não apenas como personagem, mas como sujeito de sua própria narrativa, revelando ao público uma perspectiva marcada pela cultura, pela resistência e pela relação profunda com o território.
A presença do filme também ganhou força no tradicional tapete vermelho de Gramado. Integrantes indígenas que fazem parte da direção da obra participaram da programação e representaram o povo Xukuru em um dos ambientes mais simbólicos do cinema nacional. Foi um momento em que Pesqueira, Pernambuco e a identidade indígena cruzaram os holofotes com a atmosfera de um dos maiores festivais cinematográficos do país.
O resultado ganha ainda mais significado porque “Empeleitada” foi realizado de forma independente, com recursos limitados, mas sustentado por uma matéria-prima que nenhum orçamento consegue comprar: memória, identidade, ancestralidade e a disposição de transformar a própria história em linguagem cinematográfica. Chegar a Gramado, por si só, já representava uma vitória. Voltar de lá com uma Menção Honrosa amplia ainda mais o alcance dessa caminhada.
A Ororubá Filmes, responsável pela produção, celebrou o reconhecimento sem esconder a emoção. Em uma mensagem publicada após a premiação, a equipe destacou que o Kikito não veio desta vez, mas que a produção deixou Gramado vitoriosa. A avaliação resume o espírito de uma trajetória que ultrapassa a disputa por troféus e representa a ocupação de espaços historicamente distantes das comunidades indígenas.
A conquista também evidencia a importância da parceria com a Símio Filmes, que participou da realização do projeto e contribuiu para que a obra alcançasse novas dimensões. O reconhecimento em Gramado é, portanto, resultado de uma construção coletiva envolvendo
realizadores, artistas, parceiros, apoiadores e, principalmente, uma comunidade que decidiu registrar sua própria caminhada pelas lentes do cinema.
Nas redes sociais, a repercussão foi imediata. Integrantes ligados à produção compartilharam a emoção de conquistar uma Menção Honrosa em um dos mais tradicionais festivais do Brasil. A celebração revelou o tamanho simbólico do feito e a percepção de que aquela presença em Gramado não se resume a uma noite de premiação: representa uma nova porta aberta para o cinema indígena produzido a partir dos próprios territórios.
O cineasta Kleber Xukuru também expressou sua surpresa e alegria diante do resultado. A conquista, segundo a repercussão compartilhada pelos envolvidos, é fruto de uma caminhada marcada por luta, força e resistência. É justamente essa dimensão que transforma a premiação em algo maior do que uma distinção cinematográfica: ela reconhece uma forma de contar histórias que durante muito tempo encontrou pouco espaço nas grandes telas.
Para Pesqueira, o momento tem um peso especial. A cidade, conhecida nacionalmente por sua riqueza cultural e pela presença histórica do povo Xukuru, agora também ganha projeção por meio de uma produção cinematográfica que atravessou as fronteiras de Pernambuco. A Serra do Ororubá, suas memórias e seus símbolos chegaram a Gramado e encontraram espaço diante de críticos, realizadores, artistas e público de todo o país.
A Menção Honrosa também reforça uma tendência que ganha cada vez mais espaço no audiovisual brasileiro: a valorização de histórias contadas por quem vive as experiências retratadas. “Empeleitada” mostra que cinema indígena não precisa ser contado por terceiros para alcançar grandes festivais. Pode nascer no território, carregar a voz da comunidade e, ainda assim — ou justamente por isso — alcançar as maiores telas do país.
No fim, Pesqueira não voltou de Gramado apenas com uma distinção. Voltou com uma mensagem. A câmera permanece ligada, a memória continua sendo registrada e a ancestralidade segue como fonte de inspiração. “Empeleitada” pode não ter levado o Kikito principal, mas conquistou algo que talvez seja ainda mais duradouro: o direito de ocupar um grande palco nacional contando, com sua própria voz, uma história que pertence ao povo Xukuru.
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