Xikão Vive: 28 anos depois, o sangue do mártir ainda ecoa na Serra do Ororubá
Entre lágrimas, cantos sagrados e memória viva, a 26ª Assembleia Xukuru transforma dor em resistência e reafirma que a luta do povo indígena jamais será silenciada
Por Flávio José Jardim
atualizado há 2 horas
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Fotos: Ryan Xukuru
TERRITÓRIO XUKURU, PESQUEIRA (PE) - A Serra do Ororubá está envolta por cantos sagrados, passos firmes e lágrimas que nunca secaram. Nesta quarta-feira, 20 de maio de 2026, o povo Xukuru encerrou a 26ª Assembleia Xukuru do Ororubá carregando no peito uma mistura de saudade, indignação e resistência. Há exatos 28 anos, o chão de Pesqueira era banhado pelo sangue de Francisco de Assis Araújo, o eterno Cacique Xikão Xukuru, assassinado brutalmente por defender o território e a dignidade de seu povo.
Mas o que os pistoleiros e os mandantes do crime jamais imaginaram é que Xikão não morreria. O corpo tombou em 20 de maio de 1998, diante da casa de sua irmã, alvejado covardemente por tiros de pistola. Porém, naquele mesmo instante, nascia um símbolo que atravessaria gerações. Xikão virou semente. Virou memória. Virou força coletiva. Virou grito permanente de um povo inteiro.
Naqueles dias sombrios, o jornalista Flávio J. Jardim, então correspondente do Jornal do Commercio, acompanhou de perto a dor que devastou a Serra do Ororubá. Sua reportagem estampou manchetes em Pernambuco e repercutiu em todo o Brasil, revelando ao país a execução cruel de um líder indígena perseguido por enfrentar fazendeiros e lutar pela demarcação das terras ancestrais Xukuru.
O assassinato tinha endereço político e fundiário. Xikão liderava um processo histórico de retomada territorial em defesa de mais de 27 mil hectares reivindicados pelo povo Xukuru. Sua voz incomodava latifundiários, atravessava gabinetes e despertava consciências. Por isso tentaram silenciá-lo. O cacique foi atingido por seis disparos — na cabeça, nas costas, na barriga e na nuca — numa emboscada fria que marcou para sempre a história indígena do Brasil.
O impacto da morte atravessou Pernambuco como uma tempestade de dor. Mulheres choravam abraçadas às crianças. Guerreiros caminhavam em silêncio pelas aldeias. Os maracás ecoavam como lamento ancestral. E no centro daquela tragédia estava uma mulher que transformaria o sofrimento em coragem: Zenilda Araújo.
A viúva de Xikão precisou sepultar o marido e, ao mesmo tempo, manter de pé um povo inteiro. Enquanto o medo rondava as aldeias e as ameaças continuavam, Zenilda ergueu a cabeça e fez do luto uma bandeira de luta. Tornou-se símbolo de resistência feminina, guardiã da memória de Xikão e uma das maiores vozes da causa indígena em Pernambuco.
Ao lado dela crescia um menino que viu o pai ser transformado em mártir. Marcos Luidson Araújo carregou nas costas o peso da ausência e a responsabilidade da continuidade. Hoje, quase três décadas depois, o filho de Xikão tornou-se o Cacique Marquinhos Xukuru, principal liderança do povo Xukuru do Ororubá e prefeito de Pesqueira, numa trajetória que mistura dor, política, espiritualidade e resistência.
Durante a Assembleia encerrada nesta quarta-feira, Marquinhos emocionou os participantes ao afirmar que seu mandato não nasceu distante do território. Pelo contrário. Segundo ele, cada decisão política é inspirada nas Cartas do Povo Xukuru, nas assembleias e no entendimento de que ocupar os espaços institucionais também faz parte da luta indígena.
A Assembleia deste ano teve um significado ainda mais profundo. Entre os dias 17 e 20 de maio, milhares de indígenas se reuniram na Aldeia Pedra d’Água para discutir democracia, território, igualdade e protagonismo feminino. O tema escolhido — “Limolaygo Toype: a cada guerreira que se levanta, nossa luta se fortalece” — transformou as mulheres indígenas no centro das discussões.
E foi impossível não perceber a força feminina atravessando cada ritual, cada fala e cada canto entoado no Espaço Mandaru. As mulheres Xukuru não estavam atrás de ninguém. Estavam lado a lado, conduzindo debates, fortalecendo a espiritualidade e reafirmando que a luta indígena também é uma luta contra o machismo, contra a invisibilidade e contra todas as formas de violência.
Em um dos momentos mais marcantes da Assembleia, lideranças ressaltaram que o feminismo não é o contrário do machismo, mas sim uma busca por igualdade, respeito e dignidade. A frase tradicional “atrás de um grande homem existe uma grande mulher” foi rejeitada com firmeza. No território Xukuru, disseram as lideranças, as mulheres caminham juntas, constroem juntas e resistem juntas.
A ancestralidade também ocupou o centro das celebrações. O primeiro dia da Assembleia foi marcado por um momento histórico: a Universidade Federal de Pernambuco concedeu o título de Doutor Honoris Causa ao Pajé Zequinha, a Pretinha Truká e a Francisca Kambiwá. O reconhecimento emocionou o território inteiro.
