Política

MEMÓRIA VIVA | GERALDO ROLIM, O ETERNO DEFENSOR DO POVO. OUÇA PODCAST COM ANTÔNIO MOTA. FATOS INÉDITOS SOBRE O CASO

Há exatos 27 anos, o Procurador Federal Geraldo Rolim foi assassinado em São Sebastião do Umbuzeiro (PB). Sua morte deixou uma lacuna na política de Pesqueira e de Pernambuco. Antônio Mota, irmão de Rolim, concede entrevista reveladora. Ouça podcast com FATOS INÉDITOS

Por Flávio José Jardim atualizado há 4 anos
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MEMÓRIA VIVA | GERALDO ROLIM, O ETERNO DEFENSOR DO POVO. OUÇA PODCAST COM ANTÔNIO MOTA. FATOS INÉDITOS SOBRE O CASO

PESQUEIRA (PE) – “Atenção puxa-sacos de Pesqueira, liguem seus gravadores porque está no ar ‘O Povo é a Lei’”.

       A abertura provocativa, com sonoplastia sinistra, já era um prenúncio do que seria o conteúdo do programa de rádio do advogado Geraldo Rolim, apresentado todos os sábados na Rádio Jornal, antiga Rádio Difusora de Pesqueira.

       No dia 15 de maio de 1995, o jornal Folha de S. Paulo publicava: “Procurador é assassinado” (DA AGÊNCIA FOLHA, EM MACEIÓ).

       “O procurador da Funai (Fundação Nacional do Índio) e presidente do PSB (Partido Socialista Brasileiro) em Pesqueira (PE), Geraldo Rolim Filho, foi assassinado a tiros na madrugada de ontem (14) em Sebastião do Umbuzeiro (PB).
       A polícia pernambucana acredita que o crime esteja relacionado com a demarcação da reserva dos índios Xucurus e Funi-ô, em Pesqueira, feita pela Funai, na última quarta-feira.
       Poucos minutos antes de morrer, segundo o delegado João Soares, Rolim disse que um dos quatro homens que o atacaram era administrador da fazenda Ipojuca, que está na área demarcada.
       A Polícia Federal deve assumir o caso a partir de hoje”, publicou a Folha.

LUTO

       A notícia do assassinato cruel de Geraldo Rolim chocou todo o país. Em Pesqueira, foi um Dia das Mães triste. Numa época onde o rádio e o jornal eram as redes sociais, as pessoas aguardavam as novas informações e muitas vezes demoravam horas.

       Geraldo Rolim deixou uma lacuna gigantesca na política combativa de Pesqueira. Esse posto nunca foi ocupado in totum. Só anos depois, Augusto Simões, prosseguiu essa ação, mas também foi pro andar de cima.

       Na imprensa, houve muitas reportagens e grande repercussão do caso Rolim. O cacique da tribo Xukuru, Francisco de Assis Araújo, o Cacique Xicão, se pronunciou já que, além de grandes amigos, dividiam o mesmo ideal libertário. Três anos depois, no mesmo mês de maio, Xicão também foi barbaramente assassinado.

       A vida e a obra de Geraldo Rolim ficaram grafadas na parede da memória de Pesqueira, onde a lembrança cruel do assassinato de Rolim é o quadro que dói mais.

ENTREVISTA BOMBÁSTICA

       Em entrevista exclusiva ao Site Flávio J Jardim – Notícia Verdade, o funcionário público e líder do PSOL em Pesqueira, Antônio Mota, irmão de Rolim, fala tudo sobre o que a família sofreu com o assassinato do advogado Geraldo Rolim. Ouça Podcast. É uma entrevista reveladora.

MEMÓRIA

       Ismael Gaião, em 2009, recuperou um artigo antológico de Geraldo Rolim. Leia a abertura de Ismael e o artigo escrito por Rolim:

GERALDO ROLIM – UM PROCURADOR FEDERAL ASSASSINADO

       Na edição número doze do jornal “A ENXADA”, em outubro de 1985, nós publicamos um artigo do meu saudoso amigo, Geraldo Rolim Mota Filho, assassinado em 1995, no cargo de Procurador Federal, com 32 anos de idade, quando defendia as causas indígenas em Pesqueira, sua terra natal.

       Além de advogado muito competente, Geraldo Rolim era Presidente do PSB de Pesqueira, prestava assessoria jurídica para a Fundação Nacional do Índio (FUNAI) e apresentava o programa O Povo é a Lei, na Rádio Difusora de Pesqueira, afiliada da Rádio Jornal. Sua morte foi associada ao trabalho de demarcação das terras dos índios Xucurus e da defesa dos direitos humanos.

       Eu tive a felicidade de ser amigo de Geraldo Rolim e acompanhei suas atividades, como Assessor do Deputado Eduardo Gomes e posteriormente como Diretor do Horto de Dois Irmãos, na segunda gestão do Governador Miguel Arraes.

