As Caldeiras Que Ainda Falam: O Coração Operário de Pesqueira
Um tributo à memória industrial da Terra do Doce e ao legado de Cícero Ramos, entre o calor das fornalhas e o silêncio dos prédios esquecidos
Por Flávio José Jardim
atualizado há 10 meses
Publicado em
MACIRAJARA FREITAS RAMOS
O frio das caldeiras, o abandono da história, o suor e o sangue de tantos que ali passaram, doando suas vidas.
Era tempo de apogeu: o produto fresquinho chegava das fazendas e sítios, das terras produtivas que não desperdiçavam um tomate, uma goiaba — e logo seguiam para a Fábrica Peixe, famosa em todo o país, gerando renda e oportunidades para Pesqueira e região. Apesar de diferentes visões e pensamentos — do coronelismo à massa trabalhadora —, bom mesmo era ouvir a sirene, o canto dos operários embalando os serões, os cartões de ponto que garantiam o sustento, o vigor de uma terra que ficou conhecida como a “terra do doce”, graças às suas muitas fábricas.
É sabido que, por muitas razões, essa cidade, antes tão desenvolvida, acabou vendo suas atividades industriais se encerrarem de forma triste e abrupta. Muitos se lembram da despedida, do choro contido dos poucos funcionários que ficaram na porta, enquanto se afastavam, relembrando o orgulho de viver em uma cidade que “latinha” — lá tinha empreendimentos, trabalho, troca de moedas, pão na mesa dos operários, escola para os filhos, encanto traduzido em grandes monumentos. Muitos destes hoje se encontram esquecidos, sem o devido cuidado, sem contar as histórias que abrigaram.
É doloroso perceber que, enquanto outras cidades avançaram, modernizaram-se e ao mesmo tempo guardaram sua memória, Pesqueira deixou que suas caldeiras, fornalhas e paredes firmes se desfizessem. Foi ali que meu amado marido fincou raízes, dedicando-se ao trabalho e à construção de uma terra de doces tradições.
Pesqueira viu partir não apenas suas fábricas, mas parte de sua alma. Ainda resta, porém, o desejo de manter vivas as velhas arquiteturas, como um acalanto para os corações dos antigos funcionários e para toda uma população que gostaria de ver preservados os prédios que simbolizaram seu progresso. Basta um olhar atento para sentir que muito ainda poderia ser valorizado — construções antigas que atraíam turistas, encantavam visitantes e inspiravam a esperança de dias melhores.
Vejo em lugares sensíveis nestes prédios aqui abandonados e lá reestruturados, velhas fábricas foram transformadas em espaços vivos, onde salas e alas são cedidas para ex-funcionários se reunirem, conversarem, jogarem, rirem — mantendo viva a convivência de outros tempos. Com a história nas mãos, tecemos os fios, costuramos o tempo entre o passado e o presente, para que as novas gerações conheçam, valorizem e sintam orgulho de Pesqueira.
O calor das fornalhas, os rostos suados, as mãos calejadas, a alegria de cada dia de trabalho — tudo isso não se vê, mas se sente. Não deixemos morrer nossa história! Progresso também se constrói com a experiência do passado, com afeto e orgulho, como lembra o lema em nossa bandeira: “Al da ciora duco” — conduzo para as alturas. Abramos os olhos: nossos prédios estão se desfazendo, nossa cultura, que fala por si, vai se esvaindo como a fumaça dos velhos bueiros, inclusive o da Peixe.
Nossa cidade é dedicada a Nossa Senhora das Graças. Aqui, a Virgem Santíssima apareceu e abençoou. A messe é grande: lutemos pelo nosso turismo religioso, que tem tanto a nos dizer e ensinar sobre fé, devoção e sobre o valor desta terra centenária.
Escrito e dedicatória desta escritora como forma de Tributo a Cícero Ramos ( Zico), paulistano de Sorocaba que aqui fixou residência com sua família nordestina, como mecânico na manutenção das caldeiras da Fábrica Peixe.
Texto: MACIRAJARA FREITAS RAMOS
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