Foto postada com João Campos causou a Demissão da Gestora de Pesqueira?
Educação na mira da política: exoneração em Pesqueira acende alerta em Pernambuco. Demissões sem explicação, bastidores de poder e denúncias de perseguição colocam a rede estadual de ensino no centro de uma crise institucional
Por Da Redação
atualizado há 3 meses
Publicado em
PESQUEIRA (PE) - A educação pública de Pernambuco voltou a ocupar o centro de uma tempestade política. Em vez de debates pedagógicos ou avanços educacionais, o que ecoa pelos corredores das escolas e gabinetes é o som de exonerações repentinas, silenciosas e cercadas de indignação.
No último dia 20, Pesqueira amanheceu perplexa com a notícia da exoneração da professora Jasdenir Maria Cavalcanti dos Santos da função de gestora da Escola de Referência Dom Adelmo Cavalcanti Machado. Uma decisão fria, publicada no Diário Oficial, mas que caiu como um raio sobre a comunidade escolar.
Jasdenir não é um nome qualquer. Professora concursada desde 1990, construiu uma trajetória marcada por compromisso, dedicação e resultados. À frente da escola, liderava uma gestão reconhecida pelo trabalho coletivo, pelo foco pedagógico e pela busca constante de melhorias.
A exoneração, no entanto, não veio acompanhada de justificativa técnica, relatório de desempenho ou qualquer explicação pública. Apenas a caneta do poder, rápida e implacável, decretando o fim de uma gestão considerada exitosa.
O episódio ganhou contornos ainda mais graves quando veio à tona um detalhe político: Jasdenir é mãe do vereador de Pesqueira Mateus Leite, do Podemos. A coincidência, para muitos, deixou de ser coincidência.
Pouco antes da exoneração, Mateus Leite havia publicado em suas redes sociais uma foto ao lado do prefeito do Recife, João Campos. A imagem viralizou, ultrapassando 80 mil visualizações na região, e passou a ser apontada como o estopim de uma retaliação política. Nos bastidores, a pergunta corre solta: a educação estadual está sendo usada como instrumento de punição política? Em Pesqueira, a sensação é de que sim.
Indignado, o vereador não poupou palavras ao comentar o afastamento da mãe. Disse que a decisão foi desrespeitosa, injustificável e marcada por perseguição partidária. Ressaltou ainda que Jasdenir só ocupava o cargo porque venceu um processo seletivo, com pontuação muito superior à do segundo colocado.
A exoneração, segundo ele, não atinge apenas uma profissional, mas toda uma comunidade escolar que acreditava em uma gestão construída com diálogo, técnica e humanidade. Para críticos da medida, o caso revela práticas antigas, que muitos acreditavam superadas: o uso da máquina pública como extensão de disputas políticas locais, num modelo que lembra o velho coronelismo, agora travestido de modernidade administrativa.
O deputado federal Pedro Campos também se manifestou, alertando que a educação não pode ser refém de guerras políticas. Segundo ele, escolas precisam de estabilidade, critérios técnicos e respeito aos profissionais que dedicam a vida ao ensino público.
O que mais revolta é a forma. Nenhum processo transparente, nenhuma avaliação divulgada, nenhum espaço para defesa. Apenas uma portaria seca, assinada pelo secretário de Educação, dispensando Jasdenir e nomeando uma nova gestora de forma provisória.
A publicação oficial, embora legal em sua forma, escancara o vazio de explicações. Para pais, alunos e professores, ficou apenas o sentimento de injustiça e insegurança. O caso de Pesqueira, porém, não é isolado. Em diferentes regiões de Pernambuco, histórias semelhantes vêm se acumulando, formando um mosaico preocupante de exonerações associadas a alinhamentos políticos.
OUTROS CASOS
Em Santa Cruz do Capibaribe, a vereadora Jessyca Cavalcanti foi afastada da gestão de uma escola estadual após declarações políticas. Mesmo com mais de duas décadas de serviço público e mudanças significativas na unidade escolar, foi retirada do cargo sem explicação técnica.
Na ocasião, Jessyca denunciou publicamente que, em Pernambuco, pareceria não bastar ser competente: seria preciso demonstrar alinhamento político com o Palácio do Campo das Princesas.
No Sertão, outro episódio reforçou as suspeitas. A exoneração de uma gestora regional de educação ocorreu logo após um rompimento político entre lideranças locais e o governo estadual, reacendendo críticas sobre o esvaziamento dos critérios técnicos nas escolhas.
Esses episódios colocam em xeque um modelo que foi criado justamente para proteger a educação da interferência política: os processos seletivos para gestores e dirigentes regionais, pensados para garantir mérito, capacidade e compromisso. Quando cargos educacionais passam a ser tratados como moedas de troca ou instrumentos de retaliação, quem perde não é apenas o profissional exonerado. Perdem os alunos, as famílias e toda a sociedade, que depende de uma educação pública forte e estável.
Em Pernambuco, a exoneração de Jasdenir Maria Cavalcanti deixou de ser apenas um ato administrativo. Tornou-se símbolo de um debate maior: até que ponto a política está ultrapassando os muros das escolas e colocando em risco o futuro da educação pública no estado?
Você precisa estar logado para comentar. Por favor, faça login ou crie a sua conta.
Ainda não há comentários para esta notícia. Seja o primeiro a comentar!