       Geraldo era extrovertido e muito inteligente além, de ser um construtor de amigos. Sua morte, para mim foi como a do meu conterrâneo, vereador Edgar Idalino, pois acabou mais uma carreira de um defensor das minorias injustiçadas neste país.

       Veremos agora o excelente artigo escrito por Geraldo Rolim publicado n’A ENXADA, a respeito do saudoso ex-senador Marcos Freire, que à época ocupava o cargo de Presidente da Caixa Econômica Federal.

EQUÍVOCO HISTÓRICO

Geraldo Rolim*

       “A população interiorana acompanha com grande interesse o desenrolar da eleição para prefeito do Recife, pois é público e notório, que essa disputa irá refletir-se nas eleições estaduais de l986.

A campanha está polarizada entre Jarbas Vasconcelos e Sergio Murilo. O primeiro é apoiado pelos setores progressistas do PMDB, comandados pelo líder Miguel Arraes. O segundo se aliou ao PFL do decadente e oportunista Roberto Magalhães, sob os aplausos do ex-líder Marcos Freire.

Freire, que ainda mantém a vaidade de ser governador, aposta na indicação do seu nome para disputar a governança pelo PMDB apoiado pelas forças governistas. Por isso optou pela candidatura de Sergio Murilo, candidato oficial do Governo...

Com isso recompensaria o seu ex-adversário (ou ex-inimigo familiar), na vã tentativa de manter a falsa-Aliança Democrática.

Só que, o presidente da Caixa Econômica, esqueceu que o comandante Miguel Arraes também disputará a convenção do partido, tendo como trunfo o apoio de 14 deputados estaduais e 8 federais, que controlam 80% dos convencionais do Estado.

Como exemplo, podemos citar o combativo deputado estadual Gonzaga Patriota, que lhe assegura 60 delegados sertanejos. Também do Sertão... O acompanhará o deputado federal Mansueto de Lavor, que por certo, trará o restante dos delegados sertanejos para sua chapa.

Outro exemplo bem claro é o bravo deputado estadual Eduardo Gomes, que presenteará Arraes, com os delegados de pelo menos 30 municípios do Agreste, Sertão do São Francisco e Área Metropolitana.

Sabendo disso, e ganhando Jarbas, o que é provável, o Sr. Marcos Freire não ousará mais disputar a convenção do PMDB. Estará derrotado por antecipação. Arraes vencendo por WO, o ex-senador deve reforçar a sua aliança com o atual governador...

Quando lá estiver, arranchado no meio daqueles que denegriram a sua honra e a de sua família, na campanha eleitoral de l982, Freire então perceberá que cometeu um equívoco histórico. Pensará em voltar ao seu antigo quartel, mas aí esbarrará nos comandantes, Arraes, Lyra e Jarbas, que lhes aconselharão a voltar como soldado: a prefeito de Olinda, talvez”.

*Universitário de Direito e Presidente do PMDB de Pesqueira – l986

FORMATURA DE GERALDO ROLIM

A HISTÓRIA & ROLIM

       “Aqueles que defendem os direitos dos povos indígenas, e em particular, o direito de terem suas terras demarcadas em acordo com a legislação da constituição federal, encontram muitas vezes uma resistência violenta por parte de grandes detentores de terras e outros com interesses nas terras tradicionais indígenas ou em recursos provenientes destas.  

       Conforme detalhado neste capítulo, não é incomum que defensores dos direitos indígenas recebam ameaças de morte ou agressão física, inclusive tentativas de assassinato. Estas ameaças não se limitam a membros da sociedade civil. Até mesmo deputados e funcionários da Fundação Nacional do Índio (FUNAI), que fazem cumprir a legislação brasileira sobre direitos indígenas, que contrarie fortes interesses locais na zona rural do Brasil, estão sujeitos a violência ou ameaças de violência. Como exemplo, Geraldo Rolim da Mota Filho, advogado da FUNAI e presidente do Partido Socialista Brasileiro (PSB) em Pernambuco, foi assassinado em 14 de maio de 1995, na cidade de São Sebastião de Umbuzeiro. Antes de morrer, Rolim identificou o dono de terra local Teopompo de Siqueira Brito Sobrinho e quatro cúmplices como os autores do crime. Rolim, de 32 anos, trabalhava para ajudar a demarcar as fronteiras da Reserva Indígena de Xucuru.  Por causa de seu trabalho havia recebido ameaças de donos de terra na região.”

Fonte: dhnet.org.br/dados/relatorios  

       Na reportagem publicada pela Revista Porantim (N. 313 - Março 2009 - http://www.revistamissoes.org.br/noticias_ler.php?ref=11209 - 03/04/2009), comenta-se o rol de Perseguições e assassinatos.
       “Para entender o sentimento da comunidade, é necessário resgatar o histórico de perseguições e crimes que vitimaram os Xukuru, desde quando eles reforçaram a luta para reconquistar seu território, na década de 1980”.

