Política

MULHERES XUKURU | “Quando uma guerreira se levanta, todo um povo resiste”: a força das mulheres marca a histórica 26ª Assembleia Xukuru do Ororubá em Pesqueira

Encontro ancestral reuniu lideranças, juventude e comunidades indígenas no território Xukuru e transformou o protagonismo feminino em símbolo de resistência, memória e futuro

Por Flávio José Jardim atualizado há 4 horas
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MULHERES XUKURU | “Quando uma guerreira se levanta, todo um povo resiste”: a força das mulheres marca a histórica 26ª Assembleia Xukuru do Ororubá em Pesqueira

 

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´ (Flávio/flaviojjardim.com.br)

 

Em meio às montanhas sagradas da Serra do Ororubá, em Pesqueira, a 26ª Assembleia Xukuru
do Ororubá entrou para a história como um dos encontros mais emocionantes e simbólicos já
realizados pelo povo indígena pernambucano. Com o tema “Limolaygo Toype: a cada guerreira
que se levanta, nossa luta se fortalece”, o evento transformou o território Xukuru em um
poderoso espaço de espiritualidade, memória, resistência e afirmação da força feminina
indígena.


Realizada entre os dias 17 e 20 de maio, no Espaço Mandaru, na Aldeia Pedra D’Água, a
assembleia reuniu lideranças tradicionais, professores, juventude, mulheres guerreiras e
representantes das aldeias em uma grande mobilização coletiva. Mais do que um encontro
político e cultural, a assembleia reafirmou o compromisso do povo Xukuru com a defesa do
território, da ancestralidade e dos direitos indígenas diante dos desafios enfrentados pelos
povos originários em todo o Brasil.


Mas foi no segundo dia da programação que o coração da assembleia pulsou ainda mais forte.
Uma mesa composta exclusivamente por mulheres Xukuru emocionou os participantes ao
transformar experiências de vida em testemunhos de coragem, resistência e esperança.


Lideranças femininas, professoras, jovens e representantes das aldeias compartilharam
histórias marcadas pela luta pela terra, pela preservação da cultura e pela continuidade do
legado ancestral que sustenta o povo Xukuru há gerações.


A presença de Zenilda Xukuru, viúva do inesquecível Cacique Xikão Xukuru, deu ao encontro
um significado ainda mais profundo. Símbolo vivo da resistência indígena em Pernambuco,
Zenilda carregou consigo a memória de uma das maiores lideranças indígenas do país,
assassinado em 1998 durante o processo de luta e retomada territorial do povo Xukuru. Sua
fala emocionou os presentes e reforçou que a luta iniciada por Xikão continua viva nas
mulheres que hoje conduzem o futuro do território.


Cada depoimento ecoou como um chamado coletivo à união. Mulheres que enfrentaram
perseguições, preconceitos e dificuldades sociais reafirmaram o papel essencial feminino na
proteção da cultura, da espiritualidade e da identidade Xukuru. Ao lado dos guerreiros, elas
seguem firmes na construção do chamado Bem Viver, fortalecendo a autonomia do povo
indígena e garantindo que as futuras gerações herdem um território de dignidade, tradição e
pertencimento.


“Foi um momento de partilha, ancestralidade e resistência, onde ecoaram as vozes das que
vieram antes de nós e das que continuam abrindo caminhos para as futuras gerações”,
destacou Mika Xukuru durante o encontro. A declaração sintetizou o sentimento vivido
durante toda a assembleia: um encontro guiado não apenas pela política, mas pela emoção,
pela memória e pela força espiritual das mulheres indígenas.


A programação da 26ª Assembleia também foi marcada por momentos de Toré, celebrações
culturais, rodas de diálogo e debates sobre direitos indígenas, preservação ambiental e
fortalecimento comunitário. O evento reafirmou a assembleia como um dos maiores símbolos
de mobilização indígena de Pernambuco, reunindo centenas de participantes em torno da
valorização da identidade e da permanência dos povos originários em seus territórios.


Outro momento histórico da abertura foi a homenagem ao Pajé Zequinha, que recebeu o título
de Doutor Honoris Causa concedido pela Universidade Federal de Pernambuco,

reconhecimento que simbolizou o respeito à sabedoria ancestral e à chamada “Ciência
Encantada” cultivada pelo povo Xukuru. A cerimônia emocionou lideranças e fortaleceu ainda
mais o sentimento de orgulho coletivo vivido durante a assembleia.


A cada edição, a Assembleia Xukuru do Ororubá se consolida como muito mais do que um
encontro anual. Ela se transforma em um território de resistência viva, onde passado, presente
e futuro caminham juntos. É nesse espaço que o povo Xukuru reafirma sua identidade,
fortalece suas raízes e mantém acesa a luta histórica pela terra, pela cultura e pela liberdade.


O protagonismo feminino, destaque central da edição deste ano, mostrou que as mulheres
Xukuru não ocupam apenas espaços simbólicos: elas lideram, organizam, protegem e inspiram.
São guardiãs da memória ancestral e protagonistas de um movimento que une espiritualidade,
coragem e transformação social. Em cada canto da Serra do Ororubá, suas vozes ecoaram
como sementes de resistência.


A força das mulheres Xukuru também revelou ao Brasil uma nova dimensão da luta indígena:
uma luta conduzida pelo cuidado, pela coletividade e pela sabedoria ancestral feminina. Em
tempos de tantos desafios para os povos originários, a assembleia mostrou que a resistência
continua viva através das mães, professoras, jovens, lideranças e guerreiras que seguem
defendendo o território com firmeza e dignidade.


Ao final da 26ª Assembleia, ficou a certeza de que a história do povo Xukuru continua sendo
escrita com coragem. E, desta vez, foram as mulheres que assumiram o centro da cena,
transformando o encontro em um marco de emoção, consciência e fortalecimento coletivo. Na
Serra do Ororubá, a voz das guerreiras mostrou que enquanto existir memória, espiritualidade
e união, a luta do povo Xukuru jamais será silenciada.

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p (Flávio/flaviojjardim.com.br)

 

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