PESQUEIRA: O JULGAMENTO DO CACIQUE QUE PODE MUDAR O DESTINO POLÍTICO DA CIDADE
TRE-PE julga nesta terça-feira o processo que pode cassar o mandato do prefeito Cacique Marcos; cidade vive clima de expectativa e incerteza
Por Flávio José Jardim
atualizado há 11 meses
Publicado em
PESQUEIRA (PE) - Pesqueira amanhecerá diferente nesta terça-feira, 7 de outubro. Nas praças, nas esquinas, nos grupos de WhatsApp e nas rádios locais, só se fala em uma coisa: o julgamento do prefeito Marcos Luidson de Araújo, o Cacique Marcos, no Tribunal Regional Eleitoral de Pernambuco (TRE-PE). O processo, que pode culminar na cassação do mandato do líder político e indígena, promete paralisar a cidade — e talvez redefinir os rumos da política no Agreste pernambucano.
O julgamento será transmitido ao vivo pelo canal oficial do TRE-PE no YouTube, permitindo que cada cidadão acompanhe, em tempo real, o desenrolar de um dos capítulos mais decisivos da história política recente de Pesqueira. É como se o tribunal, em Recife, se transformasse por um dia em um espelho das tensões, paixões e esperanças de um povo que aprendeu a viver intensamente cada virada política.
A acusação é abuso de poder político. Caso o tribunal entenda que houve interferência indevida no processo eleitoral, o prefeito e sua vice, Cillene do Sindicato, poderão perder seus mandatos. A decisão caberá aos desembargadores do TRE-PE, que analisarão provas, depoimentos e argumentos de defesa e acusação — tudo sob o olhar atento da opinião pública.
Na Câmara de Vereadores, o presidente Guila Araújo (PDT) — aliado e defensor ferrenho do prefeito — foi o primeiro a se pronunciar oficialmente sobre o caso. Em tom confiante, afirmou que “a justiça prevalecerá e reconhecerá a inocência do Cacique”. Para Guila, o julgamento representa não apenas um teste jurídico, mas também um momento de afirmação política. “Pesqueira precisa de estabilidade, e o prefeito tem trabalhado incansavelmente pelo povo”, declarou.
Mas nas ruas, o clima é outro. Há quem defenda o Cacique com fervor e há quem deseje ver o governo ruir. Nas conversas entre comerciantes e agricultores, entre lideranças comunitárias e jovens, o tom é de suspense. A cidade, que há um ano se dividia entre dois candidatos, agora se vê diante de um cenário de incertezas.
A vitória de Cacique Marcos, em 2024, foi considerada um marco. O líder Xucuru conquistou 56% dos votos, derrotando o Delegado Rossine. Na época, o Cacique prometeu um governo “de todos e para todos”, e garantiu: “Pesqueira não será dividida, será unida pela força do povo”.
Um ano depois, o mesmo povo que o elegeu aguarda em silêncio o veredito da Justiça Eleitoral. O que está em jogo vai além de um cargo político — é a imagem de um líder que simbolizou resistência e ancestralidade, e que agora enfrenta uma das maiores provações de sua trajetória.
Nos bastidores, aliados políticos tentam conter danos e demonstrar força. A prefeitura segue em funcionamento. Interlocutores do prefeito afirmam que ele confia plenamente na Justiça e acredita que será absolvido.
Já os opositores veem no julgamento uma oportunidade de “restabelecer a ordem”. Argumentam que o processo eleitoral foi contaminado por práticas questionáveis e que a cidade precisa “virar a página”. “O poder não pode estar acima da lei”, disse um ex-candidato a vereador que preferiu não se identificar.
GUILA ASSUME?
Caso o TRE-PE decida pela cassação da chapa, o impacto será imediato. O presidente da Câmara, Guila Araújo, assumirá temporariamente a prefeitura até novas eleições. Jovem, carismático e com uma votação expressiva (1.088 votos conquistados), Guila é visto como um nome promissor — mas também carrega o peso de representar uma transição delicada.
Guilherme Araújo Marinho Magalhães, o “Guila”, ganhou notoriedade por seu discurso renovador e seu foco em políticas para a juventude, educação e cultura. Caso assuma o Executivo, ele terá o desafio de equilibrar expectativas e manter a governabilidade em meio à tempestade política.
Enquanto isso, a população se prepara para acompanhar o julgamento como quem assiste a uma final de campeonato. A cidade inteira parece prender a respiração diante do que pode ser um divisor de águas na história de Pesqueira.
A lembrança da eleição de 2024 ainda é recente. Muitos ainda guardam a emoção da vitória, as lágrimas, os cânticos, a promessa de um governo que seria “a voz do povo Xukuru e de toda Pesqueira”. Agora, porém, o tom é outro. Há medo. Há esperança. E há, sobretudo, a sensação de que o destino da cidade está sendo decidido longe dali, nos corredores de um tribunal na capital.
Se absolvido, Cacique Marcos sairá fortalecido politicamente, quase como um mártir. Seus apoiadores já preparam manifestações de apoio, e o discurso de resistência promete ecoar nas redes sociais e nas rádios. Mas, se condenado, o abalo será profundo — tanto para o governo quanto para a própria identidade política da cidade.
Pesqueira vive, mais uma vez, um daqueles momentos em que o tempo parece suspenso. O futuro de uma gestão, o legado de um líder e o equilíbrio político do Agreste estão em jogo. O relógio corre, e a cidade aguarda — com o coração apertado e os olhos voltados para a tela do YouTube onde será transmitido o julgamento.
Nesta terça-feira, Pesqueira vai parar. E, quando o martelo bater no TRE-PE, não será apenas um julgamento jurídico. Será o julgamento de uma história — e de um símbolo que, para muitos, representa a própria alma da cidade.
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