O GOLPE DO TIO PAULO: FILHO TENTA EMPRÉSTIMO COM PAI MORTO E É PRESO EM MANAUS
Homem leva cadáver do pai a banco para fraude e revela retrato cruel do desespero e da miséria
Por Flávio José Jardim
atualizado há 1 ano
Publicado em
Uma cena que remete ao cinema de humor negro, mas que na vida real ganhou contornos de tragédia urbana. No último sábado (07), em Manaus, um homem de 42 anos foi preso ao tentar obter um empréstimo bancário levando o pai, já sem vida, em uma cadeira de rodas até uma agência no centro da cidade. O caso, que rapidamente chamou a atenção das redes e chocou a população, escancara a dura realidade social de muitas famílias brasileiras.
Segundo a Polícia Civil, o suspeito — identificado como Paulo R. — alegou estar desempregado há meses e afirmou que pretendia usar o dinheiro do empréstimo para comprar alimentos e produtos de higiene. “Eu precisava muito desse dinheiro. O banco só libera com ele junto. Eu pensei que ia dar certo”, teria dito, entre lágrimas, à delegacia.
O pai, Benedito R., de 77 anos, era hipertenso, diabético, usava bolsa de colostomia e, segundo o Instituto Médico Legal, já apresentava rigidez cadavérica no momento em que foi retirado de casa. O laudo indicou que ele poderia estar morto havia pelo menos quatro horas. Ainda assim, Paulo o vestiu com cuidado, ajustou-o na cadeira de rodas, e o conduziu pelas ruas até o banco, onde a movimentação incomum logo chamou a atenção de funcionários.
“Ele tentava movimentar a mão do pai, como se estivesse vivo”, relatou um dos gerentes. “Pedia para ele assinar. Mas a gente percebeu algo estranho e chamamos a polícia.” A chegada da viatura interrompeu o que já parecia uma pantomima absurda. Paulo foi levado à delegacia e segue sob custódia, aguardando os desdobramentos do inquérito.
A investigação, conduzida pelo delegado Adanor Porto, considera duas possíveis acusações: vilipêndio de cadáver e tentativa de estelionato. “Se ficar comprovado que ele sabia da morte e mesmo assim tentou realizar uma transação financeira com o corpo do pai, responderá criminalmente”, explicou Porto em entrevista à imprensa local.
Nas redes sociais, o episódio foi rapidamente batizado de “Golpe do Tio Paulo”, com memes e comentários que oscilam entre o humor desconcertado e a indignação. Internautas questionam como a pobreza extrema pode levar alguém a um ato tão perturbador. “Triste demais rir disso, mas o Brasil é um país onde o absurdo se mistura com a miséria todos os dias”, comentou um usuário do X (antigo Twitter).
O caso também acendeu o debate sobre a vulnerabilidade social. Paulo relatou que cuidava do pai sozinho, sem apoio do Estado, e que vinha tentando, há meses, obter auxílio ou benefício para a família. "Ele estava no desespero. Não é certo o que fez, mas é uma denúncia viva do abandono", afirmou um vizinho, que preferiu não se identificar.
Entre a bizarrice e o drama, o caso de Paulo expõe, como poucos, o abismo entre a dignidade humana e a burocracia cega. Um empréstimo negado, um corpo em uma cadeira de rodas, e uma cidade inteira assistindo — perplexa — ao limite trágico da sobrevivência.
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