1992 - Everaldo Bispo dos Santos, filho do pajé Zequinha. Assassinado a tiros enquanto buscava cipó em uma mata. O autor dos disparos, o não-índio Egivaldo de Farias, nunca foi levado a Júri.

1995 - Geraldo Rolim da Mota Filho, Procurador da Funai, atuava na defesa da demarcação da terra Xukuru. Foi assassinado com tiros pelas costas, na cidade de Umbuzeiro, na Paraíba. Apesar de relacionado à questão fundiária indígena, o caso foi julgado na Justiça Comum. O autor dos disparos, fazendeiro Theopompo Siqueira de Brito foi absolvido por “legítima defesa”.

1998 - Francisco Araújo - Xicão Xukuru, cacique do povo. Assassinado a tiros por um homem desconhecido. Ele recebia ameaças de morte e também havia sido testemunha de acusação no caso do assassinato do procurador Geraldo Rolim. Na época, a Polícia Federal (PF) e o Ministério Público Federal (MPF) em Pernambuco trabalharam, principalmente, com as hipóteses de crime passional ou de disputa interna de poder. A partir da atuação de um departamento da PF de fora dos quadros pernambucanos, o inquérito identificou como responsáveis os pistoleiros (encontrado morto no Maranhão) e o mandante, o fazendeiro José Cordeiro de Santana (Zé de Riva), invasor de terra indígena, morto na carceragem da PF na véspera de seu depoimento.

2001 - Francisco Santana - Chico Quelé, liderança. Assassinado a tiros dentro da terra Xukuru. Novamente a PF e o MPF em Pernambuco privilegiaram a hipótese de disputa interna de poder como motivo para o crime. No inquérito, opositores de lideranças tradicionais foram testemunhas e importantes documentos desapareceram. Como conclusão, foram acusadas as lideranças Zé de Santa e Dandão (que ficou preso por quase um ano), que aguardam em liberdade o júri sobre o caso.

ROLIM, XICÃO E EU (Flávio J Jardim).

UM ENCANTADO: “Como cristão, não acredito na morte sem ressurreição: se me matarem, ressuscitarei no povo”

       É impressionante a semelhança da frase dita pelo Cacique Xicão, em 1991, quando praticamente “previu” sua imolação, com o trecho de um discurso de Dom Oscar Romero, mártir salvadorenho.
       Ao Jornal Excelsior, do México, duas semanas antes de sua morte, o bispo disse "Fui frequentemente ameaçado de morte. Como cristão, não acredito na morte sem ressurreição: se me matarem, ressuscitarei no povo salvadorenho. Digo isso sem nenhuma ostentação, com a maior humildade. Como pastor, sou obrigado, por mandato divino, a dar a vida por aqueles que amo, que são todos os salvadorenhos, até por aqueles que me assassinarem.

       O martírio é uma graça de Deus, que não me sinto na situação de merecer, entretanto, se Deus aceitar o sacrifício de minha vida, que meu sangue seja semente de liberdade. Pode escrever: se chegarem a me matar, desde já eu perdoo e benzo aquele que o faça”.

       Em 1991, Francisco de Assis Araújo, que estava ao lado do advogado Geraldo Rolim, disse uma frase semelhante, em uma “venda” na Pitanga. A frase foi presenciada por mim (na época, editor de um jornal local) e por Rolim, que foi brutalmente assassinado em 1995. “Se me matarem, viverei pra sempre na luta pela demarcação”, disse Xicão, com um olhar desolador.

       Xicão foi assassinado covardemente em 20 de maio de 1998, em frente à Escola João XXIII, no bairro do Xucurus, em Pesqueira.
       Nos próximos dias, será realizada mais uma Assembleia Xucuru que, claro, deve enfocar a vida e trajetória de Xicão, um mártir que se tornou encantado para milhares de índios. Seu assassinato teve repercussão mundial.
       “Alguém que derramou seu sangue por nossa tribo só pode ser Encantado”, disse o Cacique Marquinhos durante um evento, referindo-se ao seu pai, Xicão.

UM LEGADO


       O principal legado deixado por Francisco de Assis Araújo é a sua humildade e determinação. A certa altura de sua vida, se conscientiza e muda de visão. Ao presenciar seu povo sendo oprimido e sem um líder, Xicão aceita a luta e passa a reivindicar os direitos. A vida de Xicão era pautada no bem-comum e serve de modelo para todos os integrantes da Tribo Xukuru.

       Aliás, Xicão é um símbolo da luta indigenista em todo o mundo. “Era um homem de profunda ação e de amor à vida, profundamente espiritual e ao mesmo tempo comprometido com a justiça, à liberdade e a paz. Um modelo a imitar”, dizem historiadores da causa indígena.
       Lembrar de Rolim, também é lembrar Xicão e da luta dos Povos Indígenas.

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