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NOSSOS FILHOS RECLAMAM DA VIDA? | Renata Joyce é exemplo de superação. Agora vai ser monitora de um programa social que um dia foi usuária

A impressionante História de Vida da pesqueirense Renata Joyce. Foi criança carente atendida por programas sociais, e agora será monitora de um programa social, retribuindo todo o amor e carinho que recebeu. O Secretário de Assistência Social e Cidadania de Pesqueira, Samuel Dinho, apostou nela e deu oportunidade

Por Flávio José Jardim atualizado há 3 anos
Publicado em 24 de fevereiro de 2021, 09h52

NOSSOS FILHOS RECLAMAM DA VIDA? | Renata Joyce é exemplo de superação. Agora vai ser monitora de um programa social que um dia foi usuária

       “Todo amor, todo carinho e apoio que recebi, vou repassar para as crianças atendidas pelos programas sociais. Quero dar meu melhor a cada um”.

       A frase forte e emocionada é de Renata Joyce Santos de Lima, uma garota de 22 anos, que passou a infância sendo atendida por programas sociais em Pesqueira, município do Agreste de Pernambuco.

       Chamamos de “garota” pelo seu corpo franzino, mas Renata tem uma força gigantesca, um senso de superação enorme e intenso, capaz de mudar a opinião daqueles que têm uma condição melhor, mas reclamam da vida.

       Como pais, atualmente, nós olhamos para o passado e vemos que nossas infâncias foram difíceis e nunca vamos entender hoje nossos filhos jogando Free Fire, PK XD, Minecraft, com uma cama quente para dormir, comida na mesa, educação em dia, celular e redes sociais nas mãos, mas que ainda reclamam da situação.

       A pesqueirense Renata Joyce não teve nada disso e, com sua vontade de vencer e sobreviver em meio a um caos terrível, lutou, aprendeu a dançar, tocar instrumentos e agora vai realizar um sonho: ser monitora de um programa social que ela mesma foi atendida durante toda sua infância.

FORÇA PARA SOBREVIVER

       Mas, para entender melhor a vida e a trajetória de Renata Joyce, temos que voltar um pouco a linha do tempo, sem cortes.  

       O ano era 1999. A bebê Renata nascia prematura de 7 meses no Hospital Dr. Lídio Paraíba, em Pesqueira. Devido às condições em que nasceu, muito pouco peso, passou mais de 9 meses entre incubadora, UTI e enfermaria do hospital.

       “Na época os médicos perguntaram à minha mãe se ela preferia que a filha morresse? Porque mãe estava muito agoniada para me levar pra casa, já não aguentava mais a rotina do hospital”, conta Renata.

       A bebê permaneceu no hospital até atingir o peso ideal para ser levada para casa. Mas, pouco tempo depois, teve asma e pneumonia. “Eu passava mais tempo no hospital do que em casa e meus pais tinham que trabalhar de bicos ou pegando frete”, lembra Renata.

       Em determinado tempo, a mãe precisou fazer um tratamento contra a doença de Chagas, no Recife. Renata (já mais grandinha) e a irmã passaram um tempo apenas com o pai. Num dia, elas tiveram que ficar em casa só, porque o pai precisou fazer um trabalho de pedreiro na região.

       Quando o pai voltou viu que uma das paredes do casebre, no bairro Centenário, caiu por cima de Renata. “Ele conta que me chamava, me chamava e eu não respondia. Achou que estava morta. Desesperado, retirou as metralhas e meu achou. Novamente fui para o hospital”, narra Renata.

       Com a mãe fazendo esse tratamento, Renata e a irmã ou ficavam com o pai ou com a “avó de coração”, uma senhora que via a triste situação e ajudava.

       Renata conta que moravam num casebre de apenas um vão, atravessando sérias dificuldades. “Como meu pai nunca teve um emprego fixo, algumas pessoas ajudavam e nós nos mantínhamos como podíamos, com o mínimo para sobreviver”, lembra Renata.

       Até hoje, o pai trabalha como pedreiro e faz bicos quando aparece. “Foi uma vida extremamente difícil. Entre meus cinco a sete anos, conheci o professor Júnior do Cavaco e ele me convidou para ir aprender música em um projeto social (Sementes do Amanhã) onde ela dava aulas”.

       Através de Júnior do Cavaco, Renata conseguiu uma vaga no Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos, que naquela época chamava-se PETI e Pro-Jovem.

E O SOL NASCE PARA TODOS...

       Renata conta que quando foi para esses programas sociais sua vida começou a mudar. “Conheci novas pessoas, fiz novas amizades, iniciei nas aulas de dança, a me dedicar a música. O PETI e o Pro-Jovem sempre foram minha segunda família”, explica.

       Inclusa no programa social, Renata diz que foi muito bem tratada e foi pela primeira vez que ela se sentiu cuidada. “Eles se preocupavam comigo e com a minha família”, destaca.

       Daí, um mundo novo foi apresentado à Renata. Ela aprendeu música, dança, teatro, artesanato, capoeira, tae-kwon-do e passou a ver a vida de forma diferente.

