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EMPELEITADA | Longa-metragem indígena pernambucano é selecionado para Festival de Gramado

A história que o Brasil vai conhecer — longa sobre o líder Xukuru chega ao festival de gramado e transforma dor, memória e resistência em cinema. A estreia nacional acontecerá no próximo dia 18 de agosto, durante a Mostra Competitiva de Documentários Brasileiros do Festival de Gramado

Por Flávio José Jardim atualizado há 1 mês
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EMPELEITADA | Longa-metragem indígena pernambucano é selecionado para Festival de Gramado

 

CARTAZ
CARTAZ DIVULGAÇÃO

 

 

CAPA 2
CAPA 2 (Flávio/flaviojjardim.com.br)

 

PESQUEIRA (PE) – Um documentário pernambucano leva às telas a trajetória do povo Xukuru do Ororubá, eterniza o legado de Xikão e emociona uma geração inteira que continua repetindo: "Eu sou Xikão".

 

        A notícia percorreu rapidamente as aldeias da Serra do Ororubá e foi recebida com emoção, lágrimas, abraços e um sentimento coletivo de vitória. O longa-metragem "Empeleitada", que narra a história de luta do povo Xukuru do Ororubá, foi selecionado para a 54ª edição do Festival de Cinema de Gramado, um dos mais importantes do país. Para os Xukuru, mais do que um filme na maior vitrine do cinema brasileiro, a seleção representa o reconhecimento de uma história construída com coragem, sofrimento, espiritualidade e resistência.

 

 

O documentário leva para as telas uma trajetória que atravessa gerações e que tem como figura central o inesquecível Cacique Xikão, liderança que dedicou sua vida à defesa do território, da cultura e da dignidade de seu povo. Assassinado em maio de 1998, enquanto seguia firme na luta pelos direitos dos Xukuru, Xikão transformou-se em um símbolo que jamais foi silenciado pelo tempo.

 

Muito antes de sua morte, o líder já demonstrava consciência do risco que enfrentava. Em uma das frases mais marcantes de sua trajetória, ele declarou: "Estão querendo fazer comigo mesmo aquilo que fizeram com Antônio Conselheiro, o mesmo que fizeram com Che Guevara e com outras lideranças comunitárias." A afirmação, carregada de lucidez e coragem, permanece viva como um testemunho da dimensão do conflito vivido por quem ousava lutar pelo direito de seu povo existir em paz.

 

A história mostrou que o corpo de Xikão foi interrompido pela violência, mas sua voz nunca deixou de ecoar entre as montanhas da Serra do Ororubá. Sua memória transformou-se em força coletiva, alimentando novas lideranças e inspirando crianças, jovens e anciãos a seguirem defendendo a identidade, a cultura e a ancestralidade do povo Xukuru.

 

É justamente essa memória que "Empeleitada" escolhe contar. O filme não segue um caminho convencional. Ele reconstrói a presença de Xikão por meio da construção de uma casa de taipa erguida em sua homenagem, onde cada pedaço de barro, cada madeira e cada gesto carregam significados profundos. O trabalho manual transforma-se em ritual, e o ritual transforma-se em memória viva.

 

A produção revela que, para o povo Xukuru, não existe separação entre o trabalho da terra e o trabalho do espírito. Enquanto as mãos moldam a casa, a ancestralidade também é edificada. Os encantados, a força da natureza, o Toré e a espiritualidade caminham juntos, mostrando que a verdadeira construção não é apenas física, mas também coletiva e sagrada.

 

O próprio título "Empeleitada" traduz esse sentimento. Palavra muito conhecida entre os Xukuru, ela significa trabalho, missão, compromisso. Inspirado em um tradicional Toré que convoca: "Vamos ver se nós acaba com o resto da empeleitada", o documentário transforma essa expressão em um convite para que a luta continue sendo assumida por todos.

 

 

A emoção ganha ainda mais força porque o filme não fala apenas do passado. Ele mostra que a história continua sendo escrita diariamente pelas famílias Xukuru que mantêm vivas suas tradições, suas assembleias, sua organização comunitária e o compromisso permanente com a defesa do território e da cultura indígena.

 

PRODUÇÃO

 

Dirigido coletivamente por Micaele Xukuru, Chico Ludermir e Sérgio Borges, o longa é o primeiro filme de longa-metragem dedicado exclusivamente à história do povo Xukuru do Ororubá. Filmado nas aldeias Pedra d'Água, Caípe e Canabrava, em novembro de 2023, reúne imagens, memórias e sentimentos que dificilmente deixarão o espectador indiferente.

 

Produzido pela Ororubá Filmes, em parceria com a Símio Filmes, Fractais e Coquevídeo, o documentário contou com apoio do edital Virada Digital da TV Pernambuco e do Funcultura, demonstrando a importância de iniciativas que valorizam narrativas construídas pelos próprios povos indígenas.

 

A estreia nacional acontecerá no próximo dia 18 de agosto, durante a Mostra Competitiva de Documentários Brasileiros do Festival de Gramado, onde "Empeleitada" disputará o tradicional Kikito, principal prêmio do cinema nacional. Independentemente do resultado, a simples presença do filme já representa uma conquista histórica para o povo Xukuru.

 

Entre os indígenas, a notícia foi celebrada com entusiasmo. Homens, mulheres, jovens e anciãos receberam a seleção como uma vitória coletiva. Afinal, não será apenas um filme que chegará às telas do Brasil. Será uma história que durante décadas resistiu às tentativas de apagamento e que agora alcança um dos maiores palcos culturais do país.

 

Em uma das homenagens mais marcantes realizadas após a morte de Xikão, milhares de vozes ecoaram em uníssono durante um ato carregado de simbolismo. Diante do Espaço Sagrado, o atual cacique e prefeito de Pesqueira, Marcos Xukuru, filho de Xikão, emocionou o povo ao declarar: "Esse Espaço Sagrado é de todos vocês, é de todos nós, e que cada um de nós sejamos Xikão. Eu sou Xikão."

 

A resposta veio imediatamente da multidão. Como uma oração coletiva, homens, mulheres, crianças e idosos repetiram diversas vezes: "Eu sou Xikão... Eu sou Xikão... Eu sou Xikão...". Naquele instante, a liderança deixava definitivamente de pertencer apenas a um homem para tornar-se patrimônio espiritual de um povo inteiro.

 

Agora, essa mesma emoção ultrapassa as fronteiras da Serra do Ororubá. O cinema brasileiro abre suas portas para contar ao país que existem histórias que não cabem apenas nos livros, porque vivem na memória dos povos, nos cantos do Toré, no barro das casas, na força da terra e na coragem daqueles que nunca desistiram de existir.

 

Quando as luzes do Festival de Gramado se acenderem para a exibição de "Empeleitada", o Brasil não verá apenas um documentário. Verá a força de um povo que transformou dor em resistência, memória em identidade e esperança em legado. Verá que Xikão continua vivo. Vivo em cada aldeia, em cada retomada, em cada criança Xukuru e em cada voz que ainda hoje proclama, com orgulho e emoção: "Eu sou Xikão."

 

fotos divulgação
fotos divulgação (Flávio/flaviojjardim.com.br)

 

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fotos (Flávio/flaviojjardim.com.br)

 

capa
capa (Flávio/flaviojjardim.com.br)

 

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