RENATA JOYCE | A incrível história da garota pesqueirense que possui a mania de ter fé na vida.
Negra, pobre, Mulher e Vencedora. De usuária dos equipamentos sociais de Pesqueira à assistente. Renatinha hoje trabalha no NUCA e é um belo exemplo de ser “instrumento de transformação social”. Seu sonho? Fortalecer ainda mais os direitos e deveres das crianças e dos adolescentes de Pesqueira.
Por Flávio José Jardim
atualizado há 3 anos
Publicado em



PESQUEIRA (PE) – Um dia após a data em que se comemora mundialmente a Conscientização sobre o Autismo, a Secretaria de Assistência Social e Cidadania reforçou hoje (03 de abril) o seu compromisso na valorização e respeito as pessoas com deficiência.
A SASC realizou, numa parceria com o NUCA (Núcleo de Cidadania dos Adolescentes), a emissão de Carteiras do Autista. Além disso, foram distribuídas cartilhas de conscientização sobre o autismo, numa linguagem com literatura de cordel, na Praça Dom José Lopes.
A cartilha (foto-reprodução abaixo) foi confeccionada pela ativista social Renata Joyce, que é símbolo da vitória de uma mulher negra, pobre e fora dos padrões estéticos.

RENATA JOYCE, A FORTALEZA
Renata Joyce é exemplo de superação. Atualmente é monitora de um programa social que um dia foi usuária.
Há dois anos, em uma entrevista ao assumir o cargo disse: “Todo amor, todo carinho e apoio que recebi, vou repassar para as crianças atendidas pelos programas sociais. Quero dar meu melhor a cada um”.
A história de Renata Joyce Santos de Lima é impressionante. Aos 24 anos, conta passou a infância sendo atendida por programas sociais em Pesqueira, município do Agreste de Pernambuco.
Seu corpo franzino não demonstra a fortaleza de garra que existe nela. Tem senso de superação enorme e opinião formada. Critica quem reclama da vida.
A pesqueirense Renata Joyce não teve luxo, conforto. Com sua vontade de vencer lutou, aprendeu a dançar, tocar instrumentos e agora é monitora de um programa social que ela mesma foi atendida durante toda sua infância.







VIVER E NÃO TER A VERGONHA DE SER FELIZ
Mas, para entender melhor a vida e a trajetória de Renata Joyce, temos que voltar um pouco a linha do tempo, sem cortes.
O ano era 1999. A bebê Renata nascia prematura de 7 meses no Hospital Dr. Lídio Paraíba, em Pesqueira. Devido às condições em que nasceu, muito pouco peso, passou mais de 9 meses entre incubadora, UTI e enfermaria do hospital.
“Na época os médicos perguntaram à minha mãe se ela preferia que a filha morresse? Porque mãe estava muito agoniada para me levar pra casa, já não aguentava mais a rotina do hospital”, conta Renata.
A bebê permaneceu no hospital até atingir o peso ideal para ser levada para casa. Mas, pouco tempo depois, teve asma e pneumonia. “Eu passava mais tempo no hospital do que em casa e meus pais tinham que trabalhar de bicos ou pegando frete”, lembra Renata.
Em determinado tempo, a mãe precisou fazer um tratamento contra a doença de Chagas, no Recife. Renata (já mais grandinha) e a irmã passaram um tempo apenas com o pai. Num dia, elas tiveram que ficar em casa só, porque o pai precisou fazer um trabalho de pedreiro na região.
Quando o pai voltou viu que uma das paredes do casebre, no bairro Centenário, caiu por cima de Renata. “Ele conta que me chamava, me chamava e eu não respondia. Achou que estava morta. Desesperado, retirou as metralhas e meu achou. Novamente fui para o hospital”, narra Renata.
Com a mãe fazendo esse tratamento, Renata e a irmã ou ficavam com o pai ou com a “avó de coração”, uma senhora que via a triste situação e ajudava.
Renata conta que moravam num casebre de apenas um vão, atravessando sérias dificuldades. “Como meu pai nunca teve um emprego fixo, algumas pessoas ajudavam e nós nos mantínhamos como podíamos, com o mínimo para sobreviver”, lembra Renata.
“Foi uma vida extremamente difícil. Entre meus cinco a sete anos, conheci o professor Júnior do Cavaco e ele me convidou para ir aprender música em um projeto social (Sementes do Amanhã) onde ela dava aulas”.
Através de Júnior do Cavaco, Renata conseguiu uma vaga no Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos, que naquela época chamava-se PETI e Pro-Jovem.
E O SOL NASCE PARA TODOS...
Renata conta que quando foi para esses programas sociais sua vida começou a mudar. “Conheci novas pessoas, fiz novas amizades, iniciei nas aulas de dança, a me dedicar a música. O PETI e o Pro-Jovem sempre foram minha segunda família”, explica.
Inclusa no programa social, Renata diz que foi muito bem tratada e foi pela primeira vez que ela se sentiu cuidada. “Eles se preocupavam comigo e com a minha família”, destaca.
Daí, um mundo novo foi apresentado à Renata. Ela aprendeu música, dança, teatro, artesanato, capoeira, tae-kwon-do e passou a ver a vida de forma diferente.
No grupo, Renata diz que viveu momentos muito felizes, como viagens ao Recife para o zoológico e o Jardim Botânico. “Aprendi muita coisa e foi quando comecei verdadeiramente a me integrar”, explica.
Meses depois que terminou seu no PETI, Renata e a família foram contempladas com uma casa no Residencial Baixa Grande, onde ela mora até hoje. Devido à proximidade, ela começou a visitar o Movimento Fraterno de Ação Comunitária (MOFAC), em Pedra Redonda, mas logo ficou maior de idade e não poderia mais participar, “mas a coordenadora, vendo a situação ainda difícil, autorizou que eu ficasse”.
Depois desse período, ela voltou a CRAS (agora Serviço de Convivência), que fica por trás da Escola Marcelino Xavier, em Pedra Redonda. Participou ainda do NUCA, um projeto social implantado em Pesqueira. Renata era integramente do MOFAC e teve participação do NUCA.
UMA PORTA SE ABRIU
Já em janeiro de 2021, o professor Junior do Cavaco, muito importante na vida de Renata, disse que tentaria ajudar e falaria com pessoas para tentar conseguir um emprego para ela. O professor Dimas também sempre viu o potencial de Renata.
“Eu sempre sonhei ser professora, monitora, oficineira, para justamente ajudar as crianças de Pesqueira. Os programas sociais foram muito importantes para mim e quero retribuir todo o amor e carinho que recebi”, diz Renata, acrescentando que “até hoje ama participar de grupos sociais”.