       No grupo, Renata diz que viveu momentos muito felizes, como viagens ao Recife para o zoológico e o Jardim Botânico. “Aprendi muita coisa e foi quando comecei verdadeiramente a me integrar”, explica.

       Um tempo depois que terminou seu tempo no PETI, Renata e a família foram contempladas com uma casa no Residencial Baixa Grande, onde ela mora até hoje. Devido à proximidade, ela começou a visitar o Movimento Fraterno de Ação Comunitária (MOFAC), em Pedra Redonda, mas logo ficou maior de idade e não poderia mais participar, “mas a coordenadora, vendo a situação ainda difícil, autorizou que eu ficasse”.

       Depois desse período, ela voltou a CRAS (agora Serviço de Convivência), que fica por trás da Escola Marcelino Xavier, em Pedra Redonda. Participou ainda do NUCA, um projeto social implantado em Pesqueira. Renata era integramente do MOFAC e teve participação do NUCA.

UMA PORTA SE ABRE...

       Já em janeiro deste ano, o professor Junior do Cavaco, muito importante na vida de Renata, disse que tentaria ajudar e falaria com pessoas para tentar conseguir um emprego para ela. O professor Dimas também sempre viu o potencial de Renata.

       “Eu sempre sonhei ser professora, monitora, oficineira, para justamente ajudar as crianças de Pesqueira. Os programas sociais foram muito importantes para mim e quero retribuir todo o amor e carinho que recebi”, diz Renata, acrescentando que “até hoje ama participar de grupos sociais”.

SAMUEL DINHO

       É aí onde entra o atual Secretário de Assistência Social e Cidadania de Pesqueira, Samuel Dinho. Ele já sabia da trajetória, do talento de Renata e que ela “seria uma pessoa mais que indicada para continuar um trabalho feito com amor e dedicação”. Afinal, disse Samuel Dinho, ela já esteve do outro lado, já foi assistida pelos programas sociais.

       Foi uma ideia genial. Samuel, Junior do Cavaco, Claudivan e Dimas foram até a casa de Renata e Samuel Dinho a convidou para integrar o quadro de monitores e oficineiros de um programa social. Ela, emocionada, aceitou.  

       “É uma oportunidade única. Meu sonho. Vou ter a oportunidade de trabalhar nos projetos da nossa cidade e o que eu aprendi vou repassar com todo meu amor e carinho para as crianças que vivem na mesma situação em que eu vivi. É uma forma de retribuir todo a atenção e amor que recebi”, frisa Renata.

       Infelizmente, no próximo domingo, dia 28 de fevereiro de 2021, completa um ano da morte da mãe de Renata. Mesmo adoentada e com sérios problemas psicológicos, o sonho da mãe era ver Renata com um emprego e fazendo o que mais gosta: trabalhar com crianças em situação de vulnerabilidade e ajudar ao próximo, como Renata foi auxiliada.

       “É a maior alegria que tenho neste momento, mesmo com minha mãe falecida realizar esse sonho dela. Onde ela estiver creio que vai me ajudar nessa nova trajetória”, diz Renata.

       “Vou passar para as crianças tudo aquilo que aprendi todos esses anos, como todo o amor, todo carinho, todo apoio que recebi vou repassar em dobro. Quero dar meu melhor nessa nova oportunidade”, finalizou Renata.

OPORTUNIDADE

       Em entrevista ao Site Flávio J Jardim – Notícia Verdade, o Secretário de Assistência Social e Cidadania da Prefeitura de Pesqueira, Samuel Dinho, disse que acredita que o protagonismo social deve ser dado às crianças, jovens e adolescentes atendidos pelos programas de apoio.

       O desânimo, a falta de oportunidades, segundo ele, atrapalham e dificultam a conquista dos objetivos de nossas crianças. “Mas a forma como encaramos essas experiências faz grande diferença para não deixarmos os jovens, crianças e adolescentes se abaterem, mas sim continuar perseguindo os seus sonhos”, ressalta Dinho.

       Muitas crianças só precisam de um incentivo. Elas, com atitude, podem mostrar que são exemplos de superação. 

       “As dificuldades nos permitem repensar nossos comportamentos e melhorarmos a cada dia. Transformá-las em aprendizado podem ser atitudes constantes entre as pessoas. Ao invés de nos lamentarmos ou desistir diante de algum problema, podemos nos inspirar em história como essa de Renata para colher bons ensinamentos e vencermos também”, explica Samuel Dinho.

       Dinho finalizou dizendo que “Não precisa ir muito longe para encontrar alguém que fez da superação o elemento fundamental de sua vida. Aqui em Pesqueira temos muitos exemplos. A nova administração quer isso, dar protagonismo e ganho social para nossas crianças, nossos jovens e nosso adolescentes”, destacou Samuel Dinho.

       “Contar com Renata nos nossos programas sociais é um exemplo de como poderemos avançar ainda mais e governar para todos, sem distinção”, concluiu Dinho.

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