Seu Zequinha, referência espiritual do povo Xukuru, recebeu a homenagem sob aplausos e lágrimas. Mais que um título acadêmico, o gesto simbolizou o reconhecimento dos saberes ancestrais indígenas como ciência viva, legítima e fundamental para as futuras gerações.
O pajé tornou-se, ao longo das décadas, uma espécie de farol espiritual do território. Sua voz orientou o povo nos momentos mais difíceis após a morte de Xikão. Seus ensinamentos ajudaram a manter viva a identidade Xukuru diante da violência, das ameaças e das tentativas históricas de apagamento cultural.
Outro momento de forte simbolismo ocorreu com a apresentação da cartilha sobre o Caso do Povo Xukuru do Ororubá versus Brasil na Corte Interamericana de Direitos Humanos. O material relembra a histórica sentença de 5 de fevereiro de 2018, quando o Estado brasileiro foi responsabilizado internacionalmente pela demora na garantia dos direitos territoriais do povo Xukuru.
A entrega da cartilha representou muito mais que um ato formal. Foi uma reafirmação de memória. Uma declaração pública de que o sangue derramado por Xikão não foi esquecido. A luta saiu das trilhas da Serra do Ororubá e ecoou nos tribunais internacionais, tornando-se símbolo mundial da resistência indígena.
Durante os quatro dias de Assembleia, os debates foram intensos. As lideranças discutiram democracia, justiça climática, criminalização dos povos indígenas e participação política. As noites culturais reuniram samba de coco, pífanos, cantorias e danças tradicionais que fizeram o território pulsar de emoção e identidade.
A presença de lideranças indígenas, representantes de universidades, movimentos sociais e autoridades reforçou o peso político da Assembleia. Entre eles estava Guila Araújo, hoje presidente da Câmara de Vereadores de Pesqueira, reconhecido como uma importante voz de apoio às pautas indígenas e defensor do fortalecimento do povo Xukuru.
Cada ritual realizado durante a Assembleia carregava uma mensagem silenciosa: Xikão continua presente. Ele estava nos maracás. Nas fogueiras acesas. Nos pés descalços caminhando pela terra. Nas crianças correndo pelas aldeias. Nas mulheres guerreiras que tomavam a palavra. Nos jovens que aprendem desde cedo que território é vida.
Na manhã desta quarta-feira, o ritual de celebração realizado no local onde Xikão está plantado transformou o território em um grande altar de memória. Ali, diante da terra sagrada, muitos choraram. Outros permaneceram em silêncio. Alguns ergueram os braços para o céu enquanto o vento frio da Serra do Ororubá parecia carregar as vozes ancestrais dos encantados.
Poucas histórias no Brasil carregam tanta dor e tanta resistência quanto a do povo Xukuru. Após o assassinato de Xikão, a violência continuou rondando o território. Houve perseguições, ameaças, ataques e tentativas de criminalização. Mas o povo permaneceu de pé.
A morte do cacique não destruiu a luta. Pelo contrário. Transformou a resistência Xukuru em símbolo internacional. O que era uma batalha territorial tornou-se também uma defesa da memória, da cultura e da sobrevivência de um povo inteiro.
Hoje, quando Marquinhos Xukuru ocupa o cargo de prefeito de Pesqueira, muitos enxergam ali a continuidade da caminhada iniciada pelo pai. Não apenas na política institucional, mas na defesa permanente do território, da espiritualidade e da autonomia indígena.
Ao longo da Assembleia, uma frase foi repetida inúmeras vezes: “Xikão vive”. E ela não surge como metáfora vazia. Para os Xukuru, Xikão realmente renasce em cada criança indígena, em cada retomada territorial, em cada guerreira que se levanta e em cada jovem que decide continuar defendendo o povo.
Os mais velhos lembram que, após o assassinato, havia quem acreditasse que o movimento indígena perderia força. O que ocorreu foi exatamente o contrário. A morte do cacique despertou ainda mais consciência política e fortaleceu a organização coletiva do território.
As 24 comunidades Xukuru espalhadas pela Serra do Ororubá carregam hoje marcas profundas dessa história. Cada aldeia guarda lembranças do sofrimento, mas também da coragem que permitiu ao povo sobreviver às ameaças e seguir reconstruindo sua caminhada.
Na caminhada e ato público realizados na tarde desta quarta-feira, o território voltou às ruas de Pesqueira para lembrar ao Brasil que a violência contra os povos indígenas ainda existe. Faixas, cantos e palavras de ordem misturavam tristeza e esperança numa manifestação carregada de simbolismo.
Enquanto o cortejo seguia pelas ruas, muitas pessoas choravam ao lembrar o dia em que Xikão caiu assassinado. Outras erguiam os punhos como quem promete continuar lutando. Porque ali, naquele ato coletivo, existia um sentimento comum: ninguém conseguiu apagar a história do povo Xukuru.
Vinte e oito anos depois, a ausência física de Xikão continua doendo. Mas sua presença espiritual tornou-se gigantesca. O cacique transformou-se em mártir da causa indígena brasileira, referência de coragem e símbolo eterno de resistência.
No alto da Serra do Ororubá, onde o vento sopra forte e os maracás ecoam entre as árvores, o povo Xukuru segue caminhando. Entre lágrimas, memória e luta, eles continuam repetindo ao mundo inteiro uma verdade que o tempo jamais conseguiu apagar:
Xikão vive.
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