SAMUEL DINHO
É aí onde entra o atual Secretário de Assistência Social e Cidadania de Pesqueira, Samuel Dinho. Ele já sabia da trajetória, do talento de Renata e que ela “seria uma pessoa mais que indicada para continuar um trabalho feito com amor e dedicação”. Afinal, disse Samuel Dinho, ela já esteve do outro lado, já foi assistida pelos programas sociais.
Foi uma ideia genial. Samuel, Junior do Cavaco, Claudivan e Dimas foram até a casa de Renata e Samuel Dinho a convidou para integrar o quadro de monitores e oficineiros de um programa social. Ela, emocionada, aceitou.
“Foi uma oportunidade única. Estou tendo a oportunidade de trabalhar nos projetos da nossa cidade e o que eu aprendi vou repassar com todo meu amor e carinho para as crianças que vivem na mesma situação em que eu vivi. É uma forma de retribuir todo a atenção e amor que recebi”, frisa Renata.
Infelizmente, a mãe de Renata morreu há dois anos. Mas, mesmo adoentada e com sérios problemas psicológicos, o sonho da mãe era ver Renata com um emprego e fazendo o que mais gosta: trabalhar com crianças em situação de vulnerabilidade e ajudar ao próximo, como Renata foi auxiliada.
“Estou passando para as crianças tudo aquilo que aprendi todos esses anos, como todo o amor, todo carinho, todo apoio que recebi estou repassando em dobro. Estou dando o meu melhor”.
SONHO E OPORTUNIDADE
Em entrevista ao Site Flávio J Jardim – Notícia Verdade e a Revista Poder, Renata Joyce disse que o Secretário de Assistência Social e Cidadania da Prefeitura de Pesqueira, Samuel Dinho, sempre acreditou que o protagonismo social deve ser dado às crianças, jovens e adolescentes atendidos pelos programas de apoio.
O desânimo, a falta de oportunidades, nas palavras de Dinho, atrapalham e dificultam a conquista dos objetivos de nossas crianças. “Mas a forma como encaramos essas experiências faz grande diferença para não deixarmos os jovens, crianças e adolescentes se abaterem, mas sim continuar perseguindo os seus sonhos”, ressalta.
Muitas pessoas só precisam de um incentivo. Elas, com atitude, podem mostrar que são exemplos de superação. E Renata Joyce segue em passos firmes em busca de conquistar mais um sonho, que é fortalecer e fazer valer os direitos das crianças e adolescentes em situação de risco.
A história de Renata Joyce prova que não se precisa ir muito longe para encontrar alguém que fez da superação o elemento fundamental de sua vida.
Em Pesqueira existem muitos exemplos. A participação de Renata Joyce em outros planos é perfeitamente possível e pode significar dar protagonismo e ganho social para as crianças, aos jovens e aos adolescentes.
Contar com Renata Joyce em entidades e conselhos pode ser um exemplo de avançar ainda mais, com ações para todos, sem distinção. “Meu sonho é ajudar mais e mais pessoas que como eu sofreram numa infância atribulada”, finaliza Renata Joyce.


Você precisa estar logado para comentar. Por favor, faça login ou crie a sua conta.
Ainda não há comentários para esta notícia. Seja o primeiro a comentar!