REPORTAGEM ESPECIAL | 1 500 DIAS DE SILÊNCIO: O MISTÉRIO QUE CALOU A VOZ DE WELLINGTON GUENES
Quatro anos e um mês depois, o assassinato do Secretário de Articulação Institucional de Pesqueira permanece sem solução — e a cidade ainda clama por justiça
Por Flávio José Jardim
atualizado há 1 ano
Publicado em
PESQUEIRA (PE) - Na noite de 7 de junho de 2021, uma sombra caiu sobre o coração político de Pesqueira. Em frente à sede da Prefeitura Municipal, sob o céu calado e as luzes amareladas da Praça da Rosa, o Secretário de Articulação Institucional, Wellington Guenes, foi abatido a sangue frio com dois tiros de espingarda calibre 12. Um crime brutal, cinematográfico em sua frieza, executado em plena via pública — e que, 1500 dias depois, ainda ecoa sem resposta.
Era início da noite, entre 18h30 e 19h. A cidade celebrava discretamente o aniversário do prefeito interino Bal de Mimoso. A Prefeitura estava em clima ameno, de confraternização. Guenes, como de costume, passou para dar um abraço, conversar com aliados e resolver pendências administrativas. Ninguém imaginava que aquela seria sua última noite.
Ao sair do prédio, já com a chave do carro na mão, Wellington foi surpreendido por um homem armado escondido entre dois veículos estacionados. Um disparo. Depois outro. Ambos no rosto. A brutalidade não dava margem a interpretações: era execução. Rapidamente, o autor desapareceu, como se conhecesse cada sombra da cidade. A cena do crime se formava: sangue na calçada, gritos, correria, e uma pergunta suspensa no ar — quem mandou matar Wellington Guenes?
As primeiras horas após o crime foram intensas. A Polícia Civil de Pernambuco agiu rapidamente, ouvindo testemunhas, recolhendo imagens de segurança e realizando perícia técnica no local. O delegado Bruno Gabriel, à frente da investigação, descreveu o crime com precisão e frieza: “Foi surpreendido por um indivíduo de arma em punho, aparentemente uma espingarda calibre 12, que efetuou dois disparos no rosto.” E completou: o caso seria tratado sob sigilo.
O corpo de Wellington Guenes foi velado no Centro de Artesanato de Pesqueira, em meio a lágrimas, homenagens e revolta. O luto oficial foi decretado por três dias, mas o luto moral da cidade ainda não terminou. Ali, naquela praça, se iniciava não só o cortejo de um corpo, mas a longa caminhada de uma pergunta sem resposta: por quê?
Empresário bem-sucedido no ramo de estofados, Guenes era mais que um secretário. Era um articulador nato, uma ponte entre a prefeitura e os poderes estaduais e federais. Dentro do grupo político liderado pelo cacique indígena Marcos Luidson, era figura chave, estratégica, com trânsito livre nos bastidores. Sua atuação discreta, porém poderosa, o colocava como peça indispensável no tabuleiro político de Pesqueira.
Desde então, muitas teorias circularam. Crime político? Pessoal? Econômico? Vingança? Silenciamento? Cada uma mais densa que a outra, mas nenhuma confirmada. A Polícia preferiu o silêncio. O inquérito, envolto em sigilo, passou por diversas mãos. Autoridades foram ouvidas. Suspeitos, questionados. Mas a cidade jamais soube dos detalhes.
AINDA ESTOU AQUI
Hoje, quase 1500 dias depois, o vazio da falta de respostas pesa como chumbo sobre o povo pesqueirense. A sensação de impunidade se mistura à dor da ausência. Wellington Guenes era pai, marido, irmão, amigo. Um homem jovem, com 39 anos, cheio de planos e de histórias interrompidas com violência.
Como no filme “Ainda Estou Aqui”, que narra a história real da família Paiva durante a ditadura militar brasileira, focando na luta da mãe, Eunice Paiva, para criar seus cinco filhos após o desaparecimento de seu marido, o ex-deputado Rubens Paiva. O filme retrata a realidade de Eunice criando seus cinco filhos sozinha após o sequestro e assassinato de Rubens Paiva pelos militares.
Em Pesqueira, os parentes (filhos, mãe, esposa) perderam Guenes.
CRIME NA RUA
O assassinato marcou uma fase de Pesqueira. A cena do crime — ali, diante do prédio que ele tanto frequentava — virou ponto de memória e revolta.
A data de 7 de junho passou a ser um marco silencioso. Um ritual sem festa. Em cada aniversário da tragédia, os amigos mais próximos falam sobre o caso. Fazem orações. E esperam, ainda, por uma resposta. Pela verdade. Pela justiça que tarda.
MAS SERÁ QUE ELA VIRÁ?
Pesqueira não esqueceu. A população cobra. Na época, as redes sociais se encheram de lembranças e cobranças a cada novo ano. “Sem justiça. Até quando?”, questionou um post. A cidade quer respostas, não vingança. Quer transparência, não silêncio. Quer saber quem calou a voz de Wellington — e por quê.
O caso de Guenes escancara um problema maior: a violência política no interior do Brasil, que se mascara entre discursos e acordos, e que quando estoura, leva vidas e apaga nomes. Wellington virou estatística, sim — mas também virou símbolo. O símbolo de um sistema que precisa ser desvendado, um dia.
O crime chocou não apenas pelo modo como foi cometido, mas pelo cenário. Um crime à luz do dia (ainda que no cair da noite), em frente ao epicentro do poder local. Existem testemunhas nas redondezas? Cadê as câmeras de videomonitoramento? Ainda assim, ninguém viu o suficiente. Ninguém ouviu o bastante. E ninguém, até hoje, respondeu por ele.
A viúva de Wellington preferiu o silêncio público, mas segue firme na busca por justiça. Os filhos crescem sob a ausência do pai e o peso do mistério.
Há rumores de que o inquérito ainda está em andamento. Oficialmente, o caso permanece aberto. Extraoficialmente, o povo já perdeu a fé. O tempo passa, e a memória de Wellington se transforma em lenda urbana. Um crime político sem culpados. Uma emboscada digna de filme noir. A diferença é que, na ficção, o culpado sempre aparece. Em Pesqueira, não.
O silêncio é ensurdecedor. O crime virou tabu. E toda vez que alguém tenta tocar no assunto, surgem olhares cruzados, palavras sussurradas e portas que se fecham. Quem tem medo da verdade?
Pesqueira merece saber. Os familiares merecem justiça. E Wellington Guenes merece, ao menos, a dignidade da verdade. 1500 dias depois, é hora de romper o silêncio.
O que aconteceu com Wellington Guenes não pode ser apenas um arquivo mofado em uma gaveta de delegacia. É um grito preso na garganta de toda uma cidade. É uma cicatriz aberta no rosto da democracia local. É um caso que precisa ser resolvido — porque sem justiça, não há paz.
E enquanto isso não acontece, cada 7 de junho será um lembrete cruel: a morte de um homem não pode ser esquecida, e o silêncio nunca será resposta.
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